São 39 novas circunscrições, repartidas por cinco distritos judiciais,
em substituição das actuais 231 comarcas. Em cada uma delas haverá um
tribunal de primeira instância, desdobrado em juízos de competência
genérica ou especializada. Estas são as linhas gerais da
proposta que o ministro da Justiça, Alberto Costa, apresenta hoje à
discussão dos deputados da Assembleia da República, do novo mapa dos
tribunais. Uma proposta que, garante o Executivo, não encerra tribunais
nem implica a mobilidade de magistrados e procuradores.
Actualização: A proposta do novo mapa judiciário foi hoje aprovada na generalidade
pelo plenário da Assembleia da República apenas com os votos favoráveis
da maioria socialista, tendo toda a oposição votado contra.
Lisboa, 02 Mai (Lusa) - A proposta do novo mapa judiciário foi hoje
aprovada na generalidade pelo plenário da Assembleia da República
apenas com os votos favoráveis da maioria socialista, tendo toda a
oposição votado contra.
A proposta de lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais
Judiciais segue agora para a discussão na especialidade, em sede de
comissão parlamentar.
Durante o debate, que antecedeu a votação, o ministro da Justiça
garantiu que o novo mapa judiciário vai assegurar uma justiça mais
"pronta, especializada e de qualidade" e negou o encerramento de
tribunais, mas esta última antevisão não convenceu a oposição.
"Não vamos encerrar tribunais", assegurou Alberto Costa, afirmando
que os tribunais serão "mantidos" e terão "novas valências", permitindo
uma justiça com "mais qualidade e rapidez".
Na perspectiva de Alberto Costa, o novo mapa judiciário, assente
numa nova matriz territorial, dotada de mais meios tecnológicos e com
uma "melhor gestão dos recursos", não significa "desertificação, nem
abandono", representando uma "oferta mais equilibrada" e "mais
generalizada" dos serviços de justiça aos cidadãos.
Helena Pinto (Bloco de Esquerda) e João Oliveira (PCP) consideraram
que esta proposta de organização judiciária é um "cheque em branco" ao
Governo, com o deputado comunista a duvidar da existência de tribunais
próximos dos cidadãos.
"A proposta de Lei do Governo abre as portas ao encerramento de
tribunais actualmente existentes, agravando as dificuldades de acesso
dos cidadãos à justiça", disse João Oliveira, observando que o modelo
proposto concentra recursos, garantindo "apenas a existência de 39
tribunais de comarca onde antes existiam 231".
Para o deputado do PCP, "fica claro que o Governo não desistiu da
intenção de encerrar tribunais", alegando que o executivo "apenas não
teve a coragem para dizer desde já quais os que encerram".
Helena Pinto classificou a proposta de "pseudo-reforma" e que a
mesma só não fecha tribunais até 2009 (período em que decorrem as três
experiências-pilotos), já que a lei só terá aplicação plena em 2010,
numa próxima legislatura que ainda ninguém domina.
O ministro da Justiça defendeu que a proposta tivesse uma "fase de
experimentação" em três comarcas-piloto (Alentejo Litoral, Baixo Vouga
e Grande Lisboa/Noroeste) por se adequado à "complexidade da sociedade
contemporânea", vincando que nestas três novas circunscrições haverá a
"concreta aplicação" dos princípios previstos nesta reforma.
Alberto Costa recordou que tudo foi feito para que esta reforma
"beneficiasse de um apoio parlamentar muito alargado", no âmbito do
pacto da Justiça PS/PSD, apesar de isso não se ter concretizado após a
mudança de liderança no PSD.
Após Ricardo Rodrigues (PS) ter dito que a posição do PSD "é muito
estranha" e de a mesma ter mudado com as alterações de liderança neste
partido, Rui Gomes da Silva (PSD) contra-atacou, criticando o mapa por
este "não ter conteúdo".
"Um mapa tem de ter conteúdo. É um mapa que não tem sedes de
comarca. Têm medo das reacções dos presidentes de Câmaras Municipais",
disse, após anteriormente ter criticado o modelo de gestão dos
tribunais previsto na proposta e considerando que a mesma viola alguns
princípios, como o da inamovibilidade dos juízes.
Rui Gomes da Silva alegou que o PSD exigiu garantias de que os
tribunais de comarca actualmente existentes não seriam encerrados, mas
que tal não foi dado, havendo sinais "inequívocos" de que haverá fecho
de tribunais.
Lembrou também que diversos operadores judiciários se pronunciaram contra esta proposta de mapa judiciário.
Nuno Melo (CDS/PP) partilhou também da ideia de que esta reforma não
poderá ter "sucesso" sem o envolvimento dos operadores judiciários
(juízes, magistrados do Ministério Público, advogados e funcionários
judiciais).
O deputado centrista teceu também críticas ao modelo de gestão
previsto, antevendo que haverá "confusão" em torno das competências do
juiz presidente do tribunal.