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Tribunais estão de rastos criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
06-Mar-2007

ImageO Governo cantou vitória com os dados «positivos» que apresentou na Justiça, mas a verdade é que os profissionais do foro não vão em cantigas. Pires de Lima diz que «os tribunais estão de rastos» e só descansará quando Sócrates «acabar com o ministro da tutela». António Martins e Fernando Jorge exigem, por seu turno, que se acabe com o novo regime de férias judiciais e consideram que 0, 4 por cento na redução da pendência processual é «muito pouco».

ABSOLUTAMENTE extra ordinários, surpreendentes e motivadores». Foi desta forma que o Primeiro-Ministro, José Sócrates, anunciou ao País os resultados alcançados na área da Justiça em 2006.
Os dados revelados pelo Ministério da Justiça (MJ) indicam que o número de processos pendentes nos tribunais portugueses diminuiu, nos últimos dois anos.
Diz também o MJ que no mesmo período houve uma descida de 0,4 por cento da pendência processual, o que representa menos 6.675 processos nos tribunais, num universo de cerca de 1,7 milhões à espera de resolução.

Mas a verdade é que os agentes do sector não parecem ir na «cantiga» do Executivo socialista e o Conselho Superior da Magistratura concluiu, desde logo, que o novo regime de férias judiciais não trouxe qualquer benefício ao sistema de administração de Justiça.
A O DIABO juízes e funcionários judiciais contestam o balanço do Executivo e, ao contrário do que assegura a tutela, garantem que o novo regime de férias não trouxe «ganhos de produtividade».

António Pires de Lima, antigo bastonário da Ordem dos Advogados, justifica os resultados com o facto de «o Governo não poder deixar de estar contente com a miséria que tem feito». «A estatística faz-se em conformidade com aquilo que é conveniente a uma propaganda política», considera.
O advogado afirma que «é absolutamente miserável que senhores como os do Ministério da Justiça que já passaram pelas bancas da advocacia produzam afirmações como as que foram feitas relativamente às férias judiciais».
Revoltado com o balanço que foi apresentado pelo Governo, Pires de Lima pede que «o Governo acabe com o ministro da Justiça» já que o sector «estará completamente de rastos» enquanto Alberto Costa «estiver a fazer demagogia». «Tem sido uma tragédia. Actualmente o que há de estatística resume-se apenas e só a uma coisa: deixou de haver confiança em qualquer coisa que se relacione com a Justiça», critica.
Adianta que «o País anda enganado» e refere que «das reduções por eliminação de determinadas situações penais como cheques sem cobertura, há um desânimo total por parte dos clientes no que diz respeito às execuções». «Toda a gente sabe que os solicitadores não têm meios para fazer penhoras e que as execuções não andam», lamenta.
Por fim, Pires de Lima afirma que «a única modificação,» em que acredita é que «o senhor ministro da Justiça e os respectivos secretários de Estado fossem tratar da vida deles para outro lado».

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Também Fernando Jorge, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) frisa que «há uma perfeita demagogia e uma atitude meramente propagandística» nos números apresentados pelo Governo porque «não há números objectivos que permitam dizer» que houve um aumento de 57 por cento na conclusão dos processos.
Sustenta que a realidade dos tribunais «é completamente diferente» do cenário divulgado e refere que a redução das férias judiciais «não trouxe nada de novo». «Dizer que foram concluídos 40 mil processos parece-me altamente demagógico e pouco rigoroso, porque primeiro não se sabe se esses processos já não estariam terminados nem sequer se foi durante o período das férias judiciais que foram tirados os verbetes», analisa.
Por isso recorda que relativamente às férias judiciais houve «alguma manipulação dos dados até porque se tal dados positivos fossem verdade, o Governo certamente dentro dessa lógica de raciocínio acabaria imediatamente com as férias judiciais e aumentaria a produtividade para 110 por cento».
E garante que o sindicato a que preside «ficaria satisfeito» se o ministro pusesse termo às férias judiciais já que «essa é de facto uma boa solução».
Fernando Jorge lembra ainda que com este tipo de «atitude e mediatização da propaganda da forma como está a ser feita pode conduzir o cidadão comum a acreditar que os tribunais têm actualmente condições para uma maior celeridade processual. E isso não é verdade. Estamos a enganar as pessoas».
«Pelo contrário, as situações nos tribunais são cada vez mais difíceis, há cada vez menos funcionários, os equipamentos estão obsoletos e cada vez é mais difícil trabalhar», acrescenta, sublinhando que «estamos perante medidas artificiais e administrativas».

«Areia para os olhos dos portugueses»
António Martins, presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses (ASJP) considera que se as pendências diminuíram apenas 0,4 por cento - que corresponde a menos seis mil processos que haviam até 31 de Dezembro de 2005  «estes valores são muito baixos para dois anos de trabalho» e «está a atirar-se areia para os olhos dos portugueses».
E vai mais longe: «Se o problema é o da matemática cega então a única coisa que há a fazer e que os juízes propõem desde já é que acabem com as férias judiciais, mantenham os tribunais abertos doze meses por ano e a produtividade, segundo esta matemática cega, não aumenta 57,3 mas 114,6».
«É preciso fazer muito mais e muito melhor», defende, lembrando a necessidade de se avançar com «medidas estruturais permanentes e não conjunturais como as que têm sido feitas». Por essa razão, António Martins recorda as propostas que a ASJP já fez à tutela como sendo a criação do gabinete dos juízes, de um secretariado e com assessoria técnica, «para acabar com a burocracia e para que o juiz se dedique exclusivamente a fazer julgamentos e sentenças». «Se calhar aí em vez de termos uma redução de 0,4 provavelmente teríamos uma redução de 14 por cento», conclui.

