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Governo quer controlar a investigação criminal criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
01-Jul-2008

Carlos Anjos, presidente da ASFIC: «Aquilo que estamos afazer. é criar paliativos»;
Rui Rangel, juiz-desembargador no Tribunal da Relação de Lisboa: «Há uma tendência muscular do Estado de querer controlar todos os sectores»
António Cluny, presidente do SMMP: «Importa definir as competências do CPC e separá-las das funções judiciais do MP e dos juízes».


PELA primeira vez desde que exerce o cargo de Procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro entra em rota de colisão com o Governo de José Sócrates.
O PGR afirmou na semana passada no Parlamento que o Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC) - o órgão preventivo no combate à corrupção que o PS quer criar - tem «pendor governamental». Isto porque o novo órgão irá integrar vários inspectores-gerais do Estado (como o das Finanças e o das Obras Públicas), que têm tutela ministerial e são escolhidos pelo Governo. Pinto Monteiro recordou ter integrado em tempos a extinta Alta Autoridade contra a Corrupção, recordando que esta não integrava nenhum representante nomeado pelo Governo. Pinto Monteiro considera que devem ser dadas todas as informações sobre enriquecimento injustificado para que depois se possa «apurar-se este é, ou não, ilícito, na subsequente fase de investigação». Afirmando que a Alta Autoridade estava muito bem organizada, admitiu porém que acabou por ter poucos resultados práticos. O homem comum, explicou, «quer é ver explicadas as situações em que uma pessoa tinha dez e passa a ter mil sem que para o facto exista qualquer explicação». O PGR criticou ainda a proposta de lei do Governo para a Segurança Interna, defendendo «um controlo» dos poderes do secretário-geral no âmbito da futura Lei, sob pena de estes «se sobreporem às competências do Ministério Público (MP)».
«Tem de haver uma delimitação mais rigorosa desses poderes», disse Pinto Monteiro perante os deputados.
No entender do PGR, «Lei de Segurança Interna assenta num sistema integrado liderado por um secretário-geral, cujo conselho estratégico foi escolhido pelo Governo». Contudo, em termos de competências dessa nova figura institucional, que irá funcionar na dependência directa do Primeiro-Ministro, Pinto Monteiro considera existir nos novos diplomas em debate na especialidade «uma amplitude imensa de poder que pode colidir com o MP».
Carlos Anjos, presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal (ASFIC), Rui Rangel, juiz-desembargador no Tribunal da Relação de Lisboa, Fernando Negrão, ex-director nacional da Polícia Judiciária (PJ) e António Cluny, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), comentam a «O DIABO» as criticas da cúpula do MP ao Governo de Sócrates.

«Estamos perante um órgão sem o qual passamos muito bem»
Carlos Anjos, presidente da ASFIC, considera que «se as funções do Conselho de Prevenção da Corrupção forem apenas aquilo que foi dito publicamente e não tiverem funções de investigação nem nenhuma tutela sobre a investigação, forem gabinetes estudos e fornecerem livros de boas práticas estamos perante um órgão sem o qual passamos muito bem».
E questiona: «qual é a prevenção da corrupção? O que é fundamental é definirmos o que é o crime de corrupção e o que é a prevenção». Refere que «ou se vai lá por artificies legislativos e se clarifica a lei e se diz o que se pode ou não fazer e, por exemplo, se transponha para a legislação portuguesa aquilo que o Parlamento não diz, nomeadamente, a explicação sobre as fortunas que se fazem muito facilmente. De outra forma aquilo que estamos afazer é criar paliativos».
Lembra que segundo a Constituição a investigação criminal em Portugal é toda dirigida pelo MP. Nessa medida, «não pode ser criado nenhum órgão ligado à corrupção fora do âmbito do MP».
Questionado sobre o eventual teor governamental do novo órgão - que irá integrar vários inspectores-gerais do Estado (como o das Finanças e o das Obras Públicas), que têm tutela ministerial e são escolhidos pelo Governo - Carlos Anjos responde: «o que é que muda em relação ao que existe hoje? O que é que a Inspecção-Geral das Obras Públicas e a Inspecção-Geral de Finanças fizeram? Quantos processos de corrupção tiveram origem nestas inspecções? Nenhum».
«Está a criar-se um órgão novo com as mesmas cartas. Se não lhe forem atribuídas funções de investigação - que não as pode ter, mesmo nas inspecções já que só as pode fazer ao nível administrativo - isto acaba por ser mais do mesmo», acrescenta.
Frisa que o importante passa por «clarificar na lei o que é que os funcionários públicos podem ou não receber, como prendas, etc., ter regras claras nos concursos públicos e depois investigar quem cria riquezas estranhas e perceber como é que elas surgem».
Sobre a eventual governamentalização do futuro secretário-geral de Segurança Interna, o responsável da ASFIC, afirma que «é claro que tal não está definido na lei» e sublinha que o secretário-geral, seja ele quem for, «não pode ter nenhuma função que tivesse a ver com a investigação criminal nem com a coordenação da mesma».
«Se o novo secretário-geral pode, por exemplo, coordenar as polícias em matéria de ordem pública, nunca o deverá fazer em matéria de investigação criminal porque isso depende do MP e está em segredo de Justiça. Um órgão do Governo não deve ter conhecimento de matérias que estão em investigação», alerta.
Por tudo isto salienta que «as coordenações não se impõem» sendo «preferível que os directores das polícias falassem e que as competências das polícias estivessem clarificadas porque se soubessem o que é que cada uma faz, dificilmente elas precisariam de clarificação».
António Cluny, presidente do SMMP, diz que «interessa pouco se o CPC tem ou não pendor governamental», o que importa definir claramente «são as competências desse órgão e separá-las claramente das funções judiciais do MP e dos juízes». «Desde que essa separação esteja feita, é uma opção do poder político», afiança.
«Ainda não consegui compreender as funções exactas daquele órgão, de que tipo de competências e que metodologias de trabalho terá», refere, adiantando que «se o CPC não tivera ver com a investigação criminal é evidente que lhe podem ser atribuídas todo um conjunto de competências».

«Independência»
Também Fernando Negrão, deputado do PSD e ex-director nacional da PJ, no texto que fez chegar a «O DIABO» - a sua intervenção em plenário a 18 de Junho - sobre este Conselho de Prevenção da Corrupção disse que «o projecto de lei agora em discussão tem por objecto principal, não a criação de um Conselho de Prevenção mas sim por atribuições e competências uma mistura inexplicável da prevenção com “detecção, combate e repressão das ocorrências dos factos de natureza criminal. Assim, misturando prevenção com investigação criminal, quando são bem claras as competências do MP na área da repressão criminal».
«Seja na agência, seja em comissão nacional, seja em conselho, o que verdadeiramente importa é a criação de um órgão ao qual seja garantida efectiva independência, dotado de um pequeno núcleo de responsáveis com elevado nível técnico e de experiência, mandatado para objectivos precisos e claros, com uma forma de funcionamento que lhe permita verdadeira eficácia e que possua todas as condições para não se deixar enredar nas teias da burocracia», lembra.

Rui Rangel, juiz-desembargador no Tribunal da Relação de Lisboa, sobre a figura do novo secretário-geral
«Perigo para os cidadãos e o Estado de Direito»

O DIABO - Qual a sua opinião sobre este CPC?
RUI RANGEL- Do meu ponto de vista não faz nenhum sentido. Era importante que se tentasse agilizar os processos que já existem de fiscalização, os meios técnicos e humanos que já temos e os tribunais que já temos. Tenho sempre muito receio da criação de Comissões para preventivamente tentarem combater a corrupção. Esta Comissão, a existir, está excessivamente governamentalizada. Se o Governo quer ter uma Comissão de Prevenção no combate à corrupção, então forme essa Comissão com gente que não dependa directamente do Governo, com inspectores que não estejam sob a tutela nem do ministro das Obras Públicas nem do ministro das Finanças, que seja uma Comissão criada no seio da AR, com gente isenta, imparcial e independente, e aí sim, podem obter um papel preventivo no sentido de educar as pessoas, de agilizar os processos a nível das contratações públicas que se passam hoje na Administração Pública e que podem, do ponto de vista preventivo, criar mecanismos que criem nas pessoas uma mentalidade de combate à corrupção.
Basta de comissões e esta, nos moldes em que está não serve.

Na Lei de Segurança Interna há o perigo de os poderes do secretário-geral se sobreporem e limitarem as competências do MP?
Isso está tudo ainda muito difuso. Primeiro, o aparelho de Estado já apanhou todos os sectores públicos e agora quer apanhar o sector da Justiça e toda investigação criminal. Há uma tendência muscular do Estado de querer controlar todos os sectores. E como este é o único poder que ainda não é controlável porque os juízes gozam de independência e o MP de autonomia, isto é uma tendência para confundir e baralhar aquilo que é a segurança pública e a investigação criminal. Este novo secretário-geral, que vai funcionar na dependência directa do Primeiro-Ministro, as funções que estão lá definidas não são só funções de coordenação das polícias. Tem também funções da investigação criminal. E isso é muito perigoso, para os cidadãos, para o Estado de Direito e para as liberdades e garantias das pessoas. Tem que haver uma separação claríssima entre segurança pública e investigação criminal.

O DIABO | 01.07.2008

Comentarios (4)add
... : Socrália
Trata-se de uma cruzada golpista.
Onde anda o Bastonário da OA ? . A OA e o seu Bastonário, historicamente, representavam um baluarte e garantia dos direitos dos cidadaõs. Que saudades !
Todavia, tirando o folclore, o silêncio ( conivência) é regra !!

Onde anda o Sr. Presidente da República ? Viverá neste país ? Ter-se-á esquecido que jurou a Constituição ?

Há muitos presidentes Zimbawés ? Na Europa ? Em Portugal ?

O presidente do Zimbawé também tem um organismo/observatório de combate à corrupção sobre a sua alçada. Sabiam ?
01.Julho.2008
... : Gandalf
Na notícia supra transcrita surge a dado passo uma frase atribuída ao Sr. PGA António Cluny com o seguinte teor: «interessa pouco se o CPC tem ou não pendor governamental», o que importa definir claramente «são as competências desse órgão e separá-las claramente das funções judiciais do MP e dos juízes». (o sublinhado é nosso).
Não posso crer que o Sr. PGA António Cluny tenha proferido tal frase, tratando-se certamente de lapso do jornalista. É que desde quando é que o MP tem funções judiciais?!!!
01.Julho.2008
... : Magistério Púnico
Não creio que o governo queira controlar a investigação criminal.
O governo quer sim acabar com a investigação criminal e reduzí-la a algo de meramente decorativo e residual. Já esteve mais longe de ver concretizado esse desejo.

Gandalf:

Claro que o PGA Cluny não se enganou, toda agente sabe que o MP quer roubar as competências dos juízes e mandá-los a todos para casa.
Cuide-se.
01.Julho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Caro Gandalf, aprecio sempre os seus comentários. Mas o MP tem funções judiciais. Não tem é funções (pegando no seu termo) jurisdicionais nem jurisprudenciais.
01.Julho.2008
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