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30-Jan-2008

ImageDo discurso de Sua Excelência, o Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, na sessão solene de abertura do ano judicial de 2008, que decorreu ontem, 29 de Janeiro de 2008, no Supremo Tribunal de Justiça, destacam-se alguns alertas que, infelizmente, foram omitidos pelos órgãos de comunicação social, a saber:

"Em primeiro lugar, as reformas devem ser compreensíveis pelos cidadãos. Mesmo aqueles que não possuem formação jurídica devem ser capazes de apreender, nas suas linhas fundamentais, o sentido das alterações introduzidas na ordem jurídica do seu país. E, sem prejuízo do necessário rigor técnico, também as decisões judiciais têm de possuir a necessária clareza que as torne perceptíveis para os seus destinatários. Do mesmo modo que a política judicial tem de seguir uma linha de rumo coerente e transparente, a jurisprudência deve ter fundamentos racionais e critérios de justiça material que o cidadão seja capaz de perceber. Legislar com clareza e decidir com responsabilidade são imperativos de cidadania.

Em segundo lugar,
não é possível ter a pretensão de reformar a justiça sem ouvir aqueles que, com um saber de experiência feito, conhecem como ninguém o quotidiano da vida judiciária e todos os dias lidam com milhares de processos nos nossos tribunais. Qualquer lei, por mais perfeita que seja em teoria, não existe em abstracto. Se as leis têm de ser claras e perceptíveis para os cidadãos, mais ainda o devem ser para aqueles que têm a função de as aplicar aos casos concretos. A feitura das leis jamais pode prescindir de uma ponderação realista das condições da sua aplicabilidade. De nada adianta termos leis muito avançadas ou ambiciosas se não dispusermos de meios para as pôr em prática. E só quem pratica o Direito é capaz de dizer se o Direito que se faz é praticável.

Em terceiro lugar, as grandes alterações ao ordenamento jurídico devem ser acompanhadas de um escrutínio permanente dos respectivos resultados. É essencial sabermos que efeitos produziu uma determinada reforma, se teve consequências positivas ou negativas em relação aos fins que se propunha alcançar. É fundamental perceber o que correu bem e o que correu mal, para sermos capazes de avaliar objectivamente aquilo que deve ser corrigido e melhorado. Julgamos com frequência que uma reforma se faz através de uma simples mudança dos textos normativos. Não é verdade. Alterar normas jurídicas pode não ser a parte mais difícil de qualquer reforma. Uma verdadeira reforma faz-se com ponderação e equilíbrio, com sentido de estabilidade e previsão das suas consequências e dos seus custos. As alterações nos nossos códigos e nas nossas leis devem ser sujeitas a uma monitorização contínua dos resultados produzidos e a um esforço de detecção precoce dos problemas. De nada vale fazer reformas se não fizermos um balanço da sua eficácia para o aumento da produtividade e da qualidade do serviço público da justiça. De resto, em relação a todas as grandes reformas, sejam elas nos domínios da justiça, da segurança social, da educação, da saúde ou qualquer outro, seria de toda a vantagem generalizar a prática da criação de pequenos núcleos de acompanhamento da respectiva execução, de modo a que os agentes políticos introduzam as melhorias que a experiência revele serem necessárias."

Comentarios (10)add
... : Bruno P.
Que grande puxão de orelhas que o Presidente da República deu a este Governo e, em matéria de justiça, ao que se diz ministro da mesma. Pena que muitas vezes os seus destinatários façam ouvidos surdos e os órgãos de comunicação social compactuem com executivos ditatoriais na omissão daquilo que os cidadãos precisam de conhecer.
30.Janeiro.2008
... : Aberto Ruço
«...também as decisões judiciais têm de possuir a necessária clareza que as torne perceptíveis para os seus destinatários ».

Todos aceitamos esta afirmação.
O problema é colocá-la em prática.

O tribunal quando decide aplica a lei que existe.
A lei que existe é igual para todos e quando foi pensada e escrita quis tratar todos de forma igual.
Quando se decide sobre o caso concreto não há emoções, jeitos, simpatias, em suma, não estamos a decidir como se estivéssemos na nossa casa ou na nossa empresa.


Os fundamentos das decisões são muitas vezes incompreensíveis para os cidadãos porque o cidadão não tem cultura jurídica para as entender e, por vezes, nem tem sequer abertura mental para isso.
Como dar um curso ( que teria de ser rápido, uns prolegómenos) de direito a um cidadão com a 4.ª classe, 12.º ano; licenciado ou doutor?
Não é possível.


Aliás, a experiência recente de algumas decisões judiciais mostrou que as pessoas nem estão disponíveis para conhecer os factos, que são por natureza simples de entender, quanto mais para perceber as decisões ?

Jamais!

No entanto é de seguir a recomendação do Senhor Presidente da República até onde for possível.

O cidadão tem esse direito.

Mesmo que o juiz depois de cumprir este desiderato fique com a sensação que andou a lançar pérolas a porcos, mesmo assim deve continuar a cumprir o seu dever.


