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Sob proposta do partido do Governo, os «pais da Pátria» (como se consideram os deputados) aprovaram a contratação de 230 «secretários
particulares». Escândalo! é a palavra que melhor define a alteração ao
Estatuto dos Deputados, aprovada por eles próprios, e que dá o direito a que
cada tenha o seu «secretário/a particular» a ganhar 1.500 €/ mês, além de outras
prebendas como passarem de imediato ao quadro da função pública. Só o CDS-PP
votou contra.
A proposta do PS para a reformado Parlamento, aprovada na
passada semana, veio introduzir mudanças significativas no regimento da
Assembleia. Uma delas diz respeito ao Estatuto dos Deputados - Lei n.° 7/93, de
1 de Março - que, segundo a nova redacção, reforça os meios dos parlamentares, a
sua autonomia individual e aumenta, igualmente, a sua responsabilização. A
alteração não mereceu das diferentes bancadas grandes reparos na sua
globalidade, mas o Art.º 12.° gerou controvérsia ao ponto de, por iniciativa do
CDSPP, ter sido votado à parte. Com efeito, os «populares» contestaram e vieram
a rejeitar - a alínea b) do referido artigo que confere a cada deputado o
direito a dispor de «assistente individual, a recrutar nos termos da lei». Para
os representantes do CDS-PP esta possibilidade não tem qualquer sentido,
especialmente «numa altura em que o País atravessa inúmeras dificuldades
económicas, quando o Governo aprova legislação que facilita o despedimento de
funcionários da administração pública e quando diariamente são pedidos mais e
mais sacrifícios aos portugueses». Mas não valeu de nada a indignação dos
parlamentares da bancada «popular», a maioria votou a favor e o assunto ficou
resolvido.
«Câmara baixa»
Para Hélder Amaral, deputado do CDS-PP, «se
cada um dos 230 deputados vier a solicitar a contratação de um assessor, uma
espécie de "secretário/a particular", iremos assistir à constituição de uma
"Câmara baixa" no Parlamento. Que custará muitos e muitos milhares de euros ao
orçamento da Assembleia, o mesmo é dizer aos contribuintes portugueses». É que
cada assessor contratado não irá ganhar menos de 1.250/1.500 euros
mensais.
Até agora, cada parlamentar dispõe do apoio do secretariado,
assessores e técnicos do seu próprio grupo parlamentar, podendo ainda recorrer à
ajuda dos serviços de apoio técnico do Parlamento, constituído pelos inúmeros
funcionários que fazem parte do quadro da AR e que, como salienta aquele
deputado, «dispõem de condições de trabalho e auferem salários diferentes, para
melhor, que os restantes trabalhadores da administração pública». Aumentar, se
fosse necessário, o quadro de pessoal do Parlamento, «seria uma medida mais
razoável e com menores custos», sublinha Hélder Amaral.
A proposta
socialista, porém, entendeu de forma diferente. Quando o Governo corta nas já
magríssimas pensões dos reformados, nas pensões de velhice, na comparticipação
de medicamentos indispensáveis a milhares e milhares de doentes, aumenta as
taxas moderadoras, despede trabalhadores da administração central e encerra
unidades hospitalares e escolas por todo o País, a medida aprovada com a
cumplicidade corporativista da esmagadora maioria dos deputados é, no mínimo,
escandalosa.Que pensam e dizem os portugueses?
Questão
Como comenta a proposta do PS que dá o direito a cada um dos
230 deputados de ter um assessor individual e que, com a excepção dos,
parlamentares do CR-PP, foi aprovada por todos os outros deputados?
Fernando Dacosta, jornalista - «Satisfação das exigências dos apaniguados do poder»
ESTE exemplo é um pouco fruto da megalomania que, em
circunstâncias propícias, vem ao de cima. Nós, portugueses, somos um pouco
exibicionistas e parece que os deputados se julgam um pouco donos da parte do
País que os elegeu. E querem, para se prestigiar e destacar do cidadão comum,
ter privilégios. Já a existência de tantos deputados é um escândalo, quanto mais
outros tantos assessores. Estão a fechar hospitais, escolas, etc. por todo o
interior do País, enquanto temos 230 deputados na Assembleia da República que,
em muitos casos e muitos deles, não fazem falta nenhuma. Trata-se de uma questão
de «tachos». Quem comanda o poder político do País tem que satisfazer exigências
dos seus apaniguados. É um pouco a velha história de inventar jogos para «boys»
ou «girls». É a prova de que os grandes partidos - que são máquinas tenebrosas e
hipócritas - funcionam em função dos seus interesses e não dos interesses do
País. Daí os níveis de abstenção que as pessoas estão a demonstrar e que são
basicamente um cartão vermelho ao regime e aos seus responsáveis. Este é mais um
processo que os partidos arranjaram para premiar, contentar e pagar os seus
apoiantes e militantes. Mas pergunto: que critérios é que vão ter para contratar
estes assessores?
