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‘Os políticos não querem leis que os possam queimar’. Marques Vidal, juiz e Ex-director da polícia
judiciária, afirma que o poder político sempre quis tirar à PJ a
totalidade da investigação criminal, acabando com a rede de informações
indispensável à resolução de crimes graves como os que estão a
acontecer na noite do Porto e de Lisboa. Sobre o combate à corrupção,
diz que os políticos, do PS ao CDS, passando pelo PSD, não querem fazer
leis que os possam queimar.
Correio da Manhã – O que se passa com a Justiça e a
Judiciária em Portugal? Agora até foi criada uma brigada especial para
os crimes do Porto, a exemplo de outros casos. É um sinal de fraqueza?
Marques
Vidal – Não acho que seja um sinal de fraqueza. É apenas um expediente
para recorrer a uma necessidade. E, no fundo, mostra como a
investigação deve funcionar. Com informações e conjugação de esforços
entre todas as entidades. Porque é importante não só descobrir quem
matou como perceber como funcionam as organizações. Devem, por isso,
estar envolvidos pessoas ligadas à droga, ao crime económico, aos
homicídios, às organizações de malfeitores e por aí adiante. Não pode
ser feita apenas pela secção de homicídios da PJ. Mas eu penso que este
problema da Justiça e das polícias é muito complicado, cujas virtudes e
erros já vêm do passado.
- É uma situação que se arrasta há muitos anos?
- Exactamente.
- E agora houve as reformas do Código Penal e do
Código de Processo Penal e as críticas dos operadores judiciais não se
fizeram esperar. Têm razão?
- Têm inteira razão. Até porque a
consequência disso é uma inoperância maior na área da justiça, estamos
a falar da investigação criminal, e consequentemente o apontar do dedo
aos magistrados e polícias como sendo os culpados, os responsáveis por
tudo isto. É o velho problema do bode expiatório.
- E as polícias? Como é que um antigo director da PJ olha para a situação actual?
-
Como sabe a Polícia Judiciária tinha, até há uns quinze ou vinte anos
atrás, a competência para a investigação de todos os crimes. Desde o
furto de carteiras ao homicídio, passando pelo terrorismo. Qual era a
consequência disso? Como sabe a polícia actua em duas áreas na
investigação criminal: a da prevenção e a da actuação, isto é, da
repressão do crime. A prevenção assenta essencialmente na informação.
Nessa altura, a Judiciária tinha um leque de informação que abrangia
todas as áreas criminais. E muitas vezes de um furto de uma carteira ou
de um automóvel pode chegar-se à solução de enorme burla, de um crime
de homicídio ou até de uma associação de malfeitores.
- Está a dizer-me que nessa altura a Judiciária tinha uma boa rede de informadores?
-
Tinha uma boa rede de informadores e tinha um funcionamento com base
nessa rede de informações que era abrangente ou globalizante, como hoje
se diz. Abrangia todas as áreas criminais.
- Agora já não é assim?
- Politicamente optou-se
por reduzir a Polícia Judiciária apenas a uma actividade destinada à
investigação daquilo a que se chama a criminalidade grave. E passaram
para a PSP e GNR a chamada pequena criminalidade. Isto significou que a
PJ perdeu informação e a PSP e GNR ganharam informação. E a informação
da PSP e GNR não transita para a Judiciária, assim como a da Judiciária
também não transita para as outras organizações policiais. Isto é,
criaram-se vários guetos na investigação criminal. Para ser mais claro,
e usando uma velha expressão, cada polícia tem o seu próprio quintal de
investigação criminal.
- Esses guetos, esses quintais, essa falta de
informação leva a PJ a ficar à nora perante certos crimes, como os da
noite do Porto?
- Vai ver que já lhe respondo a isso. Deixe-me
explicar a minha ideia sobre este problema, embora neste momento
desconheça em pormenor as actividades das polícias. As deficiências
nesta área das informações poderiam ser supridas através da organização
de um sistema de informação criminal, um sistema único a que todas as
polícias tivessem acesso. Há anos que se anda a tratar disso e até hoje
não há aquilo a que se chama uma implantação no terreno de um sistema
de informações criminais.
- E isso acontece porquê?
