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O Partido Comunista Português (PCP) criticou hoje a
proposta de novo mapa judiciário, alegando que promove a "Justiça privada
e a governamentalização do sistema" e defendendo um debate público
alargado na Assembleia da República. Para este partido, o modelo proposto para o mapa judiciário «tem
suscitado justas preocupações e fortíssima contestação». Foi ainda afirmado que «não contestamos a necessidade de melhorias na organização e
no funcionamento do sistema judicial» mas contestamos «o sentido da
reforma e as consequências negativas que
teria para os cidadãos no seu acesso à justiça, mas também para as comunidades
e o país».
José Neto, da Comissão Política
do PCP, disse à agência Lusa que o Governo pretende "reduzir a despesa
através da diminuição do serviço público, o alargamento do mercado da Justiça
privada e uma maior governamentalização do sistema". "O mapa fomenta o crescimento da
arbitragem e da mediação privadas e as novas circunscrições dão origem a uma
maior governamentalização do sistema e a um controlo mais fácil dos magistrados
nos tribunais, visando limitar a sua independência", consideram os
comunistas. "A nossa única certeza é que este mapa
judiciário vai tornar mais difícil o acesso dos cidadãos à Justiça e aos
tribunais, passando a haver uma Justiça para as cidades do litoral e outra para
o interior, cada vez mais abandonado", criticou o elemento da Comissão
Política do PCP.
Outra das críticas prende-se com a
"desjudicialização". "Esvaziam-se os tribunais e abre-se
caminho a uma Justiça privada, que cresce a olhos vistos - solicitadores e
agentes de execução privados para cobrança de dívidas, mediadores privados na
área cível, laboral e penal". O aumento da Justiça privada, como diz José
Neto, é uma vantagem para os advogados, que vêem nela "um negócio
florescente".
O PCP considera ainda "errada" a
opção de substituição das actuais 230 comarcas por 35 circunscrições,
justificando que esta aposta se vai traduzir em "menos Justiça e pior
Justiça". "Não é difícil prever que
as actuais comarcas ficarão desactivadas. E se não se fecham tribunais, ficarão
ainda mais esvaziados e sem actividade judicial relevante, muitos deles
funcionando como balcões ou secretarias judiciais", acrescenta.
LUSA | 28.02.2008
Texto Integral da Conferência de Imprensa do PCP
O novo mapa judiciário e o acesso dos cidadãos à justiça
José Neto, Comissão Política do PCP
«1.
Questão central da actualidade política na área da justiça, a proposta do
Governo do Mapa Judiciário, novo mapa de organização dos tribunais, tem
suscitado justas preocupações e fortíssima contestação.
Preocupações
que resultam designadamente da insuficiente informação sobre conteúdos da
reforma e sua concretização disponibilizados pelo Governo, mas sobretudo
apreensão e discordância quanto aos resultados previsíveis da reorganização em
termos da exigência de uma justiça de qualidade e acessivel a todos os cidadãos
do nosso país.
O
PCP não contesta a necessidade de melhorias na organização e no funcionamento
do sistema judicial e sobre essa matéria tem posições e propostas. O que o PCP
contesta, e a que firmemente se opõe, é o sentido da reforma e as consequências
negativas que teria para os cidadãos no seu acesso à justiça, mas também para
as comunidades e o país.
A
substituição das actuais 230 comarcas, na base do(s) concelho(s), por 35 novas
circunscrições de base geográfica territorial correspondente às NUT's, é uma
opção errada que, abdicando de explorar todas as potencialidades e capacidades
do actual modelo de círculos judiciais e comarcas, aposta em soluções que se
traduzirão em menos justiça e pior justiça.
Não
é difícil prever que muitas das actuais comarcas ficarão praticamente
desactivadas. E se não fecham os tribunais, como promete o Ministro, ficarão
ainda mais esvaziados e sem actividade judicial relevante, muitos deles
funcionando como “balcões” ou secretarias judiciais. A única certeza é que os
cidadãos ficarão mais distantes da justiça e dos tribunais.
Diz
o Governo que a reorganização resulta da necessidade de uma gestão mais
racional dos recursos perante a actividade processual reduzida de muitas
comarcas. “Um terço das comarcas tem menos de de 500 processos por ano. Numa escala tão pequena não se pode obter uma
justiça de qualidade” (palavras do Ministro da Justiça). Por isso,
extinguem-se as comarcas. Com o mesmo tipo de argumento fecharam-se
maternidades, urgências e escolas. Fechar tribunais significaria mais
desigualdade na justiça. Se já há uma justiça para ricos e outra para pobres,
passaria a haver uma justiça para as cidades e o litoral e outra para o
interior, cada vez mais abandonado.
Esta
estratégia, pretensamente justificada pela racionalização e melhor gestão de
recursos, esconde mal razões de cariz economicista, que derivam da obsessão do
défice, mas, sobretudo, oculta motivações mais profundas de natureza política,
correspondentes aos desígnios da direita e dos grandes interesses económicos.
Que
assim é, facilmente se comprova. Tal como para o Pacto da Justiça, uma das
fontes inspiradoras da actual reforma está nas conclusões sobre justiça da 1ª
Conferência do Compromisso Portugal (Convenção do Beato, nos idos de 2004). Na
Proposta 37 – organização judiciária pode ler-se, e vou citar: “Deve
proceder-se a uma nova organização judiciária que envolva a relocalização dos
tribunais, o que poderá implicar o fecho de alguns (...) movimento semelhante
ao das escolas primárias”.
Mas
não ficam por aqui os nossos gestores capitalistas do Beato.
