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Inevitável fecho de 100 a 150 Tribunais
20-Abr-2008
Paulo Rangel (PSD) manifestou, ontem a suspeita de que, ou o governo "tem o verdadeiro mapa guardado, ou queria que fosse o PSD a ficar com o ónus do desagrado dos autarcas". "O que o governo propõe pode trazer melhorias, mas não resolve. Não é possível fazer a reforma sem encerrar entre 100 e 150 tribunais e não vale a pena ter ilusões", sustentou.

Paulo Rangel (PSD) disse ontem, em Aveiro, que a liderança de Filipe Menezes "fez bem" em romper o pacto de Justiça com o PS, em cujas negociações participou, porque a proposta do governo "trazia uma agenda escondida".

Num debate em que participou com Fernando Negrão sobre "Justiça e Segurança", organizado pela distrital de Aveiro do PSD, Paulo Castro Rangel, professor na Universidade Católica e deputado com o mandato suspenso, acusou o governo de "nunca ter remetido ao PSD propostas concretas de localizações e competências" no que respeita ao desenho do novo mapa judiciário.

"A proposta do PS trazia uma agenda escondida, na medida em que tudo o que eram detalhes ficava como ónus para o PSD e, tanto assim que, excepção feita às comarcas experimentais, não se sabe como vai ser no resto do país", disse. Paulo Rangel manifestou a suspeita de que, ou o governo "tem o verdadeiro mapa guardado, ou queria que fosse o PSD a ficar com o ónus do desagrado dos autarcas" e explicou que, embora tivesse participado nas negociações, discordou do resultado final do acordo, subscrito pelo seu partido.

Aquele interveniente considera que a reorganização da Justiça "é uma questão técnica e não política" e acusa o governo PS de não querer assumir o preço do encerramento inevitável de muitos tribunais, "por já estar com as guerras das escolas e das urgências". Paulo Rangel conclui que é inevitável os dois maiores partidos se entenderem nessa matéria, porque "se têm de blindar contra os seus próprios autarcas que, muitas vezes não têm o sentido do interesse nacional"."O que o governo propõe pode trazer melhorias, mas não resolve. Não é possível fazer a reforma sem encerrar entre 100 e 150 tribunais e não vale a pena ter ilusões", sustentou.

Fernando Negrão, ex-ministro e antigo responsável pela Polícia Judiciária, abordou o problema da segurança para defender uma mudança estrutural na organização das forças policiais, sob a tutela única de um "Ministério do Interior"."O que temos hoje são competências repartidas na investigação criminal e atritos complicados entre as polícias porque não foram criados mecanismos de coordenação entre as várias forças de segurança", diagnosticou.Segundo Negrão, a "originalidade portuguesa" de haver duas tutelas para as polícias leva ao despique, entre os próprios ministérios, porque cada um não abdica de ter a força melhor equipada".

A solução passa pela concentração num único ministério, não da Administração Interna, cuja nomenclatura "corresponde a um preconceito", e com atribuições dispersas também pelas autarquias e a organização dos processos eleitorais, mas um ministério do interior, porque as forças de segurança são demasiado importantes" para o justificarem.Com a sofisticação da criminalidade, cada vez mais a circulação de informação entre as polícias é crucial, incluindo aí também o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e o sistema prisional, pelo que Fernando Negrão defende que seja criado um sistema integrado de informação, que chegou a projectar enquanto responsável pela PJ, quando esta ainda tinha ascendente sobre as outras polícias.

Para Fernando Negrão, as mudanças sociais ocorridas desde o 25 de Abril tornam desajustada a "arquitectura de segurança concebida de forma muito inteligente pelo Estado Novo", até porque desde que António Costa, quando foi ministro, "resolveu repartir as competências de investigação criminal, não se pode voltar atrás." Relembrou que no período do Estado Novo havia a competência exclusiva da PJ na investigação e a segurança pública estava entregue à PSP nas áreas urbanas, e à GNR nas rurais, "evitando choques entre as polícias", com mais um elemento vital, a informação, veiculada às polícias por uma instituição de triste memória, a PIDE".

LUSA | 20.04.2008 

Comentarios (13)add
... : LucasEvangelista
até q enfim alguém diz o que se deve dizer...
*
É óbvio que há comarcas que vão desaparecer. O país não tem dimensão para suportar comarcas como Meda ou Vimioso...Percebe-se.
20.Abril.2008
... : Paulo Auditor
Que pena fecharem as pequenas comarcas rurais!
Estava a investir na aquisição de conhecimentos sobre ruralidade, sobre vacas, burros e outros bichos.
O meu livro de cabeceira de momento chama-se " Quando os burros zurram".
Estou a aprender tanta coisa que me sinto um pouco frustado.
A minha esperança é que não acabem assim de forma tão abrupta com esses tribunais.
Cá no intímo não acredito mesmo nisso, pois ainda vão escoicear muitos burros.
Gostava de estar mais tempo convosco mas tenho de ir tratar dos burros. Os finórios já não querem comer pasto,preferem mamar na teta da vaca.