- Porque os senhores
ministros da Administração Interna, não só este, todos eles, sempre
tiveram que ter a sua parcela de poder com base nas suas polícias. E os
ministros da Justiça sempre tentaram salvaguardar a sua parcela de
poder com base na Judiciária. Como agora, até o senhor ministro da
Economia também quer a sua parcela de poder com a ASAE. Esta é uma
realidade com que nós temos de nos debater.
- Mas criar um sistema de informações criminais não seria simples?
-
Posso dizer-lhe que cada polícia tem o seu sistema informático. Pois,
tanto quanto eu sei, até dentro dos mesmos Ministérios os sistemas
informáticos eram incompatíveis. O SEF tem um, a GNR tem outro, a PSP
tem outro, e se querem comunicar ou transitar informação entre eles não
conseguem. A Polícia Judiciária, por seu lado, também tem outro. Ora
isto chama-se andar a atirar dinheiro ao ar. Ou então, usando uma
expressão popular que eu gosto muito, isto é andar a gozar com o
pagode. As polícias deviam ter uma cabeça única. Como em Espanha.
Independentemente da tutela política não ser a mesma.
- Andam a gozar há muitos anos?
- Há muitos.
Temos o problema da uniformização da informação criminal a que se
chegaria depois consoante os graus e necessidades das várias polícias.
Mas sabe que já no tempo em que eu era director da Judiciária foi
sempre combatida politicamente a ideia da PJ ficar com toda a
investigação criminal. Os políticos não aceitavam que a PJ ficasse com
toda a investigação criminal como até aí. Foram os políticos que sempre
se bateram por dividir a investigação criminal com a PSP e a GNR. E
recordo-me que nas reuniões de direcção nessa altura, o homem que mais
se insurgia contra o sistema era o meu querido amigo Orlando Romano,
que é hoje director nacional da PSP.
- Mudam-se os tempos?
- Claro. Ele na altura como
estava à frente da DCCB, do combate ao banditismo e ao terrorismo,
sabia que era essencial ter toda a informação e que essa informação só
podia fluir se competência da PJ abarcasse toda a criminalidade. Ele
estava dentro da razão. Mas isso não era possível porque os políticos
não queriam de modo algum que a PJ mantivesse o sistema da
exclusividade da investigação criminal.
- O poder político não queria porquê? Para terem vários quintais, para terem mais poder?
-
A ideia era essa. Mas isso pressupunha que a PJ tinha de ampliar os
seus quadros e tinha de abarcar todo o País. Tinha de fazer uma
política de maior proximidade aos problemas. E o ministro da Justiça
não tinha força para impor estas medidas perante os seus colegas e em
especial junto do ministro da Administração Interna. E hoje vemos a
consequência disso tudo. O que há hoje, em relação à ineficácia da
investigação criminal, é um problema de deficiência na recolha de
informação criminal. Há áreas em que as polícias, e estou a falar das
polícias como um todo, perderam terreno, perderam contacto com a
realidade criminal.
- Nomeadamente a Judiciária, não é? Com menos quadros, como menos meios?
-
Por exemplo, nos casos da noite eu suponho que a PSP, que ainda faz uma
acção de proximidade, estará com melhor informação do que a Judiciária.
- Mas não tem falta de meios?
- Eu penso que a
Judiciária, nomeadamente para estes casos da noite, não tem falta de
meios. Tem é falta de informação. Deve ter dificuldade em penetrar
nesses meios. Porque foi um meio abandonado.
- Voltamos à política?
- Claro. A Polícia
Judiciária é um organismo dependente do Governo. O Governo é um
organismo político. A força do Governo reside na maioria que tem na
Assembleia da República. Os políticos que correm a foguetes para
agradar ao povo perguntam sempre o que é que está a dar. E o que é que
está a dar? Corrupção e crime económico. Veja as próprias manchetes da
imprensa. E sobre os homicídios temos a melhor polícia do mundo, no
caso do homicídio individual, sem ligações tenebrosas. Aí a PJ é
bastante eficaz. Por isso é uma área em que não interessa investir. O
que está a dar é a corrupção, é o crime económico, a pedofilia, e aí é
que nós vamos investir. Veja que projecto de lei orgânica da PJ se cria
uma pomposa Direcção Central da Corrupção.
- E há poucos processos de corrupção, não é?
