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Há tribunais em Portugal que não possuem uma casa de banho para os
funcionários nem para utentes e em que o acesso ao gabinete do juiz se
faz pela sala de audiências, o que obriga a interromper diligências.
Exemplos não faltam.
Faz lembrar séculos passados, mas ainda é uma
realidade em 2008. Há tribunais em Portugal que não têm uma casa de
banho para os funcionários nem para utentes e em que o acesso ao
gabinete do juiz se faz pela sala de audiências, o que, por vezes,
obriga a interromper diligências.
Este é o caso do Tribunal judicial de Alfândega da Fé, em Bragança,
instalado no rés-do-chão do edifício da câmara. Em Oliveira do Bairro,
Penacova e nas Velas, em São Jorge, nos Açores, não há instalações
sanitárias para os cidadãos. Nenhum dos quatro edifícios do Tribunal do
Trabalho do Porto dispõe de acesso para sinistrados com mobilidade
reduzida. Resultado? Muitas dos acidentados sujeitos a exames médicos
têm que ser transportados ao colo pelas escadas, já que não há elevador.
Estes são apenas alguns exemplos de tribunais com problemas graves nas
suas instalações. São situações detectadas em Abril do ano passado, na
sequência de um inquérito realizado pela Associação Sindical dos Juízes
Portugueses (ASJP), e que o PÚBLICO confirmou que se mantêm um ano
depois, numa altura em que se discute o encerramento do Palácio da
justiça de Santa Maria da Feira.
Apesar das instalações dos tribunais terem sido avaliadas como boas
(valor 3 numa escala de 0 a 5, entre o péssimo e o óptimo) pelos 200
juízes que responderam ao inquérito da associação sindical, os maus
exemplos não se resumem aos já referidos. Muitos marcam pelo insólito.
È o caso dos Juízos Cíveis de Coimbra, que estão integrados num
shopping, e do Tribunal do Trabalho de Abrantes, que está instalado há
oito anos provisoriamente na cave de um edifício do Ministério da
Defesa. O Tribunal de Família e Menores do Funchal funciona num
edifício adaptado de habitação, com direito a cozinha, sala de estar,
sala de jantar e um patamar de escada, onde os utentes aguardam a vez.
Também não são inéditos os episódios de chuva dentro da sala de
audiências, como aconteceu recentemente no Tribunal de Gondomar durante
uma sessão do julgamento do Apito Dourado.
Situações “degradantes”
O estudo da ASJP, que recolheu informações sobre 142 tribunais de
primeira instância, concluía que 67 por cento dos edifícios avaliados
necessitavam de obras à data, sendo as mais necessárias e urgentes as
referentes a instalação eléctrica, isolamento de infiltrações,
canalização, reforço de estrutura e acabamentos, ampliação,
conservação, manutenção e climatização. Na origem dessa precariedade
estará, entre outros, o facto de cerca de 12 por cento dos tribunais
analisados (17 casos) funcionarem em edifícios construídos há mais de
100 anos.
O presidente da ASJP, António Martins, reconhece que o panorama das
instalações está hoje melhor que há uma década. Mas salienta: “Ainda estamos longe de viver num Estado que trata a justiça como um
bem essencial. Há situações muito degradantes, nomeadamente nos casos
de cidadãos que, por falta de rampas de acesso, têm que ser ouvidos na
rua ou levados ao colo para realizar um exame médico, como acontece no
Tribunal de Trabalho do Porto.” E remata: “Há legislação neste país que
obriga à adaptação dos edifícios e não é cumprida pelos tribunais,
nomeadamente, pelos de trabalho, que deveriam estar mais sensíveis para
esta questão.”
Governo investe 13 milhões
No relatório apresentado há um ano pode ler-se que “é evidente a grande
insuficiência de salas de audiências nos tribunais e a sua influência
muito negativa na produtividade”. “Em vários tribunais, os julgamentos
são marcados com uma dilação temporal bastante superior à que seria
possível, apenas porque faltam salas que permitam a realização de mais
julgamentos em simultâneo.”