20.Abril.2008
... : BD
O encerramento das comarcas rurais representa um perigo efectivo para a nossa sociedade. Uma vila da província sem um tribunal não é uma verdadeira vila. Falta-lhe esta instituição absolutamente fundamental para a vida humana - para lhe dar segurança e significado, mesmo que as pessoas não pensem muito nisso no seu quotidiano. O homem tem necessidade de instituições, uma necessidade primeira, radical. Isto não tem nada a ver com burros nem nem com vacas nem com bestas quadradas. Não me quero alongar. Recomenda-se redobrada atenção à feitura do mapa judiciário e muita cautela com as medidas que vão ser tomadas. Não desorientem as pessoas.
21.Abril.2008
... : açoriana
Concordo na integra com o comentario do "BD".. por sinal eu, oriunda e mt ligada ainda a uma vila e ainda comarca rural, nao vejo que os seus magistrados se limitem a estudar burros e vacaria.. talvez saibam mt mais de direito de que certos centralistas do terreiro do paço.. alarguem horizontes pf
tenho dito..
21.Abril.2008
... : Zack-von-Track
O que faz uma vila não é um tribunal, cfr. Amadora, Bombarral, durante anos!
O resto é paleio do Estado-subsidio...
21.Abril.2008
... : NóNó
A amadora n teve tribunal 17 anos...
*
Aqui em Alkwogulhe-de-cima tb queríamos um...
21.Abril.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Amadora não é uma vila, ó Zack. É uma cidade!
21.Abril.2008
... : açoriana
Existem vilas e Vilas... existem vilas que sobrevivem à inexistencia de tribunal mas outras nao! Para isso o legislador tem de sair das alcatifas da AR e andar pelos atalhos do país.. senao daqui a dias as nossas leis serão cada vez mais autistas e desfazadas da realidade do país cuja ordem juridica pretendem regular(??!!)
21.Abril.2008
... : Um Juiz Desiludido
Atenção, Paulo Auditor, a animalagem prolifera mesmo na cidade, daí que a sua leitura mantém interesse e sempre manterá. Leia também o Elefante da Tromba Grande ou o Macaco Gingão, pois poderá ter interesse, pese embora a perda do Império... mais não seja para a comarca de Lisboa, onde terá mais aplicação!!!

21.Abril.2008
... : Zack-von-Track
Correcto! Hi-Hi-Havaiano...era só para reforçar...o evidente.Estou a 100 km da Amadora, mas conheço cidades a mil...
*
Videoconferência em juntas de freguesia com mais de 4000 habitantes e só tribunais nas capitais de distrito...Ponto.
22.Abril.2008
... : ADV
Independentemente de burros, vacas, demais animais de carga, "ruralismos" e "urbanismos", a realidade subsiste. E essa, por mais voltas que os burros dêem, não desaparece. Poderão desaparecer os burros (aliás, está em vias de extinção a dita espécie asinina), mas a realidade, mesmo sem burros, vai continuar a existir (a não ser que o planeta seja engolido por um buraco negro, e mesmo assim a realidade vai ser essa), e vai durar anos, e anos, e anos....
A forma como os que subsistirem vão solucionar suas questões nesse futuro, permanece, para já, uma incógnita
22.Abril.2008
... : açoriana
por sinal a dita raça, que estava em vias de extinçao, está numa fase de renascimento, pelo menos por estas bandas do atlantico.. mas desses burros até eu gosto, sao animais esforçados e com mta graça até... o problema sao os outros.. os nao asininos...
Quero ver sim como vao resolver p ex o problema das comarcas das ilhas consideradas pequenas.. é apenas um exemplo .. vamos ver se o legislador consegue ver para além do janelao da sua sala..
vamos ver se o ruralismo nao é mais uma realidade mental do que fisica... o campo nunca estupidificou ninguem, pelo contrario só alargou horizontes ..
22.Abril.2008
... : Mário Rama da Silva
Tal como açoriana, concordo com BD.
Há que ter algum comedimento e entender que há instituições que são referências do Estado e da sua existência para além da capital, da bandeira e do hino.
Não basta elevar as vilas a cidades, sem condições para o serem, para depois lhes tirarem todos os serviços e referências que antes tinham, desde correios, serviços de saúde e, agora, tribunais.
Não pode criticar-se a desertificação do interior apontando como razão a falta de condições e, simultaneamente, defender-se o desaparecimento das que lá restam.
Haverá comarcas cujo movimento será escasso para justificar a sua existência mas não pode ser esse o único critério, tendo de ser temperado por um critério geográfico. A justiça não é apenas um bem essencial mas um sinal da soberania do Estado e, em muitas zonas, o único sinal de existência dessa soberania e desse Estado, comparado com o centralismo dos restantes poderes e com o caciquismo autárquico e partidário, sendo isso que lhe confere dignidade.
Aceitar o encerramento de tribunais por meras razões economicistas é compará-los a estabelecimentos comerciais e encerrá-los porque se situam em vilas do interior onde o incómodo de quem lá é colocado se torna desagradável seria negar a sua própria essência, admitindo esse argumento que parece, por vezes, dissimular-se por trás de outras razões.
Os Tribunais devem existir onde sejam necessários e não pode ser a uma centena de quilómetros de quem deles precisa. Sob pena de deixar de precisar e ficarem, definitivamente, ao serviço das grandes empresas ou a julgar aqueles que voltarão a resolver os seus diferendos à sacholada.
Se nos detivermos um pouco a pensar na absoluta ausência de prestígio dos Governos Civis perceberemos que não é pelo facto de não servirem para nada mas porque estão tão longe das populações que não podem servir para nada, mesmo que lhes quisessem atribuir qualquer papel.
E não vale a pena iludirmo-nos: onde encerrarem sucessivamente Tribunais irão surgir centros de arbitragem, centros de mediação, julgados de paz e outras fórmulas semelhantes que, progressivamente, verão as suas competências alargadas até que os Tribunais sirvam para muito pouco e acabem por estiolar porque, nessa altura, até nas terras com Tribunais vai haver todas essas alternativas e então... teremos Tribunais para julgar homicídios e abusos sexuais. O resto será resolvido por forma mais ajustada ao economicismo.
24.Abril.2008
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