30.Janeiro.2008
... : Anónimo
Omitidos pelos órgãos de comunicação social?? Não disseram outra coisa sobre o discurso do Presidente da República.. Não só sobre as reformas arrogantes, mas já agora sobre a "lentidão" não poder ser uma prática instalada nos tribunais.. Recados para o Governo e Juízes, pelo menos, no CM e no DN! Ora leiam lá com atenção!
30.Janeiro.2008
... : Atento
Uma cultura judiciária de responsabilidade interpela igualmente os agentes políticos e os operadores jurídicos. Não adianta apurar responsabilidades entre quem legisla e quem aplica as leis, prolongar conflitos e tensões que só descredibilizam a justiça e os seus protagonistas aos olhos dos cidadãos. De pouco vale tentar encontrar culpados pelo estado do sistema judicial português. As culpas podem ser de alguns, mas o problema da justiça a todos afecta.


30.Janeiro.2008
... : Conio
Embora tenha votado Cavaco, devo dizer que nunca fui grande entusiasta do actual PR. Mas os últimos tempos têm-se encarregado de me ir afastando o pessimismo do espírito e começo a reconhecer que não dei por mal empregue o meu voto. Sendo juiz, estou aberto às críticas que não deixa de dirigir à classe, mass não há dúvidas, desta vez o dedo foi espetado onde devia ter sido. Obrigado, Sr. Presidente, começa a ser importante que alguém lembre que não se faz política contra as pessoas, quaisquer que sejam ...
30.Janeiro.2008
... : Administrador In Verbis
Anónimo, não ponho em causa que o CM e o DN fizeram referência ao discurso do Senhor Presidente da República.
Porém apenas no artigo do DN foi feita uma referência a uma parte do 2.º alerta, sem o restante contexto, sem prejuízo de outras críticas que foram publicadas e que não dizem respeito a estes parágrafos. Fica, no entanto, essa ressalva.
.
30.Janeiro.2008
... : Administrador In Verbis
Artigo publicado no DN, de 30.01.2008

Cavaco Silva desferiu duras críticas à política de justiça do Governo na abertura do ano judicial, cuja cerimónia decorreu ontem no Supremo Tribunal de Justiça. "Não é possível ter a pretensão de reformar a justiça sem ouvir aqueles que, com um saber de experiência feito, conhecem como ninguém o quotidiano da vida judiciária e todos os dias lidam com milhares de processos nos nossos tribunais." Este foi um dos vários recados que o Presidente da República lançou ao ministro da Justiça, tendo em conta que a falta de diálogo entre Governo e agentes da Justiça tem sido uma das principais críticas feitas por estes a Alberto Costa. E Cavaco voltou mais tarde a lançar igual aviso ao afirmar que "só quem pratica o Direito é capaz de dizer se o Direito que se faz é praticável".

O Presidente prosseguiu nas críticas. "A celeridade não é um valor absoluto, mas a lentidão não pode ser uma prática instalada", avisou, mantendo o tom: "Não é tolerável que o desfecho de alguns processos se arraste durante anos nos tribunais portugueses." Esta é já a segunda vez, em menos de um mês, que o Chefe de Estado se desliga da habitual diplomacia para com o Governo e aponta os erros do Executivo. Depois de, na mensagem de Ano Novo, ter exigido resultados na justiça, o mote do discurso volta a ser esse: o da exigência.

"Os portugueses confiam a justiça? Aos olhos dos cidadãos, o nosso aparelho judiciário é eficiente? O nosso povo considera que a justiça que temos é verdadeiramente justa e igual para todos?" São estas as questões que o Presidente gostava de ver respondidas. E, para Cavaco, é esta linha que o Governo deve seguir na escolha das reformas legislativas.

Cavaco manteve o tom elogioso à magistratura ao fazer uma saudação especial a essa classe, prestando homenagem "à dedicação dos magistrados e ao esforço que têm feito para tentar resolver em tempo útil os milhares de processos que todos os anos afluem aos tribunais".

No final da intervenção, Cavaco Silva foi incisivo: "Uma cultura judiciária interpela os agentes políticos e os operadores judiciários" e apela a que deixe de lado os "conflitos e tensões entre quem legisla e quem aplica as leis", ou seja, Governo e magistrados. E fez questão de deixar um aviso: " O Estado de direito não pode ser refém daqueles que dispõem de maiores recursos." [...]

30.Janeiro.2008
... : cgf
Começo este comentário por mudar a pontuação de uma afirmação do PR, que talvez seja um dos pontos importantes para uma solução dos problemas da justiça: "quem pratica o Direito"?
Serão os Advogados das grandes sociedades de Lisboa e Porto, que rarmente se vêem na barra?
Serão os Conselheiros ou Desembargadores que não ouvem os lamentos das vitimas ou dos pequenos empresários que tentam deseperadamente cobrar uma divida?
Serão os assessores do Mistro da Justiça ou do Primeiro Ministro, que saem directamente das faculdades para uma carreira política?
31.Janeiro.2008
... : Barracuda
Ainda que o Senhor Presidente da República tenha abordado questões teoricamente incontestáveis, na prática está a dizer a um coxo que bata recordes de corrida a pé entre atletas capazes. Nós temos muitos atavismos, desde a cultura do quero posso e mando até ao falar caro para parecer convincente, que nos impedem de sermos simples e completos.
Parece-me elementar que a Justiça para ser legítima tem de ser aceite e para tanto ser compreensível pelos seus destinatários. Isto não significa que se use uma linguagem inadequada face aos conceitos em causa mas que se analisem as situações em conflito omitindo toda a terminologia de iniciados que não é necessária para a segurança jurídica. É efectivamente necessário que se saiba do que se trata em termos técnicos sem o que de nada valerá o decidido em termos jurisprudenciais. Difícil o equilíbrio. Sim mas há quem se aproxime mais desse objectivo e quem faça gala de isoterismo. