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O actual ministro da Administração Interna, Rui Pereira, foi proposto para
procurador-geral da República (PGR) a Jorge Sampaio, por José Sócrates, mal este
tomou posse como primeiro-ministro, em Março de 2005 - a um ano e meio de Souto
Moura terminar o seu mandato. José Sócrates, publicamente, mantinha então
confiança no procurador-geral, negando informações de que era sua intenção
substituí-lo antecipadamente.
Questionado ontem sobre o assunto, José Sócrates recusou fazer qualquer
comentário. O PUBLICO tentou também entrar em contacto com Rui Pereira, mas este
nunca se mostrou disponível para falar sobre o assunto. A notícia foi dada ontem
pelo semanário Sol, que publica escutas telefónicas que indiciam os bastidores
desse processo, citando conversas, quase sempre cifradas, entre Rui Pereira e
Abel Pinheiro.
O antigo tesoureiro do CDS-PP - constituído arguido no caso
Portucale, pelos crimes de tráfico de influências e falsificação de documento -
ter-se-á mostrado ainda particularmente interessado em conseguir de Rui Pereira,
ex-director do SIS, informações judiciais a que este poderia ter acesso.
O
jornal faz ainda notar que o ministro da Administração Interna e Abel Pinheiro
pertencem ambos à maçonaria, e que na altura em que foram escutados partilhavam
a loja Convergência, do Grande Oriente Lusitano.
As escutas transcritas pelo
Sol, feitas a partir do telemóvel de Abel Pinheiro - e que também incluem
conversas com Paulo Portas e Fernandes Marques da Costa, então conselheiro de
Jorge Sampaio -, fazem parte do processo Portucale. O juiz de instrução que teve
o caso em mãos validou as intercepções telefónicas, por entender que elas
poderiam ser importantes para decidir sobre os crimes em causa no
inquérito.
Apoiando-se nos autos e nos diálogos entre Rui Pereira e Abel
Pinheiro, o Sol conclui que o jurista e actual ministro da Administração Interna
era o nome que Abel Pinheiro, Paulo Portas e José Sócrates queriam para a
Procuradoria-Geral da República.
Num dos telefonemas, Abel Pinheiro informa
Rui Pereira de que Paulo Portas havia sido abordado por José Sócrates, no
sentido de que aquele, tendo em conta as boas relações que tinha com Sampaio,
intercedesse pela escolha do novo procurador-geral.
O ministro da
Administração Interna, que faz várias perguntas sobre a evolução das
negociações, afirma-se "reconhecido" pelo esforço de Abel Pinheiro e revela
vontade de aceitar o cargo que Sócrates lhe propusera.
O semanário escreve
que Sampaio resistiu à proposta do primeiro-ministro, uma vez que preferia para
o cargo o seu assessor Magalhães e Silva ou a professora de Direito Teresa
Beleza.
As escutas revelam ainda que um assessor de Jorge Sampaio, Fernando
Marques da Costa, que actualmente faz parte da mesma loja maçónica de Rui
Pereira, participou em conversas com o actual ministro da Administração Interna
e com Abel Pinheiro sobre o assunto.
O ex-Presidente da República não quis,
no entanto, demitir Souto Moura, e resistiu às pretensões de Sócrates e de Paulo
Portas. O ex-Presidente da República, conta o Sol, acabaria também por tomar
conhecimento das conversas interceptadas.
Rui Pereira seria nomeado para
coordenador da Unidade de Missão para a Reforma Penal, responsável pela
alteração dos códigos Penal e de Processo Penal, em Agosto de 2005. Com a
candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa, Rui Pereira foi escolhido para
titular da pasta da Administração Interna.
Polémicas em volta das escutas:A saída de Souto Moura e o processo Portucale
Os dois assuntos subjacentes às conversas mantidas entre Abel
Pinheiro, Rui Pereira, Fernando Marques da Costa e Paulo Portas, de acordo com o
semanário Sol, são as investigações no âmbito do processo Portucale e a pressão,
nomeadamente por parte de dirigentes socialistas, para que o anterior
procurador-geral da República (PGR) fosse afastado do cargo antes de terminar o
mandato.
Neste último caso, recorde-se que José Souto Moura teve em mãos o
processo Casa Pia, que levou à detenção do ex-ministro e ex-deputado do PS Paulo
Pedroso, e que implicou outros responsáveis socialistas, nomeadamente António
Costa e Ferro Rodrigues, que na altura liderava o partido, ambos alvos de
escutas telefónicas.
José Sócrates tentou substituir Souto Moura, antes de
este terminar o seu mandato, mas Jorge Sampaio segurou-o.
Um dos processos
que ficaram nas mãos do novo procurador-geral, Pinto Monteiro, foi precisamente
o caso Portucale. Em causa está a viabilização de um empreendimento do Grupo
Espírito Santo, por parte de dois ministros do Governo PSD/CDS liderado por
Santana Lopes, que terá tido como contrapartida o financiamento do CDS-PP. O
Ministério Público decidiu acusar onze arguidos.
IN PÚBLICO | 30.10.2007
Já se sabia que José Sócrates nunca morreu de amores por Souto
Moura, ex-procurador-geral da República (PGR), mas o primeiro-ministro sempre
negou que tivesse mexido um dedo sequer para o correr do lugar. Segundo o
semanário "Sol", afinal, não foi bem assim.Escutas telefónicas reveladas
ontem pelo jornal demonstram que José Sócrates e o PS moveram mesmo influências,
designadamente junto do então Presidente da República, Jorge Sampaio, para
demitir Souto Moura e substituí-lo por Rui Pereira, actual ministro da
Administração Interna.
As escutas em causa fazem parte do processo Portucale
(em que o Ministério Público investigou crimes de tráfico de influências e
suspeitas de financiamento ilegal do CDS) e envolvem Paulo Portas, então líder
demissionário dos populares, o próprio Rui Pereira, Abel Pinheiro e Fernando
Marques da Costa, então conselheiro de Sampaio.
De acordo com o "Sol", as
escutas, feitas a partir do telefone de Abel Pinheiro, que tinha o pelouro das
finanças do CDS, mostram como o primeiro-ministro teve encontros com Paulo
Portas, a quem pediu ajuda para convencer Sampaio. E como Portas até deu o seu
apoio ao nome de Rui Pereira, que entretanto já tinha aceite o convite de
Sócrates para tomar o lugar de Souto
Moura.
O gato constipado
Os intervenientes nas escutas ontem divulgadas pelo "Sol"
tiveram algum cuidado na linguagem, usando até, às vezes, expressões quase de
código para se referirem a determinadas pessoas. Neste aspecto, Abel Pinheiro
foi o mais brilhante: para ele, por exemplo, Souto Moura era "o gato
constipado", Paulo Portas era "o meu patrão" ou "o nosso amigo", enquanto José
Sócrates era "o engenheiro" ou "o patrão-mor do reino". Já o então Presidente da
República, Jorge Sampaio, seria "o outro cavalheiro" ou, mais carinhosamente, o
"tio Jorge". Claro, pelo meio havia outros assuntos, mas eram "coisas... não faláveis".
IN 24 HORAS | 30.09.2007
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