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Depois
de muita polémica, e uma acesa troca de acusações entre PS e PSD, o
Governo decidiu apresentar hoje, sozinho, a reorganização dos
tribunais. Para além da concentração de 231 tribunais em apenas 39
comarcas, a proposta do Governo prevê que os tribunais passem a ser
geridos por um presidente, coadjuvado por um conselho de administração
onde vão estar representados, advogados, solicitadores, magistrados do
Ministério Público, e membros das autarquias. De acordo com a proposta
final, os advogados também podem ter acesso à principal função de
gestão dos tribunais.
`A licenciatura em direito e a condição
profissional de advogado, não constituem impossibilidade no acesso à
administração dos tribunais", garantiu ao Diário Económico o ministro
da justiça Alberto Costa. Além do administrador, que será sobretudo um
gestor, o novo modelo de organização dos tribunais terá um órgão com
funções de participação e consulta ao presidente e administrador.
O
Conselho de Comarca, reúne o presidente do tribunal, um magistrado do
Ministério Público, advogados, representantes dos solicitadores, das
autarquias, bem como dos utentes dos serviços de justiça. 0 Ministério
da justiça quer com isto dar voz a quem tem de recorrer à justiça. Em
entrevista ao Diário Económico, Alberto Costa disse estar seguro de que
esta medida, será bem acolhida porque "os magistrados sabem bem que é
preciso promover formas de diálogo sobre as críticas que provêem do
mundo exterior".
Mas não é só o modelo de gestão que muda. O mapa
dos tribunais portugueses sofre uma autêntica reviravolta. Das actuais
231 comarcas, passam a existir apenas 39. O objectivo, diz o ministro
é, "gerir em melhores condições recursos humanos, materiais, logísticos
e financeiros". Esta mudança não implica o encerramento de tribunais,
garante o Governo, porque os tribunais passam a estar integrados em
comarcas, sendo que "cada uma terá uma gestão unitária e uma liderança
atribuída a um juiz presidente". Mas o não encerramento de tribunais
não deverá evitar a deslocação de juízes e funcionários. "Imaginamos
que existirá uma possibilidade de reafectação, porque em muitos casos
verifica-se que em comarcas vizinhas existem panoramas completamente
diferentes em termos de disponibilidade de funcionários e magistrados,
face ao número de processos". Um dos grandes objectivos do Executivo é
corrigir a concentração da resposta especializada e a desigualdade no
acesso à justiça: "Quem morasse numa área metropolitana tinha uma
multiplicidade de ofertas de justiça especializada que no interior não
encontraria em centenas de quilómetros". Porém, nem todas as comarcas
terão todas as competências especializadas "porque a massa de processos
em cada comarca não justificaria, mas haverá justiça especializada em
praticamente todas as novas comarcas", assume o ministro. Na base desta
reorganização estiveram estudos que mostram que as carências mais
sentidas são nos tribunais de família e menores. As alterações
implementadas com esta reforma são hoje apresentadas numa cerimónia, em
Lisboa, onde estará o primeiro-ministro, José Socrates, bem como toda a
equipa do Ministério da justiça. A proposta segue depois para o
Parlamento.
O Governo já disse que espera que haja um "alargado
consenso", mesmo depois do PSD ter decidido abandonar o Pacto de
justiça. Em causa diz a liderança de Menezes está uma proposta
"inadmissível" que prejudica o interior do país.
ORGANIZAÇÃO
O mapa judiciário será organizado em 39 comarcas principais, às quais ficam agregados os restantes tribunais.
DIRECÇÃO
O presidente terá funções de representação, direcção, gestão processual e competências administrativas.
GESTÃO
O administrador do tribunal será um gestor. O concurso é aberto a várias profissões, entre elas os advogados.
OPINIÃO
Ao Conselho de Comarca compete transmitir opiniões da sociedade civil e de profissionais ligados à justiça.
Reforma do mapa judiciário sem qualquer consenso
O Governo pediu um consenso alargado no Parlamento
em relação ao novo mapa judiciário, mas até agora os deputados da
oposição desconhecem as verdadeiras intenções do Executivo. Estão mesmo
"às escuras" sobre o que irá mudar no panorama judicial pelo país.
Encerram ou não tribunais? Esta parece ser a grande questão que os
grupos parlamentares querem esclarecer antes de comentarem qualquer
proposta. Nuno Melo, do CDS, recorda que PS e PSD "romperam um Pacto
para a Justiça, no pressuposto de que o Governo vai encerrar
tribunais". Mas o discurso do Executivo, lembra o deputado, vai no
sentido de que "não irão encerrar qualquer tribunal no país". Então o
que é que verdadeiramente muda? Nuno Melo acredita que a confirmar-se o
não encerramento, a reforma não passará de uma mudança de
"terminologia", o que significará uma "reforma zero".
Do lado do
PSD, que se recusou a negociar com o PS a proposta do novo mapa por
discordar exactamente do encerramento de tribunais, o discurso é
semelhante: "Não conhecemos a proposta que foi aprovada em Conselho de
Ministros. Do que veio a público, o Governo decidiu acrescentar mais
quatro comarcas em relação à proposta que nos tinha sido apresentada.
Mas acreditamos que os defeitos que então apontamos se mantêm". No
entanto, até que chegue ao Parlamento a versão final do documento, o
PSD não adianta que propostas alternativas irá apresentar. O PCP segue
a mesma linha, com António Filipe a remeter para mais tarde qualquer
comentário ao documento.
Salvaguardando o facto de ainda não
conhecer a versão final do mapa judiciário, o Bloco de Esquerda admite
já que tem "sérias reservas" em relação ao que foram as propostas
inicialmente apresentadas. As dúvidas, diz a deputada Helena Pinto,
passam, por exemplo, "pela nova estrutura e gestão dos tribunais". O BE
não concorda com a figura do "juiz presidente" e considera
"preocupante" a hipótese dos processos virem a ser distribuídos em vez
de sorteados. Quanto ao possível encerramento de tribunais, Helena
Pinto defende que "tudo o que for reduzir o serviço público, numa
situação em que já é difícil aceder à Justiça, é prejudicial".
Grupos parlamentares desconhecem proposta
LUIS MONTENEGRO, Deputado do PSD
"Estamos à
espera de receber a proposta aprovada em Conselho de Ministros. Do que
veio a público, há um acréscimo de quatro comarcas em relação ao que
nos foi apresentados, mas estamos em crer que os defeitos que apontamos
se mantêm"
NUNO MELO, Deputado do CDS
"Para que o CDS possa
avaliar, precisa de saber o alcance da proposta do Governo. Perceber se
nesse mapa as alterações implicam ou não o encerramento de tribunais ou
se é simplesmente a alteração de designação. Aí a reforma será zero.
HELENA PINTO, Deputada do BE
"O documento que foi
conhecido inspira-nos sérias reservas. Primeiro pela nova estrutura e
gestão dos tribunais. Depois em relação ao encerramento, tudo o que for
reduzir o serviço público, numa situação em que já é difícil aceder à
Justiça, é prejudicial".
DIÁRIO ECONÓMICO | 18.03.2008
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