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Em entrevista ao jornal «O Primeiro de Janeiro», Paulo Rangel, antigo secretário de Estado
da Justiça e deputado social-democrata, tece fortes críticas ao novo
mapa judiciário. O advogado considera que se podia ter utilizado a
reforma dos círculos judiciais, da autoria de Laborinho Lúcio, em vez
de criar novas estruturas que continuarão pesadas e em nada
contribuirão para credibilizar a Justiça.
Como comenta, em traços gerais, o novo mapa judiciário?
Acho que esta reforma é uma oportunidade perdida. Não tenho dúvidas de
que é necessário reduzir drasticamente o número de circunscrições. A
Holanda tem 19, a Bélgica tem 25, a Irlanda tem quatro… não há razão
para que países de média dimensão europeia tenham 231 comarcas e 345
tribunais associados a elas. Não faz sentido nenhum. Tem levado a um
grande desperdício, em Portugal. A nível de recursos humanos e
financeiros, em suma, de investimento, estamos ao mesmo nível da
Europa.
Nesse caso, porquê resultados tão maus?
Porque temos uma organização judicial caótica, dispersa; não há
concentração nem economias de escala nem gestão dos funcionários, e até
dos magistrados, que possa sobreviver a esta dispersão. Só que o
Governo não vai longe, porque diz que não encerra tribunais. Isto é uma
falácia, estamos a mentir aos portugueses. Não é possível fazer uma
reforma da Justiça, obtendo ganhos de celeridade, sem o encerramento de
mais de uma centena de tribunais! No fundo, trata-se de uma reforma
cosmética. E tem outro aspecto negativo: O próprio desenho geográfico
que vai atrás das NUTS. É um erro crasso no plano
político-constitucional. O poder judicial não deve fazer coincidir as
suas circunscrições com o poder executivo.
Que tipo de modelo defende?
Já tínhamos uma reforma – a dos círculos judiciais, feita pelo
ministro Laborinho Lúcio – em que tínhamos 58 círculos e podíamos
aproveitar os círculos ou fundir alguns… até porque este número de 39
comarcas é razoável, acho que está bem. Mas, pelo contrário, vamos
criar novas unidades que nada têm a ver com a tradição portuguesa.
Que consequências terá?
Os advogados, magistrados, e até a população que mais frequentemente
tem recorrido à Justiça, vão estranhar os novos critérios, quando
podíamos aproveitar o critério dos círculos. Em certo sentido, a
reforma de Laborinho Lúcio estava no bom caminho porque se baseava numa
ideia de proximidade, era uma concentração no círculo, mas o tribunal
deslocava-se a cada comarca para se realizar lá o julgamento. Portanto,
a unidade de gestão era o círculo, o que não implicava que, quando
tivesse de haver uma diligência judicial, ela não fosse realizada na
proximidade dos cidadãos. É um modelo baseado num tribunal móvel, que
se desloca às instalações respectivas para fazer as audiências do
julgamento.
No entanto, recomeça-se um novo mapa.
Mais do que isso, vamos
mudar a terminologia – tribunais de pequena instância, média instância,
grande instância, cível e criminal, vai-se rebaptizar tudo de novo,
para nada. Para parecer uma coisa muito moderna…
Pensa que vai gerar muita confusão?
Claro que há aqui este aspecto do período experimental que também
adquire contornos duplos. É ambíguo. Por um lado, é bom porque é
preciso experimentar a reforma; por outro lado é mau, porque também nos
diz que, se esta reforma vai ter efeitos tão benéficos, ainda vai
demorar muito tempo até se implantar.
Mas considera que o período experimental será positivo?
Acho que sim, numa reforma com estas características. Mas julgo que não
precisávamos de tanta experimentação, se tivéssemos aproveitado as
estruturas que já temos.
Este novo mapa contribuirá para que a Justiça fique concentrada nas grandes cidades?