Outro problema abordado no documento relaciona-se com a higiene e saúde
no trabalho. Apesar de se salientar que 82 por cento dos tribunais com
ar condicionado mudam regularmente os respectivos filtros,
detectaram-se casos excepcionais e graves, como o que sucedeu no
Tribunal Judicial de Mação, que teve os filtros do ar condicionado 12
anos sem serem substituídos. Em Peso da Régua, vários julgamentos
chegaram a ser adiados devido ao frio insuportável na sala de
audiências.
Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério de Justiça adiantou que está
previsto para 2008 um investimento de mais de 13 milhões de euros na
construção e requalificação dos tribunais portugueses, nomeadamente em
novas salas de audiências, remodelação de instalações, reparações
interiores e exteriores, pinturas, instalação de ar condicionado,
criação de acessibilidades, entre outras. Não precisou, contudo, a
lista dos edifícios a intervencionar.
Neste momento, a ASJP está a preparar uma actualização do seu relatório
preliminar, em que participaram 51 por cento dos juízes em funções nos
tribunais de primeira instância. No novo documento, que deverá ser
apresentado publicamente ainda este mês, o número de juízes abrangidos
passa para 93 por cento, sendo feita uma nova avaliação de todos os
dados obtidos.
Segurança continua a ser a principal preocupação dos magistrados
Relatório de grupo de trabalho com várias medidas já foi entregue ao Governo
A segurança foi o aspecto que mais consenso gerou
nos juízes pela negativa há um ano e é aquele que continua a preocupar
mais o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP),
António Martins. O desembargador conta que recentemente uma mulher foi
atacada com várias facadas pelo marido à saída do Tribunal de Família e
Menores de Ponta Delgada, nos Açores, depois de uma sessão de regulação
do poder paternal. “A senhora foi hospitalizada, correndo risco de
vida. Sobreviveu mas ficou cega do olho esquerdo”, relata António
Martins.
Foram os funcionários judiciais que puxaram a senhora para dentro do
tribunal, evitando, deste modo, que o marido, de quem estava a
divorciar-se, a continuasse a atacar. O caso foi reportado à
Direcção-Geral da Administração da Justiça, mas, até hoje, ainda não
foi resolvido, diz António Martins.
“Esta já não era a primeira situação de violência neste tribunal. O
mais grave é que o caso mostra que este homem esteve no interior do
tribunal armado.”
O relatório apresentado pela ASJP o ano passado deu origem, em Outubro
de 2007, à constituição, por despacho dos secretários de Estado
adjuntos da Administração Interna e da Justiça, de um grupo de trabalho
para analisar a segurança dos tribunais. A coordenação ficou a cargo de
um representante do Conselho Superior de Magistratura, que já entregou
o relatório às duas tutelas.
O Ministério da Justiça confirmou ao PÚBLICO que já recebeu o
documento, mas diz que ainda é cedo para fazer comentários sobre o seu
teor, uma vez que este ainda está a ser analisado.
A iniciativa do Governo surgiu depois de reclamações dos juízes,
funcionários judiciais e do Ministério Público, a exigirem mais
segurança, nomeadamente, mais policiamento e controlo nas entradas dos
tribunais.
No relatório da ASJP refere se que os tribunais não têm “qualquer
sistema específico de segurança pública ou privada”, “não estão
equipados para detectar a entrada de armas, explosivos ou outros
materiais perigosos” e “não têm sistema de alarme ou videovigilância
contra intrusão eficazes”, além de não registarem a “entrada de pessoas
fora do horário de trabalho”. No relatório da ASJP, a segurança dos
tribunais contra intrusos e contra a violência é o único item avaliado
com “mau”.
O documento indica ainda que os “tribunais não têm suficientes sistemas
de detecção e extinção automática de incêndios, sobretudo nos arquivos
de processos e documentação”, apesar de existirem extintores.
PÚBLICO | 05.05.2008
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