Ali
foi defendida a introdução de gestores profissionais nos tribunais, a melhoria
do controlo de qualidade e produtividade nos tribunais e também um sistema de
incentivos nas remunerações dos magistrados (incluindo prémios por desempenho).
Propuseram ainda um maior recurso à arbitragem e à mediação, sancionando
severamente o “recurso abusivo” aos tribunais. Propostas pretensamente cheias
de modernidade que encobrem objectivos velhos de uma justiça mais modelada aos
seus interesses.
Para
nós, PCP, são claros os objectivos do Governo – o primeiro, a redução da
despesa, com a diminuição do serviço público de justiça; o segundo, o
alargamento do mercado privado de justiça (crescimento da arbitragem e mediação
privadas); e o terceiro, por via das novas circunscrições e da dita “gestão
racional dos recursos”, uma maior governamentalização do sistema, um mais fácil
controlo dos magistrados e dos tribunais, visando limitar a sua independência.
Estes
objectivos fazem parte de um processo, que vem de trás, de reconfiguração do
actual sistema constitucional de justiça, que se encontra nos programas
eleitorais da direita e do PS (responsáveis pela situação a que se chegou nessa
área) e desembocou no Pacto da Justiça.
Objectivos
e medidas como o novo mapa judiciário, pedra angular do novo modelo judicial,
de que o PSD se quer demarcar de forma incoerente, tal como fez na saúde ou na
educação, deixando ao PS o odioso de (tentar) concretizar, também na justiça,
as políticas que o Governo PSD/CDS não pôde realizar. O PSD não rompeu o Pacto.
O PSD foi conivente com o PS na lei da política criminal, que é uma ingerência
no poder judicial; na alterações ao Código do Processo Penal, que dificultam o
combate ao crime económico e à corrupção; na drástica limitação do apoio
judiciário.
2.
O acesso dos cidadãos à justiça e aos tribunais, consagrado
no artigo 20º da Constituição, é um direito democrático fundamental – nele está
contido o principio da não denegação da justiça por insuficiência de meios, o
direito à informação e consulta jurídica e ao patrocínio judiciário, a decisão
judicial em prazo razoável e processo equitativo.
Mas
a realidade mostra todos os dias que é crescente o fosso entre a consagração
constitucional desses direitos e a sua realização prática. E que, mais de 30
anos passados, o acesso à justiça continua a ser um dos direitos mais ignorados
na vida do povo português
Mas
mostra mais – que se acentuam os traços do que já muitos, para além do PCP,
consideram ser uma justiça de classe – que trata de forma desigual quem tem
dinheiro e conhecimentos e quem não dispõe de meios para promover a defesa dos
seus direitos e interesses.
Uma
justiça de classe, ao serviço das classes dominantes, ineficaz com os corruptos
e a corrupção, mas que julga e condena um dirigente sindical que protesta em
defesa de direitos que lhe são negados.
O
actual Governo PS, de José Sócrates, na senda dos anteriores, nada tem feito
para alterar este estado de coisas. Bem pelo contrário, todas as medidas seguem
uma estratégia bem determinada – diminuição de processos e de matéria
processual dos tribunais e afastamento dos cidadãos dos tribunais. Exemplo
disso é o elevadíssimo valor das custas. É o apoio judiciário ao nível da
indigência. É a compensação económica a quem desistir das acções e dos
processos intentados, isto é, o pagamento para desistir dos seus direitos. É a
penalização, através do pagamento de custas, de quem não opte pelos mecanismos
alternativos de resolução de litígios. É ainda o incentivo à classe dos
advogados para que os clientes recorram a esses mesmos mecanismos.
Em
nome da desjudicialização (principio correcto em determinadas condições)
esvaziam-se os tribunais e abre-se caminho a uma justiça privada, que cresce a
olhos vistos – solicitadores e agentes de execução privados para cobrança de
dividas, mediadores privados na área cível, na área laboral e até na área
penal.
A
privatização da justiça aparece, assim, como solução milagrosa para resolver os
problemas criados em resultado de políticas que negligenciaram o adequado
reforço de meios humanos e materiais no sector da justiça. No entender do PCP,
a privatização da justiça, além da aprofundar desigualdades no acesso ao
direito e aos tribunais, é ainda susceptível de pôr em causa a fé pública e a
segurança jurídica dos cidadãos.
Estas
são medidas e este é um governo que, nesta reorganização judiciária, não tem
uma palavra para os Julgados de Paz, que a Constituição consagra e poderiam
constituir uma rede pública de justiça de pequenas causas, desformalizada e
próxima das populações.
Para
o PCP é necessário continuar a exigir a proximidade do sistema de justiça, a
presença dos tribunais, “casas da justiça”, como órgãos de soberania em todos
os pontos do país, garantia da igualdade de acesso. E, igualmente, que seja
assegurado o atendimento às populações por parte dos serviços do Ministério
Público, com as suas funções próprias na defesa da legalidade democrática e na
realização da justiça.
Pela
importância desta matéria da reorganização judiciária o PCP propõe a realização
de um amplo debate público, designadamente ao nível da Assembleia da República,
que envolva, além dos partidos políticos, os órgãos da justiça, magistrados,
advogados e respectivas associações, os municípios portugueses e todos os que
queiram dar o seu contributo para as soluções que melhor sirvam os cidadãos e o
país.
O PCP continuará a
intervir com as suas posições e propostas em prol da melhoria do nosso sistema
judicial, pela dignificação de todos os profissionais e por mais e melhor
justiça ao serviço dos trabalhadores e do povo português. E lutará contra esta
política de justiça, empobrecedora do nosso regime democrático. Luta que é
inseparável da defesa da Liberdade e da Democracia, objectivo da Marcha que
realizamos no próximo sábado, dia 1 de Março».
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