|
Quer for ao Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, em má hora o pode fazer, porque corre o risco de ser mordido por pulgas, como já aconteceu a um Juiz. Os Juízes já se tinham queixado da praga de ratos que chegaram a roer processos. Agora a estes, acrescem as pulgas. É a importância que é dada aos Tribunais, órgão de soberania e casa da justiça para o cidadão, enquanto o poder político goza de gabinetes e instalações equipadas com o mais elevado e recente luxo, sistemas de segurança, ar condicionado e demais bem-estar.
Um juiz do Tribunal da Boa, Lisboa, queixa-se de ter sido atacado por pulgas no próprio gabinete de trabalho, na 8 .ª Vara Criminal.
O
juiz-administrador do Tribunal da Boa Hora, Raul Esteves, referiu ao
nosso jornal desconhecer ainda o caso do colega mordido pelas pulgas,
mas admitiu que possa ter ocorrido, tanto mais que os ratos são uma
autêntica praga que infesta o edifício secular. Este responsável
assegurou que a construção é submetida regularrnente a desinfestações
tendo em vista eliminar os roedores.
O magistrado considera que o
caso reflecte a forma como o poder político trata a administração da
justiça, não lhe disponibilizando os meios necessários e suficientes,
como sejam instalações condignas. "Ainda há pouco tempo, em pleno
século XXI, descobriu-se que o tribunal de Alfândega da Fé, Bragança,
não tem nenhuma casa de banho", sublinhou.
Diversos funcionários
Judiciais confirmaram que o Tribunal da Boa Hora está há vários meses infestado por pulgas, adiantando que estes insectos estarão
concentradas no arquivo e, depois, espalham-se pelas instalações à
medida que os processos são levados para serem consultados nas Varas
Criminais.
O presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais,
Fernando Jorge, não ficou nada surpreendido com estes factos:
"Infelizmente trata-se de uma situação recorrente no tribunal da Boa
Hora, onde ainda há tempos houve ratos que roeram processos. A
antiguidade das Instalações daquele antigo convento não proporciona
um nível de higiene muito elevado. O aparecimento de pulgas já tinha
sido detectado, nomeadamente, em zonas de arquivo onde estão acumulados
alguns processos com o papel em deterioração"
Magistrados apresentam queixa
Ainda
este ano foi feita uma desinfestação do tribunal, na altura em que os
juízes da 4.ª Vara Criminal denunciaram a falta de condições de trabalho
e de higiene, depois de terem encontrado "um rato em estado de
decomposição" num dos gabinetes. Num requerimento dirigido à
Direcção-Geral da Saúde e à lnspecção-Geral do Trabalho, os magistrados
daquela 4.ª Vara dizem que o rato morto foi descoberto num cachecol que
estava dobrado numa prateleira da mesa do computador. Outras pessoas já
viram ratos, mas vivos.
"A par da existência destes animais, as
condições de higiene nas instalações sanitárias, ou melhor, a total
ausência das mesmas, espelha-se no facto de os sistemas de autoclismo
quase não funcionarem, levando a que, a partir das 14 horas, estejam
praticamente inutilizáveis" queixam-se os juizes.
Para os
subscrltores do documento igualmente enviado ao ministro da Justiça e
ao vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura - "os aspectos
apontados são susceptíveis de colocar em perigo a saúde pública e, com
particular acuidade, de todos aqueles que trabalham no tribunal".
Os
juizes lembram que, na sequência de uma exposição semelhante datada de
30 de Novembro de 2004, foi efectuada uma inspecção às Instalações do
Tribunal da Boa-Hora, constatando "a existência de ratos e pulgas e as
deficientes instalações sanitárias".
Para a resolução do problema
foi proposta a colocação de ratoeiras, o que foi feito. "Contudo, e
como era previsível, a solução apresentada não foi suficiente
considerando o estado de degradação do edifício", dizem os magistrados.
Perante
os factos, os juizes pediram que, com a máxima urgência, fossem
averiguadas as situações relatadas para serem tomadas "as necessárias
medidas destinadas a pôr cobro a tão degradantes condições de trabalho".
Juízes acusam poder político
O
juiz desembargador António Marfins, presidente da Associação Sindical
dos Juízes Portugueses (ASJP), encara com "preocupação" os factos
registados na Boa Hora, sublinhando que os tribunais são a casa da
justiça e, portanto, os cidadãos devem ter as melhores condições para
os seus direitos serem ponderados e analisados.
"Nos edifícios em que
temos péssimas condições de trabalho é evidente que tudo isto se
reflecte no trabalho realizado ou na falta de condições para
trabalhar", refere o magistrado, lamentando o "pouco cuidado" dado à
Justiça pelo Estado.".
"A Justiça não tem sido paixão, nem
prioridade, de nenhum governo e isso leva-nos a este estado de coisas.
É óbvio que cabe ao poder político criar condições adequadas para o
funcionamento dos tribunais, como acontece com os ministérios ou outros
edifícios públicos", refere o nosso Interlocutor, recordando que, ainda
recentemente no Tribunal de Valongo, foi relatado o caso de ratos que
"passeavam" em cima dos processos.
A propósito, o juiz António
Marfins avançou a "O Crime" que, já esta semana, juizes do Palácio da
Justiça de Lisboa foram confrontados com o fecho repentino de 15
instalações sanitárias no 4.º , 5.º e 6.º pisos, onde funcionam a 4.ª , 7.ª , 10.ª
e 15.ª varas cíveis para além do 3.º Juízo Cível, devido a uma rotura nas
canalizações de escoamento das águas residuais.
EMANUEL CÂMARA | JORNAL «O CRIME» | 27.12.2007
Comentarios () |
|
|
|
|
|