-
Bem, esse é o problema da eficácia da investigação e da eficácia dos
tribunais. E atira-se a culpa para cima dos investigadores, dos
magistrados do Ministério Público e judiciais e ninguém atira a culpa,
apesar de eles berrarem como capados, passe a expressão, para as leis
penais e processuais penais que não lhes permitem fazer melhor. No meu
livro “A Justiça em Crise” afirmo que há duas justiças no nosso País:
há uma justiça para os ricos e há uma justiça para os pobres. Os
Códigos, já os anteriores a esta reforma, permitiam a um advogado
inteligente, dispondo de uma abonada carteira de um cliente, sem fazer
batota, isto é, utilizando apenas o que está na lei do processo, pode
protelá-lo até obter a prescrição.
- Esta reforma penal agravou esse problema?
- É
evidente. Agravou-se agora. No entanto, quando um juiz põe um indivíduo
na rua que foi apanhado por dar um tiro em outra pessoa, mas não em
flagrante delito, dizem logo que a culpa é do juiz. Não senhor. A culpa
é do sistema processual penal. E quem o faz não são os polícias, os
magistrados, os juízes, são os senhores políticos, a Assembleia da
República e o Governo. Esses é que são os verdadeiros responsáveis. Não
falo só deste Governo. Falo de todos os Governos que têm permito que as
coisas chegassem onde chegaram. No aspecto da ineficácia das polícias e
da ineficácia do aparelho e do sistema judiciário.
- Os políticos ficam incólumes?
- Ficam. A
responsabilidade é sempre dos magistrados. As pessoas não conhecem os
códigos, não estão interessadas e nem têm o dever de os conhecer.
- Como é que explica essa actuação dos políticos?
Conheceu vários, de vários partidos. Como é que se explica isso? Como é
que se explicam esses erros sucessivos da classe política?
- Como
sabe, o professor Costa Andrade e outros magistrados apontaram o dedo
às últimas reformas processuais penais justificando-as com o caso Casa
Pia.
- Exactamente.
- Mas o caso Casa Pia não é o
único caso em que estão envolvidos políticos e pessoas de renome na
sociedade. Desde que eu me lembro, vários políticos têm sido apanhados,
e já não falo em presidentes de Câmara. Falo políticos, em deputados,
antigos membros do Governo, etc. Foram apanhados em casos gravíssimos,
como o Freeport, o caso da UGT, da Partex, da Caixa Funchalense.
- Nestes últimos vinte anos?
- De há uns longos
anos para cá, há quase duas décadas para cá, que vários vultos
políticos têm sido incriminados, suspeitos, alguns acusados em crimes
graves, que envolvem pelo menos o abuso do poder em que foram
investidos por vontade do povo. Se formos a ver, há um Bloco Central de
interesses políticos e difusos. Que vai desde o PS, PSD, CDS e se
quisermos, ao fim e ao cabo, é um fenómeno que abrange um largo
espectro partidário. Essa gente, que efectivamente tem o poder, os
políticos não estão interessados em arranjar, em fazer leis em que se
podem queimar. Está tudo dito. Os políticos não querem fazer leis que
os possam queimar.
- Quando fazem as leis já se estão a defender?
- Exactamente.
- Não é apenas o caso Casa Pia.
- Esse é o mais mediático, digamos assim. Mas há
outros. Operações Furacões, por exemplo. Veja que há todo um naipe de
gente grande no nosso País que pode ser envolvida em processos desse
género. Esse grupo, que é difuso e que atravessa todo o espectro
partidário, e que ao fim ao cabo tem o poder e as ligações suficientes
ao poder para fazer leis, não está interessado em fazer leis nas quais
se possam vir a enmalhar como peixinhos inocentes.
- Essas leis são feitas por muitos advogados que são
deputados e pertencem a escritórios importantes de advocacia com
clientes poderosos. Essa promiscuidade não é também muito perigosa?
- Eu já tenho 77 anos e já vi muita coisa. Isso que
está a dizer está a recordar-me o período em que estive na
Procuradoria-Geral da República. Nessa altura, por exemplo, em relação
às obras públicas, havia organismos responsáveis em vários Ministérios.