Claro. Acho que esta nova reforma pode trazer algumas melhorias a nível
de gestão, menor despesa e desperdício, mas não vai trazer um aumento
sensível da celeridade. No fundo, vai manter toda a estrutura pesada
que já existe. É evidente que, fazendo uma reforma como eu defendia,
mais radical, e que implicaria uma ruptura e um novo modelo, se
fossemos por esse caminho, iríamos ter algumas consequências para o
Interior. Não podemos esquecer que, em Portugal, dois terços da procura
estão no Litoral e dois terços da oferta estão no Interior, em termos
judiciais. Temos dois terços dos meios afectos a um terço da procura, e
dois terços da procura afectos a um terço dos meios. Não há nenhum país
do mundo onde um sistema possa ser eficiente se não tiver os meios
devidamente distribuídos.
Este mapa permitirá corrigir tais assimetrias?
Sim, mas não vai fechar tribunais. O caso é saber se, nestas novas
comarcas, há casos de trabalho, de menores e de família suficientes.
Claro que a minha aposta é nós podermos fazer uma ocupação do
território equilibrada, que não seja discriminatória para o Interior,
sem com isso, enveredarmos por soluções económicas aberrantes ou
insustentáveis. Posso pegar em diversas instituições e povoar o
Interior. O que não preciso de ter é um tribunal em cada esquina,
porque aquilo que se pretende não é propriamente que as pessoas tenham
o tribunal à porta, mas sim, que, quando lá vão resolvam os seus
problemas. Já que, o que acontece hoje é que têm um tribunal próximo,
mas vão lá seis vezes, pois não é célere.
Não traz proximidade.
Nenhuma. As pessoas não vão ter serviços de Justiça genéricos junto de
si. Daí essa falácia. A proximidade não vai existir com esta reforma,
ao contrário do que se diz.
Como acha que o novo mapa afectará a credibilidade do sistema?
Uma reforma destas vai gerar uma grande confusão, já que mexe em
aspectos que não era necessário mexer; vai gerar incerteza e não
contribuirá para credibilizar um sistema que já está altamente
desacreditado.
Como enquadra a justiça pelas próprias mãos, nesse contexto?
São duas coisas diferentes. Não é por causa do mapa judiciário que
haverá mais ou menos vingança privada. Mas a questão é pertinente, se
atendermos à circunstância de que a lentidão dos tribunais é que faz
com que, às vezes, haja alguns casos de justiça privada. Claro que
nunca a vamos eliminar, devido à natureza humana. Mas é óbvio que um
sistema que não eficaz nem credível alimenta a justiça privada. Não tem
a ver com ser mais perto ou mais longe, mas sim, com a capacidade de
resposta.
Como comenta a nova avaliação dos juízes?
Nesse aspecto, devo dizer que sou favorável à existência de uma figura
de chefia dentro dos tribunais, o presidente, tal como está
configurado. E não tenho dúvidas de que esse presidente tem de ser um
juiz. E parece-me que tem de ser nomeado pelo Conselho Superior de
Magistratura e não eleito pelos seus pares. Tudo isto me parece
positivo. A questão que se coloca é «qual o limite dos poderes desse
juiz?», isso é que está a descontentar o Ministério Público. Mas penso
que o problema da avaliação dos juízes não devia ser sumariamente
despachado neste diploma. É preciso capacidade de responsabilização
perante a opinião pública e a sociedade. Não sei se este é o tipo de
diploma onde estas questões deviam ser tratadas. Penso que deviam ser
alvo de um diploma próprio.
Que comentário lhe suscita a informatização da Justiça, recentemente tão elogiada pelo primeiro-ministro?
Acho que este Governo, em todas as matérias de Justiça, julga que se
resolvem problemas se houver computadores no sistema, informatizando um
conjunto de matérias.
A expressão usada foi “eliminar a linha e o cordel para amarrar os processos”.
Isso é tudo demagogia barata. Até em reformas muito elogiadas, como o
Simplex, estão em causa muitos aspectos de segurança jurídica
sensíveis. Agora estão todos a favor das reformas, daqui a quatro ou
cinco anos, são capazes de não estar. Às vezes, com a voragem de tudo
simplificar, sacrificam-se valores jurídicos essenciais.
