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Em Março, Rui Pereira, antigo coordenador da reforma
penal, assegurava que as actas da UMRP, seriam conhecidas. Agora, o
Ministério de Alberto Costa promete a sua publicação para o fim deste
mês. Se desta vez cumprir, será desvendada finalmente a paternidade de
normas polémicas como a do crime continuado.
Em Março deste ano o ministro Rui Pereira, que
coordenou a reforma penal antes de entrar para o Governo, garantia que
as actas da Unidade de Missão para a Reforma Penal (UMRP) estariam
revistas até ao fim desse mês e seriam entretanto publicadas.
Mas, a verdade, é que o actual ministro da Administração Interna mentiu. E mentiu porque até hoje elas não foram publicadas.
«O DIABO», que tem pedido, há mais de seis meses, as actas ao
Ministério da Justiça, voltou a fazê-lo na semana passada. Ficamos
agora a conhecer, através do gabinete de Alberto Costa, a seguinte
resposta, que passamos a transcrever: «as actas estarão disponíveis até
ao fim do corrente mês no sítio do Ministério da Justiça, no espaço
Unidade de Missão para a Reforma Penal».
O mistério prossegue e pairam cada vez mais dúvidas no ar: por que
razão só agora, e confrontado por «O DIABO», o Ministério da Justiça
insiste em adiar até ao fim do mês a publicação dos documentos? Por que
disse então Rui Pereira, em Março, ao «Correio da Manhã» que as actas
«estavam a ser preparadas» e seriam conhecidas no final desse mês?
As dúvidas já são muitas numa história longa que ajudará, em muito, a
desvendar a paternidade de normas polémicas, como o crime continuado e
a proibição da publicação de escutas que «O DIABO» tem salientado desde
final do ano passado.
O jogo do empurra
A verdade é que tem sido num autêntico jogo do empurra que os ministros
Alberto Costa e Rui Pereira têm lidado com a questão das actas da UMRP,
sobretudo em relação ao mistério do aditamento do artigo nº 3 do art.
30 do Código Penal, que permite que a figura jurídica do crime
continuado se aplique aos crimes de abuso sexual, tratando-se da mesma
vítima, assim facilitando a punição do autor de vários crimes por um só
crime continuado. Ambos os governantes recusaram sempre publicamente
qualquer responsabilidade na matéria. E, mesmo perante a insistência de
«O DIABO», o ministério de Alberto Costa tem, ao longo dos últimos
meses, de justificação em justificação, evitado a publicitação das
actas da UMRP.
Recorde-se que em Janeiro deste ano publicamos o conteúdo da acta nº 6,
de 28 de Novembro de 2005, que obtivemos por outra via que não o
ministério da Justiça, na qual constava: «O Dr. Rui Pereira concordou
com a necessidade esclarecer as regras processuais do cúmulo jurídico e
do crime continuado e defendeu a alteração das regras do crime
continuado, exceptuando os bens eminentemente pessoais e consagrando
regras próprias para os crimes contra bens patrimoniais. A situação
actual cria desigualdades por não terem conta o valor total dos bens
patrimoniais afectados pelos crimes que integram tal continuação». Rui
Pereira sempre negou tudo isto publicamente. Só não se entende por que
razão o Ministério da Justiça sempre disse ao nosso jornal que «a
maioria das actas das reuniões da UMRP foi elaborada poucos dias depois
de cada reunião e assinadas pelos presentes na reunião seguinte. Só
assim não aconteceu nas reuniões mais recentes» mas mesmo assim foram
«elaboradas pela URMP os respectivos projectos de acta, que apenas em
alguns casos aguardam a leitura e assinatura por todos os participantes
nas reuniões».
O que se disse sobre as actas não publicadas
«Só por ignorância, ou por uma vontade comprometida de defender o
indefensável, é que não se reconhece que a Revisão veio prever algo que
é minoritariamente admitido. A mentira maximalista é que descredibiliza
todo o processo legislativo, que está na penumbra do sótão, pois
ninguém conhece as actas de discussão da Unidade de Missão, que deviam
ser públicas».
Rui Rangel, Juiz-desembargador
«Os Ministros Rui Pereira e Alberto Costa vieram
publicamente rejeitar responsabilidades pela nova redacção do artigo 30
do Código Penal. Mas ainda ninguém esclareceu como apareceu a proposta
do inciso final “salvo tratando-se da mesma vítima “e como foi
justificada e acolhida na UMRP. Como é sabido, essas seis palavrinhas
estendem a figura do “crime continuado ” aos crimes contra pessoas,
beneficiando assim os responsáveis por abusos repetidamente praticados
contra uma mesma vítima - como acontece muitas vezes em casos de
pedofilia e de violência doméstica. Eu quero, como muitos portugueses,
perceber o que é que afinal se passou. Quero entender com que
argumentos e em que circunstâncias o acrescento acabou por ser
finalmente reintroduzido na Comissão de Assuntos Constitucionais da AR,
depois de esta ter, aparentemente, acordado na sua eliminação. E quero
entender como reagiram então - ou se reagiram — os representantes dos
diferentes partidos. Porque todos, a começar pelos deputados do PS,
tinham obrigação de estar cientes do que tal acrescento implicava. E
ninguém podia ignorar que essas implicações teriam relevância para o
caso Casa Pia e não só. Relevância jurídica e, desde logo, relevância
política. Ninguém podia ignorar até porque a própria Comissão de
Assuntos Constitucionais da AR havia debatido, em Julho, esse
acrescento, vindo da UMRP no texto submetido pelo Governo. E a
eliminação do acrescento fora, ao que parece, até proposta pelo PS,
depois de ouvidas associações profissionais de juristas alertando para
as gravosas implicações de tal adição. É por isso inaceitável que, mais
tarde, a proposta de eliminação tenha sido descartada, o acordo que
sobre ela incidia tenha sido ignorado e o ignominioso acrescento tenha
sido reintroduzido e aprovado por maioria, aparentemente do PS apenas,
na AR. Na decisão da AR sobre o referido artigo 30° estava muito mais
em causa do que a revisão do Código Penal: estava em causa a reputação
do PS. As consequências jurídicas do acrescento aprovado são
escabrosas, em particular no contexto da Justiça ainda não feita (e que
muitos temem jamais venha afazer-se) no caso Casa Pia. As consequências
políticas, como era previsível, estão a ser desastrosas para a
reputação pública do PS, dos seus dirigentes aos seus militantes».
Ana Gomes, no «blogue» Causa nossa, 3 de Novembro de 2007
O DIABO | 24.06.2008
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