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“É inadmissível a política de crédito ao consumo, após 1987, que tem
provocado uma enxurrada de acções de dívida”, denunciou Noronha do
Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Só as operadoras
de telemóveis, apontou, moveram cerca de cem mil acções”. O sistema de
execução “não funciona. Há um milhão nos tribunais”, sublinhou.
Noronha do Nascimento preconizou, entre outras medidas, a investigação
criminal centrada na instrução, sob a tutela de juízes. Todavia, para o
Procurador-geral da República, Pinto Monteiro, “o juiz deve julgar e
não investigar”. A questão nuclear dos tribunais “é de civilização”.
Durante o debate na Universidade Lusíada, no Porto, sobre o estado da
Justiça, Pinto Monteiro reconheceu que o sector atravessa uma crise “de
identidade e de eficiência”. Situação que deriva “da desadequação das
leis aos tempos actuais”. Ilustrou com a rápida circulação de capitais,
o derrube de muitos muros e a evolução tecnológica. Pinto Monteiro
compreende que, em grande parte do mundo, haja descontentamento da
população face ao aparelho da justiça e certas tentações do poder
executivo em intervir no poder judicial.
No entender do procurador, o Ministério Público (MP) tem de perfilhar
uma justiça mais próxima do cidadão, sendo dotado de especialistas em
diversas áreas. É que, em relação às empresas, “temos um milhão de
documentos para analisar”. O procurador tem, no entanto, uma visão
“moderadamente optimista do evoluir da justiça”.
Marinho Pinto, presidente da Ordem dos Advogados (OA), divergiria de
Noronha do Nascimento, proclamando que a justiça deve assentar nos
advogados, magistrados, delegados do MP. Criticou o facto de se
legislar na senda do alarme social, “de uma abertura do telejornal ou
de uma manchete de um jornal”.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 03.06.2008
Juízes devem (só) julgar
O Procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, manifestou-se
ontem, no Porto, contra uma eventual passagem da tutela da investigação
criminal para a magistratura judicial, ao comentar uma ideia defendida
num debate.
“A investigação criminal está bem como está”, dirigida pelo Ministério
Público, afirmou Pinto Monteiro, em breves declarações aos jornalistas,
no final de um longo debate sobre o estado da Justiça em Portugal,
promovido pela Universidade Lusíada.
“Os juízes devem julgar, não investigar”, frisou Pinto Monteiro.
O debate, que se prolongou por cerca de três horas, ficou também
marcado por acusações do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho
Pinto, sobre uma alegada prepotência dos juízes nos tribunais.
“Em 41 anos de magistratura, nunca tive problemas com advogados”,
desvalorizou o PGR, defendendo que “a tendência para invadir as
competências dos outros é uma questão civilizacional”.
O bastonário criticou, também, o que considerou serem os “demasiados
poderes” do Conselho Superior da Magistratura (CSM), presidido por
inerência de funções pelo presidente do Supremo Tribunal de justiça
(STJ), Noronha do Nascimento, também presente no debate e que rejeitou
as acusações de Marinho Pinto, ironizando: “Um dia ainda vou ser o
homem mais poderoso do país”.
O novo modelo de gestão dos tribunais (mapa judiciário) proposto pelo
Governo, que prevê a figura do juiz presidente, também foi criticado
por Marinho Pinto, para quem seria preferível a existência de “um órgão
de gestão”, onde estivessem representados todos os profissionais
envolvidos no tribunal.
Esta questão também suscitou comentários irónicos de Noronha do
Nascimento, que propôs que “esse modelo (do órgão de gestão)” seja
adoptado pela Ordem dos Advogados.
JORNAL DE NOTÍCIAS | 03.06.2008
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