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Ex-ministros enriquecem com a política criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
23-Set-2007

Pina Moura e António Vitorino – dois dos casos mais polémicos dos últimos tempos de deputados que renunciaram ao mandato para trabalharem no sector privado – são exemplos concretos de como a política pode ser um trampolim para a valorização da carreira profissional e o enriquecimento pessoal. Entre 1994 e 2003 Pina Moura aumentou o rendimento anual de nove mil para 172 mil euros. António Vitorino conseguiu em seis anos, entre 1994 e 1999, subir o rendimento anual de 36 mil para 371 mil euros.

Das 35 renúncias ao mandato de deputado na actual legislatura, os dois ex-deputados do PS integravam a lista de oito parlamentares que não tinham depositado no Tribunal Constitucional (TC), até sexta-feira passada, a declaração de interesses por cessação de funções. Como a Lei 25/95 dá um prazo de 60 dias para isso, os incumpridores correm o risco de ficarem impedidos de exercer cargos políticos de um a cinco anos.
A consulta das declarações de rendimentos disponíveis de Pina Moura e António Vitorino permite comparações relevantes entre um antes e um depois de ser ministro. Em 1994, um ano antes de ser eleito deputado pelo PS, Pina Moura ganhava nove mil euros por ano. Em 2003, após ter sido ministro da Economia e das Finanças de António Guterres, declarou 172 mil euros, 19 vezes mais. Neste momento é presidente da Iberdrola e da Media Capital, proprietária da TVI.
O caso de António Vitorino é também elucidativo: após ter saído do Governo em Outubro de 1997, onde era ministro da Presidência e da Defesa, foi, entre Março de 1998 e Abril de 1999, vice-presidente não executivo da Portugal Telecom Internacional e presidente da assembleia geral do Banco Santander em Portugal. Resultado: se em 1994, quando já tinha uma carreira académica, ganhou 36 mil euros, em 1999, ainda no sector privado e depois como comissário europeu, declarou 371 mil euros. E em 2004, já só como comissário europeu, obteve 252 mil euros.
Pina Moura, que renunciou ao mandato em 2 de Maio deste ano, garantiu sexta-feira passada que “por lapso a entrega da declaração de rendimentos no TC, devida pela renúncia ao mandato de deputado, ainda não tinha sido efectuada, o que acaba de ser feito”. E António Vitorino, cujo prazo para apresentação dos documentos terminou na sexta-feira, diz que “pensava que era no final de Setembro, mas entregarei [a declaração de rendimentos] para a semana”.

Capacidade de fazer lóbi
António Vitorino, que integra actualmente um dos maiores escritórios de advogados do País, assume de forma clara que o exercício de funções governamentais ou parlamentares é uma mais-valia para a carreira profissional de qualquer pessoa. “Não me considero um exemplo típico disso [foi docente e exerceu advocacia] mas, obviamente, que o facto de estar na política e contactar com a realidade do País tem relevância para a carreira profissional”.
Hoje, integra o escritório de Gonçalves Pereira, Castelo Branco & Associados. António Costa Pinto, especialista em política, diz que “uma das razões por que assistimos à passagem de ex-ministros para empresas públicas e do sector privado é a capacidade de fazer pressão”. E frisa que essas pessoas permitem “abrir portas e estabelecer contactos”. No essencial, como diz André Freire, também especialista nesta área, “a pessoa sabe como se relacionar com o poder e isso é um trunfo”.

Pina Moura
Em 1994, ano anterior a ser eleito deputado pelo PS, Pina Moura obteve um rendimento anual de nove mil euros. Em 2003, já depois de ter sido ministro da Economia e das Finanças de Guterres, ganhou 172 mil euros.
Antes de ministro (1994): 9 mil euros
Depois de ministro (2003): 172 mil euros

António Vitorino
Em 1994, quase um ano antes de ser nomeado ministro da Presidência do Governo de António Guterres, António Vitorino ganhava 36 mil euros. Em 1999, depois de ter saído do Executivo para trabalhar no sector privado, declarou 371 mil euros.
Antes de ministro (1994): 36 mil euros
Depois de ministro (1999): 371 mil euros

Outros casos

Fernando Marques Jorge: Renunciou ao mandato pelo PSD em 30 de Abril de 2006
Segundo a Comissão Parlamentar de Ética, substituiu Morais Sarmento no Parlamento em Agosto de 2005, mas em 30 de Abril de 2006 renunciou ao mandato. O ‘CM’ tentou contactá-lo, mas tal não foi possível.

Joel Hasse Ferreira: Renunciou ao mandato pelo PS em 12 de Março de 2005
“Tomei posse num dia e saí no outro e entreguei a declaração [de rendimentos] no Parlamento Europeu”, diz o eurodeputado. “Admito que é capaz de ter faltado alguma coisa. Se faltar o documento, vou tratar disso”, garante.