Certamente que não vão buscar pessoas independentes ou
assessores de qualidade, mas sim apenas por razões de compadrios e compromissos.
Por exemplo, acho que devemos pagar impostos. Mas também devemos exigir
explicação por esses impostos que são pagos. Discordo por completo das
prioridades que o poder actual tem em relação aos gastos dos impostos que cobra
de uma maneira completamente pidesca. Estamos numa ditadura de impostos e de
completo assalto em matéria fiscal. O que se está a passar é que meia dúzia de
pessoas estão a assaltar, em termos legais, -porque têm a polícia e os tribunais
do seu lado - a classe média.
Daqui a pouco não há classe média em Portugal
porque a estão a matá-la, a asfixiá-la e a proletarizá-la. Como pode uma
democracia aguentar-se sem uma classe média? Veja-se que Portugal é já, nesta
altura, o País da União Europeia, onde o fosso entre ricos e pobres é maior.
Numa altura em que se aperta o cinto este tipo de propostas semeia a injustiça
social. Que País e solidariedade social temos? Não existe. Em termos
psicológicos estão a provocar um mal muito profundo ao povo português, que
estava num processo de libertação e, afinal, estamos a retroceder
escandalosamente. Já nem se pode chamar «filho da p...» ao Primeiro-Ministro.
Coisa que no tempo da ditadura não acontecia e, nos cafés, se chamava a Salazar
«filha da p...» e a PIDE já nem ligava importância nenhuma. Porque esta
expressão entre nós não significa nada de ofensivo à mãe da pessoa em causa. É
apenas uma expressão depreciativa mas que não tem um sentido de fundo. E quando
assistimos a situações em que as pessoas não podem emitir a sua opinião porque é
discordante da dos aparelhos partidários, que estão a funcionar como uma
associação de pequenas Uniões Nacionais, é muito triste e preocupante.
Silva Resende, advogado - «Afronta à nossa população e pobreza»
TRATA-SE de mais uma constante e sistemática hipocrisia dos
Governos que é pregarem a toda a gente a restrição e o espírito de sacrifício e
eles, os políticos, e os da sua esfera de acção entregam-se a gastos supérfluos
e a luxos. Não se coíbem de contratar assessores e secretárias e a população
cada vez tem mais dificuldades e é obrigada a apertar o cinto. Tudo isto está na
lógica do sistema político. É muito injusto e uma afronta à nossa população e à
nossa pobreza sem qualquer classificação possível. Nada justifica uma coisa
destas.
José Pinto da Costa, professor e médico-legista -«Escandaloso»
NUMA ocasião em que o País está empenhado em racionalizar os
custos e as despesas não faz muito sentido que todo o País aperte o cinto e que,
no caso particular, se proponha assessores. O que se deverá pedir, ao invés, e
um sacrifício aos senhores deputados para que consigam suprir a falta de um
eventual assessor. Para mim não faz qualquer sentido. Em termos de cidadania é
fundamental que os deputados se sacrifiquem dentro dessa ausência de assessores,
para rentabilizar o melhor possível o seu trabalho. É escandaloso que os
deputados tenham estes privilégios quando nós temos problemas gravíssimos em
termos de saúde, no aspecto económico, na literacia do País, de educação e
habitação. Parece surrealista uma proposta dessas. O sentimento moral da Nação
não deve ser esse.
Carlos Azeredo, general -«Abre ainda mais a porta ao sistema de cunhas e compadrios»
ACHO que esta proposta é escandalosa, sobretudo, num momento em
que o País está a apertar o cinto. Tudo está muito partidarizado, quem é dos
partidos deve achar bem, quem não é - e é a maioria - acha mal. Num tempo em que
se pede sacrifícios a toda a gente, era de esperar que os senhores deputados
também fizessem sacrifícios. A aprovação de uma proposta destas abre ainda mais
a porta ao sistema de cunhas e compadrios.
Bettencourt Picanço, presidente do STE -«Manifestamente excessivo»
É uma situação muito
preocupante, na medida em que a Assembleia da República e os partidos precisam é
de um conjunto de técnicos que os apoie. Os grupos parlamentares têm apoio
institucional do Parlamento, e a verdade é que, nada obsta a que cada grupo
parlamentar tenha um corpo de técnicos. Agora, substituir isso por outros tantos
assessores para cada um dos deputados, parece-me manifestamente excessivo. Os
cidadãos só podem olhar para propostas destas com preocupação, visto que na
prática, há dois discursos: aquele que é para a administração e os serviços
públicos que os servem em geral e, depois, um discurso em concreto para o poder
político, completamente diferente. Enquanto para uns não há admissões de
pessoal, para outros, a contratação aí está para os assessores. Aquilo que cada
grupo parlamentar irá fazer é contratar um determinado número de pessoas da sua
confiança pessoal e nada disso tem a ver com aquilo que é a admissão em qualquer
entidade da AP. É a confiança política e partidária, de cunhas, que comanda.
ANA CLARA | O DIABO
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