MP fala em «prudente optimismo»
Para o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), presidido pelo procurador António Cluny, os números agora revelados pelo Governo «não podem ser lidos senão com um muito prudente optimismo».
O organismo considerou, em comunicado, que para tal e, de acordo com tais dados, «seriam precisos 10 anos para diminuir as pendências processuais em quatro por cento». Além disso o SMMP salienta que «os dados avançados vêm deitar por terra as conclusões do estudo» em que Alberto Costa «se baseou para afirmar que a diminuição das férias judiciais implicaria um aumento de produtividade na ordem dos 10 por cento».

ANA CLARA | O DIABO | 06.03.2007 | PÁG. 7

Comentarios (6)add
... : AG
Concordo com o fim das férias judiciais.

De todo o modo, sempre direi que em muitos anos (mais de 20), o ano passadado, pela primeira vez, gozei integralmente os dias de férias a que tenho direito e assim tenciono continuar a fazê-lo (mto mais deveria continuar a fazer, tal como deixar de trabalhar até às tantas da matina ...).
Afinal o direito a férias é um direito inalienável que os Srs. Primeiro-Ministro e Ministro da Justiça fizeram o favor de lembrar e de, assim, o colocar no seu devido lugar!
07.Março.2007
... : Isan
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PARA QUANDO A POSSIBILIDADE DE ESCOLHER O MÊS DE FÉRIAS EM QUALQUER ÉPOCA DO ANO!? SÃO MENOS DISPENDIOSAS E REPRESEntam o fim dos turnos. Os hospitais não encerram em Agosto e os médicos não vão todos de férias no Verão.
07.Março.2007
Quando algo está mal, mude-se de Ministro. Se algo corre mal, Ministro pra rua. Se discordamos de uma determinada medida, Ministro dimita-se!...
Não pode ser assim. Não podemos constantemente pedir a demissão de tudo e todos sempre que algo corre mal, ou alguém erra. Não é solução.
Aliás, este Governo já deu provas de que as políticas, em todos os Ministérios, são seguidas independentemente de quem seja o titular da pasta. Até podia ir este Ministro para a rua, mas vinha outro a continuava a mesma política.
Em 2009 cá estaremos para avaliar a "performance" deste Governo em geral e do Ministério da Justilça em particular. Até lá, é criticar construtivamente mas não pedir sempre a cabeça de alguém quando discordamos disto ou daquilo.
07.Março.2007
... : EB
Há 14 anos que exerço e o ano passado só consegui ter uma semana de férias. Este ano vou aproveitar as férias da Páscoa (cinco dias) e as do Natal (cinco dias) para ver se no mês de Julho ainda tenho condições mentais para trabalhar até 15 de Agosto e começar a trabalhar dia 01 de Setembro.
É evidente que esta lei só serve aumentar as grandes sociedades de advogados que podem fazer turnos de férias, pagando a advogados mais novos. Esqueceu-se o nosso governo de que há milhares de advogados neste país que gostam de trabalhar sózinhos. E que têm família e direito a férias e direito a serem pais e mães.
Uma advogada que recebe comentários do filho de 8 anos: "estás sempre a trabalhar e nunca estás em casa"

08.Março.2007
... : Mário Rama da Silva
Concordo inteiramente com o cometário de Ricardo S.
Se caísse um ministro cada vez que faz asneira ou o simples resultado de uma medida corre mal... já sobravam poucos.
Também concordo que é preferível a crítica construtiva e parece-me que até tem havido bastante.
Duvido é que os ministros lhe prestem atenção.
Enfim... não se peça a cabeça de nenhum ministro, peça-se é que a usem bem.


08.Março.2007
... : Palomino
Cara EB

Tem toda a razão. Só as grandes sociedades de advogados é que conseguem ter "trabalho escravo" para dar resposta a notificações que chegam até meados de Agosto e logo no início de Setembro.

Quanto à alegada produtividade desse período, não interessa o que na realidade se faz, interessa apenas que o povo "perceba" que se obrigaram todos os agentes judiciários a "trabalhar mais", mostrando que se vergaram os interesses instalados.

Aproveite esses dias mesmo para descansar, porque já esteve mais longe o fim das "férias" judiciais, e aí verá que se arranjam estatísticas fabulosas em como a produtividade nos Tribunais cresceu 70 ou 80 %, mostrando a todos que era esse o mal que minava a Justiça...

Concordo com o antigo bastonário quando diz que «é absolutamente miserável que senhores como os do Ministério da Justiça que já passaram pelas bancas da advocacia produzam afirmações como as que foram feitas relativamente às férias judiciais». Mas também o que dizer de alguém que andava pelos gabinetes dos juízes de Macau a fazer aquilo que devia ser feito nas salas de audiência ...

No entanto, também não era a mudança de ministro que alteraria o panorama, arranjava-se logo outro esbirro qualquer para continuar o mesmo serviço.

Enfim, continuamos para bingo.
09.Março.2007
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