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O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem
manifestou a sua reocupação pela avalancha de queixas contra o Estado
português nos tribunais administrativos por lentidão da Justiça...
A preocupação está estampada num acórdão da 10.ª
secção do Tribunal de Estrasburgo, que condena o Estado português a
indemnizar em 9.500 euros um casal de emigrantes que esperou quase nove
anos e meio para que a justiça decidisse uma acção de despejo. No
acórdão, a instância judicial comunitária critica também o Ministério
Público português por, na qualidade de representante do Estado, ter
posições diferentes nos tribunais nacionais e nos internacionais.
Critica igualmente a “incerteza” da jurisprudência do Supremo Tribunal
Administrativo e a demora das suas decisões. No caso que originou este
acórdão, o Tribunal Europeu concordou com os queixosos, que referiam
que os mecanismos internos para se queixar da duração dos processos
eram ineficazes, nomeadamente as acções nos tribunais administrativos
contra o Estado por demora da justiça.
Em causa está, neste processo, uma acção de despejo intentada em 1993
no Tribunal de Matosinhos por um casal de emigrantes em França. O casal
ganhou a questão, mas o processo chegou ao Supremo Tribunal
Administrativo, arrastando-se até 2004, por um período de nove anos e
cinco meses. Os tribunais administrativos, incluindo o Supremo Tribunal
Administrativo, disseram que tal duração era normal e até nem havia
danos. “Só no Tribunal Europeu é que os queixosos encontraram justiça”,
concluiu o advogado Jorge J. F. Alves, que representou os queixosos
nesta acção.
Críticas
O presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP)
considerou ontem “inadmissível” que uma acção demore nove anos e meio a
ser resolvida em tribunal, dizendo ser altura de o Governo e o
Parlamento “acordarem” para esta realidade. António Martins disse
“compreender perfeitamente o posicionamento” do Tribunal Europeu sobre
esta matéria, pois é “inadmissível” tamanha morosidade processual, que
compromete a realização da Justiça e a concretização dos direitos das
pessoas em “tempo útil”. “Os juízes são os primeiros interessados que o
Estado acorde para esta realidade”, realçou António Martins,
reconhecendo que as sucessivas condenações do Estado português pela
morosidade ou mau funcionamento dos tribunais dão uma imagem negativa
do país para o exterior. “Isto é preocupante porque um dos indicadores
para haver investimento estrangeiro é a capacidade de resposta dos
tribunais”, frisou, insistindo que o Governo e a Assembleia da
República têm de prestar atenção à necessidade de os “tribunais
responderem em tempo útil”.
Segundo António Martins, a questão da morosidade não atinge só os
tribunais administrativos, mas outras áreas da Justiça, criticando, a
propósito, a última reforma penal, que veio, no seu entender,
“burocratizar” o processo, dando azo a mais morosidade e nulidades
processuais. Neste sentido, o presidente da ASJP considera que a
Assembleia da República tem de “levar em conta” as condenações do
Estado pelo Tribunal Europeu, porque isso resulta em parte das leis do
processo que têm sido feitas e aprovadas pelo Parlamento.
Quanto à necessidade de os tribunais portugueses responderem em tempo
útil aos direitos das pessoas e confrontado com os indicadores do
Governo de que o número de pendências nos tribunais baixou no último
ano, o presidente da ASJP replicou que “a diminuição das pendências é
um exercício que fica bem ao Governo”, mas que é preciso descortinar se
isso resulta de uma menor procura dos tribunais por parte das pessoas
ou se deriva de uma maior capacidade de resposta do sistema judicial.
O PRIMEIRO DE JANEIRO | 12.06.2008
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