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O Tribunal de Comércio de Lisboa está
"na completa ruptura". Maria José Costeira, juíza-presidente de uma
instituição particular- mente importante para a actividade das empresas,
garante que não pode fazer mais do que atender a providências
cautelares, recursos de contra-ordenação e processos de insolvência.A Juíza-Presidente dramatiza situação de tribunal crucial para as empresas. Acusa o legislador de ignorância e confessa: não investiria em Portugal. Nos últimos sete meses, foram distribuídos 926 processos no Tribunal de
Comércio de Lisboa, dos quais 523 têm natureza urgente e em 69 há risco
de prescrição. A presidente do tribunal diz que só está a tramitar
providências cautelares, processos de insolvência e recursos de
contra-ordenação. Todos os demais processos estão parados.
O Tribunal do Comércio de Lisboa está "na
completa ruptura". A juíza-presidente da instituição, uma das mais
importantes para a actividade das empresas, compara o crescimento dos
processos com a exiguidade de meios e garante que não consegue fazer
mais do que atender a providências cautelares, recursos de
contra-ordenação e processos de insolvência. Tudo o mais está parado.
Apresentado
dados sobre os processos que tem na secretária (só nos últimos sete
meses foram distribuídos 926 processos, dos quais 523 têm natureza
urgente e 69 estão em risco de prescrição - ver tabela), Maria José
Costeira sentencia: "Se eu fosse um estrangeiro, não investia em
Portugal". Por causa da Justiça. "Eu não gostaria de estar no papel de
um administrador português que tem de justificar a um investidor
estrangeiro a inoperância da justiça em Portugal."
A juíza presidente
exemplifica com as próprias providências cautelares, que, recorde-se,
são supostamente processos rápidos que visam impedir danos resultantes
da demora de um processo principal. "Nove meses depois de [uma empresa]
apresentar uma providência cautelar ainda não há decisão e já não vale
a pena decidi-la porque ela já é inútil. Como é que isto se explica a
um estrangeiro? Devem pensar que este é um país de malucos."
Estas declarações foram ontem proferidas por Maria José Costeira num Fórum organizado pela Associação
dos Consultores em Propriedade Industrial e apoiado pelo Jornal de
Negócios. Presente na plateia, Cristina Alves, representante da Nike em
Portugal, anuiu: "Não é fácil reportar a um estrangeiro que se gastam
milhares de euros num processo que depois não anda. E ridículo e
vergonhoso, Portugal não tem um sistema credível".
O Tribunal de
Comércio de Lisboa (TCL) é um dos mais importantes para as empresas,
pois aprecia casos de falências e recuperação de empresas, propriedade
industrial, recursos de concorrência (da Autoridade da Concorrência) e
telecomunicações (Anacom).
Três mil processos por juízo
"Muitos
processos estão rigorosamente parados". A ruptura tem, na explicação
de Maria José Costeira, um desequilíbrio entre procura e oferta: por um
lado,estembunal recebe cada vez mais processos, em resukado do
alargamento sucessivo de competências
ao longo dos anos mas também da crise económica, que leva ao aumento
dos processos de insolvência e da litigância entre as sociedades
comerciais, além de que "o caos que se instalou no tribunal de execução
de Lisboa" fez os credores preferirem processos de insolvência do que
propor execuções, do outro lado estão os meios cada um dos quatro
juízos tem um juiz e seis funcionários (um escrivão, dois escrivães-adjuntos e dois escrivães-auxiliares).
O problema adicional é que o quadro
do Tribunal nem sequer está preenchido, há três anos que não há
admissões na Justiça.
Perante uma média de três mil processos por
juízo e "doze novas providências cautelares por mês para quatro juízos,
não dá". Resultado: "Chegámos a um ponto de ruptura e que não é fácil
resolver."
Processos que deram entrada no TCL desde 1 de Setembro de 2007
Acções declarativas sob a forma de processo ordinário e sumário 121
Acções declarativas sob a forma de processo especial 29
Acções distribuidas na 10.ªespécie - recursos 184
Recursos de contra-ordenação Autoridade da Concorrência 60
Recursos de contra-ordenação Anacom 10
Processos de insolvência 469
Providências cautelares excluindo as já apensas às respectivas acções 54
Providências cautelares incluindo as já apensas às respectivas acções 89
Propriedade industrial
Perante urna plateia de
profissionais de propriedade industrial, a presidente do TCL
especificou que "um dos maiores desafios é convencer o legislador de
que não há defesa dos direitos da Propriedade Industrial se não se
adequar o quadro do tribumi à realidade. Sem isso, muitos processos vão
continuar parados." Seguiram-se os exemplos: Há quatro anos houve uma
providência cautelar cuja acção principal está a decorrer agora"; "por
vezes a resposta é tão tardia que quase compensa a anulação da
propriedade industrial"; "foi este ano feito um julgamento de um
processo que entrou em 2000, a patente já caducou".
Tribunal para Propriedade Industrial "vai começar torto"
O novo mapa judiciário prevê a
autonomização da Propriedade Industrial num tribunal de competência
especifica em 2010.
"Boa sorte", deseja Maria José Costeira, que
suspeita que esse tribunal não terá mais do que um juízo. Se assim for,
"começará torto". A Propriedade Industrial tem aliás sido alvo de
novidades legislativas, incluindo a directiva do "enforcement" e o
projecto Código de Propriedade Industrial, que levanta críticas da
Associação dos Consultores em Propriedade Industrial, presidida por
César Bessa Monteiro. Costeira fala de "disparates" e da interpretação
que cada juiz terá de fazer sobre a matéria: "A lei é feita por quem
não faz a mínima ideia do que é o Direito." Já António Campinos,
presidente do INPI, mostra-se optimista com os meios criados.
JORNAL DE NEGÓCIOS | 09.04.2008
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