Luís Braga da Cruz: Renunciou ao mandato pelo PS em 27 de Abril de 2006
Foi substituído em 27 de Abril de 2006 por José Manuel Ribeiro. É docente na Faculdade de Engenharia do Porto. O ‘CM’ tentou contactá-lo de diversas formas, mas não foi possível. Não respondeu ao e-mail enviado.

João Teixeira Lopes: Renunciou ao mandato pelo BE em 27 de Julho de 2006
“Tinha total desconhecimento dessa norma da lei. Na Assembleia da República ninguém me disse nada”, explicou o ex-deputado. “Se é obrigatório por lei, vou já contactar o grupo parlamentar para tratar disso”, disse.

Jorge Moreira da Silva: Renunciou ao mandato pelo PSD em 8 de Janeiro de 2007
“Tratou-se de um esquecimento e não discordo da lei”, assumiu o actual assessor de Cavaco Silva. “Na segunda-feira vou entregá-la”, garantiu.

 

Saiba mais

• 230 É o número total de deputados eleitos para a Assembleia da República. Por mês, cada parlamentar aufere cerca de quatro euros.

• 6222 Euros foi quanto um ministro recebeu por mês no ano passado, já com as despesas de representação incluídas. Em 2007 houve uma actualização salarial de 1,5 por cento.

• Parlamento
O número de deputados no Parlamento tem sido debatido, depois de o PSD ter proposto uma redução para 180 parlamentares. O PS não aceita, alegando que ficaria em causa a representatividade política do País.

• Reforma
Entraram em vigor, na passada quarta-feira, as novas regras do Parlamento, uma reforma conduzida por José Seguro. Uma das alterações é a publicação on-line das faltas dos deputados.

CORREIO DA MANHÃ | 23.09.2007 

 

Comentarios (10)add
... : NMA
Falta referir outros nomes, só como pequenos exemplos, tipo Murteira Nabo, Jorge Lacão e António Mexia. Aliás, o próprio Mário Soares, quanto ganhará agora ao presidir a Comissão da Liberdade Religiosa? E o arguido da Casa Pia, quanto ganhará na Roménia, depois de lá ter sido colocado pelo Estado português??? Já para não falar na choruda indemnização que lhe está reservada na acção que intentou contra o Estado por ter ficado (bem, segundo a vox populli) em prisão preventiva, embora talvez essa esteja à espera do momento em que o STJ seja exclusivamente composto por pessoas (não juízes de carreira) exclusiva e cuidadosamente seleccionados pelo poder político...
25.Setembro.2007
... : Mário Rama da Silva
A politica partidária é, actualmente, um investimento. Quem se portar bem tem sempre um tacho num organismo (político e de políticos) internacional ou vários tachos em grupos empresariais. Nem que seja como consultor de coisa nenhuma para servir como interlocutor com os políticos em exercício... na lista de espera dos tachos.
25.Setembro.2007
... : Vitor Melo
Olha que admiração!!
Achavam o quê, que íam para a politica para aparecerem no telejornal??
Nada disso: muito cansativo para os moços!!
Importa é interrogar-mo-nos acerca da causa/efeito...
...estão a pensar o mesmo que eu??
ah, pois é!!
25.Setembro.2007
... : beirão
Isto hoje em dia é o que está a dar, para que serve um canudo de médico, engenheiro, arquitecto, juiz, professor. O que está mesmo a dar é ser POLITICO.
26.Setembro.2007
... : Ave Rara
E todos da esquerda ... ... liberal, bem pensante... de bagulho cheio... para encher mais!
30.Setembro.2007
... : PORTUGUÊS (INDIGNADO)
UMA VERGONHA ESTA PSEUDO DEMOCRACIA...
DEPOIS QUEIXEM-SE OS "DEMOCRATAS" DO AVANÇO DE IDEIAS DO PASSADO...É O QUE MERECEM....
DEVIAM IR TODOS DENTRO... E MAIS NADA...
QUEM NÃO CUMPRE A LEI É PUNIDO.
BASTA

01.Outubro.2007
... : Nostradamus
Caladinhos, que sempre houve subterrânea promiscuidade entre o poder político e as..."representativas" da "classe".
01.Outubro.2007
... : Observador
O que está a dar $$$ é ser ex-ministro, ex-deputado, ex-qualquer coisa da politiqueira nacional.... smilies/grin.gif
01.Outubro.2007
... : Zé da Fisga
A Política realmente origina muitos sacrifícios!
Coitadinhos dos nossos políticos!
E a qualidade que é preciso ter para se ser político?! Pelo menos a maioria!
A qualificação tem subido tanto, que já faltou mais para termos políticos ao nivel
da qualidade dos manos brasileiros. Quando estiverem ao nivel dos manos brasucas, lá terá que se pagar o mensalão!!!
20.Outubro.2007
... : Zé da Fisga
Pouco falta para o "estado da arte" dos políticos portugueses atingir o nivel do dos nossos manos do Brasil. Para o estudo da "política comparada", apreciem:

CARTA PUBLICADA NO ESTADÃO

Carta-resposta de um Juiz ao Presidente Lula publicada no Estadão .

Veja a carta que um juiz colocou no jornal de hoje :

Carta do Juiz Ruy Coppola (2º TAC)

Mensagem ao presidente!
Estimado presidente, assisti na televisão, anteontem, o trecho de seu discurso criticando o Poder Judiciário e dizendo que V. Exa. e seu amigo Márcio, ministro da Justiça, há muito tempo são favoráveis ao controle externo do Poder Judiciário, não para "meter a mão na decisão do juiz", mas para abrir a "caixa-preta" do Poder.
Vi também V. Exa. falar sobre "duas Justiças" e sobre a influência do dinheiro nas decisões da Justiça. Fiquei abismado, caro presidente, não com a falta de conhecimento de V.Exa., já que coisa diversa não poderia esperar (só pelo fato de que o nobre presidente é leigo), mas com o fato de que o nobre presidente ainda não se tenha dado conta de que não é mais candidato.
Não precisa mais falar como se em palanque estivesse; não precisa mais fazer cara de inconformado, alterando o tom da voz para influir no ânimo da platéia. Afinal, não é sempre que se faz discurso na porta da Volks. Não precisa mais chorar.
O eminente presidente precisa apenas mandar, o que não fez até agora. Não existem duas Justiças, como V. Exa. falou. Existe uma só. Que é cega, mas não é surda e costuma escutar as besteiras que muitos falam sobre ela. Basta ao presidente mandar seu amigo Márcio tomar medidas concretas e efetivas contra o crime organizado. Mandar seus demais ministros exercer os cargos para os quais foram nomeados. Mandar seus líderes partidários fazer menos conchavos e começar a legislar em favor da sociedade.
Afinal, V. Exa. foi eleito para isso.
Sr. presidente, no mesmo canal de televisão, assisti a uma reportagem dando conta de que, em Pernambuco (sua terra natal), crianças que haviam abandonado o lixão, por receberem R$ 25 do Bolsa-Escola, tinham voltado para aquela vida (??) insólita simplesmente porque desde janeiro seu governo não repassou o dinheiro destinado ao Bolsa-Escola. E a Benedita, sr. presidente? Disse ela que ficou sabendo dos fatos apenas no dia da reportagem.
Como se pode ver, Sr. presidente, vou tentar lembrá-lo de algumas coisas simples. Nós, do Poder Judiciário, não temos caixa-preta. Temos leis inconsistentes e brandas (que seu amigo Márcio sempre utilizou para inocentar pessoas acusadas de crimes do colarinho-branco). Temos de conviver com a Fazenda Pública (e o Sr. presidente é responsável por ela, caso não saiba), sendo nossa maior cliente e litigante, na maioria dos casos, de má-fé.
Temos os precatórios que não são pagos.
Temos acidentados que não recebem benefícios em dia (o INSS é de sua responsabilidade, Sr. presidente).
Não temos medo algum de qualquer controle externo, Sr. presidente.
Temos medo, sim, de que pessoas menos avisadas, como V. Exa. mostrou ser, confundam controle externo com atividade jurisdicional (pergunte ao seu amigo Márcio, ele explica o que é).
De qualquer forma, não é bom falar de corda em casa de enforcado.
Evidente que V. Exa. usou da expressão "caixa-preta" não no sentido pejorativo do termo.
Juízes não tomam vinho de R$ 4 mil a garrafa.
Juízes não são agradados com vinhos portugueses raros quando vão a restaurantes.
Juízes, quando fazem churrasco, não mandam vir churrasqueiro de outro Estado.
Mulheres de juízes não possuem condições financeiras para importar cabeleireiros de outras unidades da Federação, apenas p ara fazer uma "escova".
Cachorros de juízes não andam de carro oficial.
Caixa-preta por caixa-preta (no sentido meramente figurativo), sr. presidente, a do Poder Executivo é bem maior do que a nossa.
Meus respeitos a V. Exa. e recomendações ao seu amigo Márcio.

P.S.: Dê lembranças a "Michelle". (Michelle é cachorrinha do presidente que passeia em carro oficial)

Ruy Coppola, juiz do 2.º Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo, São Paulo


22.Outubro.2007
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