Vicente Jorge Silva é a última vítima do preço de dar a cara pela consciência, por muito que a verdade custe a quem não gosta de a ouvir.
Saiba como e porquê. Neste link.
«O preço de dar a cara
Sempre dei a cara pelas minhas opiniões e recusei ocultar-me sob qualquer forma de anonimato. Mas sei o que isso custa em Portugal, sobretudo quando aquilo que pensamos e exprimimos publicamente não está em sintonia com a ortodoxia dominante na área política de que nos sentimos mais próximos.
Passei há pouco tempo por uma experiência instrutiva. Fui expeditamente dispensado – através de e-mail e na véspera da publicação de um último artigo – de escrever num jornal onde colaborava há alguns anos. Isso aconteceu depois de ter assinado dois textos ‘heterodoxos’ sobre o actual primeiro-ministro e, nomeadamente, acerca da sua licenciatura polémica na Universidade Independente.
Por coincidência, o novo director desse jornal – que antes se distinguira, noutro órgão de informação que dirigia, por posições hostis ao PS e uma campanha difamatória contra Ferro Rodrigues – assumiu logo o estatuto de defensor oficioso de José Sócrates na controvérsia sobre o currículo académico do chefe do Governo. Também por coincidência, a linha editorial do dito jornal passou desde então a reflectir um zelo propagandístico dos actos governamentais em estilo marcadamente ‘pravdiano’ (ou, se quiserem, ‘pavloviano’). E igualmente, decerto, por coincidência, o grupo empresarial de que esse jornal faz parte aparece como forte concorrente na disputa pelas novas concessões que o Governo atribuirá para expansão do espaço televisivo.
Para mim, dizer o que penso nada tem de extravagante ou heróico. É um acto tão natural como respirar – e não concebo que pudesse ser de outra forma. Mas a verdade é que o preço da liberdade em Portugal se paga cada vez mais caro e o direito a exprimirmos as nossas opiniões próprias e muitas vezes solitárias – ou de tomarmos iniciativas à margem das fronteiras políticas e ideológicas oficiais, sejam do Governo, das oposições ou das corporações instituídas – enfrenta restrições crescentes.
Isso não acontece apenas por culpa de quem governa neste momento, embora um Executivo sustentado por uma maioria absoluta – e abúlica – no Parlamento tenha tentações irreprimíveis para domesticar as dissidências. É uma situação que se foi cristalizando ao longo do tempo devido à lógica de funcionamento do regime, porque não existem contrapoderes suficientemente fortes e autónomos na sociedade portuguesa.
Num país com uma sociedade civil frágil e subsidiária do Estado, a independência de espírito ou de iniciativa vê-se condicionada por um calculismo permanente de interesses face aos poderes políticos estabelecidos.
Alguns comentadores criticaram recentemente o anonimato da maioria dos financiadores do estudo aeroportuário de Alcochete e um deles chegou mesmo a escrever que se recusava a tomar conhecimento desse estudo até saber quem o tinha custeado.
Entretanto, o presidente da CIP, Francisco Van Zeller – que deu a cara publicamente pelo estudo, embora não envolvendo a organização patronal que dirige – disse claramente, em entrevista ao SOL, aquilo que os zelosos comentadores já deviam saber: que há quem receie as retaliações governamentais em concursos públicos, prejudicando as suas empresas e interesses económicos.
Evidentemente, também eu não defendo o anonimato e preferia que os promotores do estudo de Alcochete tivessem dado todos a cara. Mas será isso suficiente para retirar credibilidade ao documento e à idoneidade dos técnicos que nele trabalharam – e o assinam?
Entre não haver estudo alternativo à Ota – iniciativa a que, aliás, o Governo teimosamente se furtou – e um estudo com alguns patrocinadores sem nome, mas que favorece o debate e uma funda- mentada decisão final, inclino-me, apesar de tudo, para a segunda hipótese. Não deveria ser assim, mas é assim que, infelizmente, as coisas funcionam em Portugal.
Publicação: Saturday, June 23, 2007 10:00 AM por vicentejorgesilva»