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“O Estado não exerce as suas funções de autoridade”."Perante esta ausência de segurança, “os cidadãos sentem-se motivados a desafiar essa autoridade”. “Como a memória é curta, o poder político desresponsabiliza-se”, não
tomando medidas capazes de resolver o problema de falta de condições
nos tribunais".
Os 28 magistrados de Santa Maria da Feira decidiram suspender todos os
julgamentos, enquanto o Ministério da justiça não disponibilizar uma
sala com condições de segurança para que não se repitam cenas de
violência como a que aconteceu na passada quarta-feira, que acabou com
a agressão de um condenado a dois magistrados.
O caso acabou por
indignar toda a justiça dado que, por um lado, o incidente foi contra
um dos mais altos representantes do Estado de Direito (um juiz) e, por
outro lado, ocorreu no tribunal, o ex-líbris da justiça.
O Ministério
da justiça tentou, sem efeito, serenar os ânimos ao longo do dia de
ontem. Primeiro desvalorizando o caso “uma reacção a uma sentença” que
“não tem a ver com o local onde ocorreu”, disse o secretário de Estado
da justiça Conde Rodrigues. Depois, não comentando “decisões dos
senhores magistrados” que anunciaram que não voltam a trabalhar nestas
condições. Conde Rodrigues deixou, no entanto, uma garantia: tudo está
a ser feito “para abrir o novo tribunal de Santa Maria da Feira dentro
do prazo que foi já anunciado”, ou seja, Setembro de 2008.
Ontem, em
conferência de imprensa, a juíza presidente do tribunal de Santa Maria
da Feira, Ana Ferreira anunciou a suspensão de audiências e diligências
de todos os processos, à excepção dos casos urgentes.
Um dos juízes
agredidos, António Coelho, garantiu que a segurança tinha sido
reforçada para aquela sessão (a que acabou em agressões). O juiz disse
que o problema está nas condições da sala, “onde o contacto entre
magistrados e arguidos é bastante fácil”. O tribunal funciona desde
Abril em instalações provisórias, e as diligências dividem-se entre o
quartel dos bombeiros e um armazém.
António Martins, presidente da
Associação Sindical dos juízes Portugueses, não tem dúvidas de que este
é um claro exemplo de como “o Estado não exerce as suas funções de
autoridade”. Perante a ausência de medidas de segurança, “os cidadãos
sentem-se motivados a desafiar essa autoridade”, conclui. Quanto à
posição do Governo, o juiz diz que “como a memória é curta, o poder
político desresponsabiliza-se”, não tomando medidas capazes de resolver
o problema de falta de condições nos tribunais. N
o mesmo sentido,
António Cluny, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério
Público, apela a que sejam tomadas medidas urgentes” para evitar estas
situações. “A autoridade do Estado, em geral, está posta em causa e a
solução passa por reforçar a segurança”.
António Pinto Pereira,
advogado com longa experiência considera que o problema é mais grave:
“São sinais muito preocupantes que resultam da acentuada
descredibilização da justiça. O respeito pela a figura institucional do
juiz caiu por terra”. Pinto Pereira diz ser mais urgente “tomar medidas
para reforçar a credibilidade da justiça, do que para reforçar a
segurança”.
DIÁRIO ECONÓMICO | 27.06.2008
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