Faziam os projectos, os estudos, que iam muitas vezes ao Laboratório de
Engenharia Civil, uma estrutura prestigiada, e tudo isso ia sempre ao
Conselho Superior das Obras Públicas. E o ministro ouvia o seu assessor
jurídico, que era um procurador-geral adjunto colocado nos Ministérios
– eu fui das Obras Públicas e da Defesa Nacional -, que lhe dizia que
estava tudo bem ou manifestava dúvidas sobre qualquer aspecto e remetia
o assunto para o Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da
República. Só depois disso o processo era homologado e a obra executada
por uma empresa.
- Agora tudo mudou.
- Agora não. Os pareceres
jurídicos são dados por sociedades de advogados, pagos a peso de ouro,
os projectos e estudos são dados a empresas de engenharia e
consultadoria, pagos a pesos de ouro. Tudo sem concurso público. E,
ainda por cima, vi outro dia que o Conselho Superior das Obras Públicas
foi extinto. Até fiz o seguinte comentário: se o Pinto Monteiro não se
põe a pau qualquer dia também lhe extinguem o Conselho Consultivo da
Procuradoria-Geral da República. As auditorias já as extinguiram.
- Está tudo sob suspeita?
- Sem pôr em dúvida a
honorabilidade de quem pede esses conselhos e os paga, esta situação
levanta pelo menos um clima de suspeição sobre a transparência de todos
esses processos.
- Estava a falar de corrupção. Este novo Código de Processo Penal mata a investigação económica, como tem sido denunciado?
-
O que tem sido dito por vários magistrados, que estão mesmo dentro do
assunto, como as magistradas Maria José Morgado e Cândida Almeida,
parece-se que tem toda a razão de ser, embora esteja de fora. A mim
dá-me a ideia que sim. E a revolta dessas magistradas é legítima. E
tudo isso bate certo. Nós hoje vivemos numa sociedade que está a ser
dominada por um poder político que obedece a interesses financeiros.
- A crise da Justiça. É tudo obra dos políticos, como tem afirmado?
- Continuo a dizê-lo.
- Não há nenhuma vontade política de resolver essa crise?
-
Pois não. E como lhe digo que não é este Governo. É o poder político
que vai do Governo às oposições. Essa é que é a realidade. Há
contribuições de empresas para os aparelhos dos partidos políticos.
Sabemos que os favores são sempre pagos e são pagos de qualquer
maneira. O que é grave é que os cidadãos olham para tudo isto e não
manifestam qualquer interesse. Tanto lhes faz que seja assim ou seja
assado.
- O sistema político está em crise?
- As pessoas
de grande categoria intelectual e moral foram-se afastando. Porque não
estavam para ser enchovalhadas em todo o lado. E entretanto os partidos
começaram a criar as suas máquinas de fazer políticos. E se ainda
aparecem indivíduos com capacidade humana, cultural e moral para
fazerem coisas com cabeça, tronco e membros, a maior parte são uns
arrivistas, medíocres, que não valem nada. A mim, sinceramente, o que
me preocupa é o sistema, o sistema que está por detrás das decisões
políticas.
- Os juízes já fizeram uma greve por questões de
direitos. Não acha que perante a situação da Justiça não estava na
altura de dizerem basta a toda esta confusão?
- As associações
sindicais de juízes, do Ministério Público e da polícia até hoje foram
capazes de fazerem greve quando lhes rataram nos chamados direitos
sociais e económicos. Infelizmente, nunca os vi fazer uma greve, e
deviam fazer, a pugnarem pelo enquadramento legal indispensável a
exercerem as suas funções com dignidade e eficácia. Concorda com a
resposta que está subjacente à sua pergunta.
- É preciso alguém dizer basta?
- Exactamente. Os
juízes já deviam ter dado um murro na mesa, dizer basta, não mexemos em
mais nenhum processo, conjugarem-se com os polícias que também não
mexem em mais nada e assim talvez conseguissem obrigar o Governo a
fazer leis que permitam à polícia dar segurança aos cidadãos e permitam
aos magistrados dar justiça aos cidadãos. Em princípio, sou
absolutamente contrário às greves e reajo às greves de magistrados por
problemas salariais. Agora, por um problema destes estou de acordo.
Porque o que está efectivamente em causa, ao fim e ao cabo, é a
eficiência do funcionamento da própria democracia. Não há democracia
sem segurança e sem uma justiça a tempo e horas.
CORREIO DA MANHÃ | 16.12.2007
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