Quais?
A segurança jurídica, em primeiro lugar. Vivemos num país muito dado à
fraude, ao pequeno engano… refiro-me aos «simplexes», a reformas como a
Admissão da Escritura Pública, que é absolutamente lamentável. Nos
processos, esta ideia de que tudo é tramitável informaticamente não
corresponde à realidade. Temos um bom exemplo: A reforma do Contencioso
Administrativo, onde, em muitos aspectos, o suporte de papel continua a
ser essencial e decisivo. Não há dúvida que a informática permite a
agilização de muitos processos, mas não pode ser vista, como este
Governo a encara, como uma coisa miraculosa, porque não é. E a prova é
que não diminui. O Governo anuncia estatísticas, mas, tal como dizia
Churchill, «há duas maneiras de mentir: Uma é não dizer a verdade, a
outra é apresentar estatísticas». Entre todas as pessoas que lidam com
o sistema judicial, não há ninguém que diga que as coisas estão
melhores.
Luís Filipe Menezes e o PSD foram muito criticados por acabarem o pacto
de justiça com o PS, sem apresentar alternativas. Como comenta?
Compreendo que o PSD tenha rompido o pacto nesta questão do mapa,
porque o Governo tinha uma agenda oculta. Isto porque o PSD está de
acordo com a solução que o PSD encontrou. O problema foi saber quais
são os tribunais certos, onde fica a jurisdição do trabalho, em que
autarquia fica a jurisdição da família, em que tribunal… quando se
começam a fazer perguntas concretas, o Governo não responde a nenhuma.
Não é por acaso que o período experimental atira o redesenho do mapa
para além das eleições de 2009. Há aqui uma manobra política em curso.
Acho que o PSD fez bem.
Pensa que a oposição interna no PSD foi “esmagada”, como se comentou no último Conselho Nacional?
Não compreendo que não haja espaço para a divergência política dentro
de um partido. Não aceito que se venha com o «toque a rebater», só
porque uma pessoa ou outra, ou muitas, tenham opiniões diferentes. Acho
que a liderança tem toda a legitimidade para conduzir a sua política,
mas não para ostracizar ou condenar, ou vir publicamente mostrar grande
desagrado com as pessoas que estão em discordância. São discordâncias
pontuais, senão as pessoas não estavam no mesmo partido. Mas também se
deve respeitar as lideranças e as suas opiniões.
Há um ano, falou em “claustrofobia democrática”. Ainda mantém a mesma opinião?
Tal e qual. Quando falei em propaganda, a nível do sistema de Justiça,
é muito disto que se trata. É uma questão de tentar marcar sempre a
agenda mediática. A sensação é de que as pessoas não podem discordar ou
acontece-lhes alguma coisa. Não é tanto uma cesura externa, mas uma
indução à auto-censura. O primeiro-ministro é um bom exemplo. Quando há
um militante a levantar a voz, fica muito agastado, se há uma
manifestação, ele vai fazer um comício… não é uma lógica de quem
governa um país com várias correntes de opinião, mas sim, de uma
«concelhia» em que qualquer resposta tem de ser alvo de uma «marcação à
zona». Há medo de exprimir opiniões, como é o caso dos professores.
Claro que, se for numa manifestação, não têm medo porque estão todos
juntos… até ao nível da advocacia existe o medo de interpor acções.
Falou, numa entrevista, em ameaças à democracia, especialmente a nível
de Comunicação Social. Qual o seu papel na claustrofobia que refere?
Penso que a Comunicação Social está muito condicionada pela ideia da
sua própria popularidade, aquilo que eu chamaria a medição das
audiências, em rádio, na televisão e nos jornais. É muito negativo. E
chamo especialmente a atenção para o papel que a Comunicação Social tem
como produtor de maior mal-estar.
O PRIMEIRO DE JANEIRO | 23.03.2008
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