|
Parece uma fábrica, onde não faltam as
linhas de produção. Um pavilhão com cerca de 1200 metros quadrados,
situado na zona industrial do Roligo, transformou-se, desde ontem, na
nova casa do Tribunal da Feira. Funcionários e juízes tentam minimizar
os "prejuízos" provocados pelo encerramento do Palácio da Justiça,
devido ao risco iminente de colapso. Mas a tarefa não se apresenta
fácil. O pavilhão não comporta salas suficientes para os julgamentos e
vai obrigar funcionários e juízes a andarem com a casa às costas para o
quartel dos bombeiros, Biblioteca Municipal e Junta de Freguesia, onde
passarão a realizar-se algumas audiências. Cerca de 300 diligências
foram, até ao momento, canceladas.
Surpresa geral
"O senhor deve estar a brincar comigo!", respondia um cidadão que
passava junto ao pavilhão, quando confrontado com a localização do
Tribunal naquele local. Pedindo o anonimato, o funcionário de uma
empresa de automóveis da zona industrial não queria acreditar. "Isto é
para os apanhados, não é ?. Não acredito que isto possa ser
transformado em tribunal", afirmava, incrédulo.
A surpresa era geral. Também no interior do pavilhão se assistia a
rostos boquiabertos de algumas pessoas que ali se dirigiam para tratar
de assuntos pendentes. Ao passarem a porta de acesso ao pavilhão, eram
confrontados com várias secretárias alinhadas por sectores, com
divisões improvisadas, processos e equipamentos por todo o lado e
papéis colados com fita-cola indicando a localização dos vários
sectores. "Se não fossem as voltas que dei para aqui chegar à zona industrial,
isto até me dava vontade de rir", confessava um dos utentes do
Tribunal.
Durante a tarde, alguns funcionários andavam em grande azáfama,
procedendo a ligações de equipamentos, ao mesmo tempo que se atendia
quem ali se deslocava. "Tens por aí um telefone donde possa fazer uma
chamada?" perguntava um funcionário a outro. A segurança das instalações e pessoal está garantida com a contratação
de uma empresa privada de segurança. Quem entra no local é questionado
e obrigado a deixar a identificação.
Sindicato lamenta
O representante do Sindicato dos Funcionários Judiciais, Paulo Almeida,
lamenta a falta de condições para os funcionários poderem responder
capazmente às suas tarefas. "Fazemos os possíveis para tentar resolver
os problemas", mas, adianta, "não é fácil trabalhar nestas condições". "O espaço é frio, não há uma divisão adequada dos diferentes serviços e
o barulho é grande, assim como a falta de privacidade", adianta Paulo
Almeida.
Neste pavilhão, vai continuar a ser assegurado todo o serviço urgente,
através dos seis juízos cíveis e dos quatro criminais. Valências que
estavam a ser asseguradas no bloco contíguo ao edifício agora
encerrado.Mas uma inspecção efectuada por uma equipa da Inspecção- -Geral do
Trabalho verificou que aquele espaço não oferecia as condições
necessárias ao número de funcionários que ali se concentravam.
Posteriormente, a Direcção-Geral da Administração da Justiça considerou
que era necessário proceder à mudança de todos os serviços, temendo que
uma derrocada do edifício principal pudesse trazer consequências para a
parte do bloco anexo.
Julgamentos nos bombeiros, biblioteca e junta de Freguesia
Em declarações, ao JN, a juiz-presidente
do Tribunal, Ana Maria Ferreira, considera que as condições do pavilhão
são "muito más". O espaço tem apenas duas salas de audiência
improvisadas e um gabinete chega a ser partilhados por seis juízes.
Contudo, adianta "Vamos tentar minimizar os prejuízos causados com o
encerramento do Tribunal". Explica que, apesar de exíguas, as novas
instalações e as três salas disponibilizadas nos bombeiros, Junta de
Freguesia e Biblioteca Municipal vão permitir realizar parte das
diligências que foram dadas sem efeito nas últimas semanas. Ao que
garante, os julgamentos vão começar na próxima segunda-feira, mas não
há garantias de que todas as audiências marcadas sejam realizadas.
"Estas instalações vão permitir fazer mais alguma coisa, mas nunca
funcionar em pleno", explicou. Ao que adianta, a mudança para as
instalações definitivas deverá acontecer no período das férias
judiciais, prevendo-se que, no início de Setembro, o Tribunal já esteja
a funcionar nas instalações definitivas, um prédio a cerca de 100
metros do Palácio da Justiça.
JORNAL DE NOTÍCIAS | 15.05.2008
INDIGNO
"Um tribunal foi instalado, até Setembro, num pavilhão industrial, sem as necessárias condições para o funcionamento das secretarias e o atendimento do público.
Os
julgamentos desse tribunal são realizados em salas espalhadas pela
cidade (v.g. Junta de Freguesia, quartel dos bombeiros, biblioteca
municipal).
A realidade inacreditável encontra-se espelhada aqui, no Jornal de Notícias.
Através deste tipo de iniciativas, não é só a funcionalidade das instalações que é posta em causa.
Um tribunal não pode ser equiparado, em termos de dignidade e funcionalidade, a uma fábrica mais ou menos clandestina.
O respeito pelo órgão de soberania e pelos utentes exige mais e melhor.
A indignidade da solução coloca em causa o respeito pela própria Justiça,
afectada por uma iniciativa acentuadamente infeliz, promovida pelo
«Terreiro do Paço» e aceite na «Feira».
Por este andar, qualquer
dia ainda instalam algum tribunal, provisoriamente, numa tenda de
circo... -afinal, qual é o limite da indignidade?!..."
DR. JORGE LANGWEG | BLOG DE INFORMAÇÃO
Comentarios () |
|
|
|
|
|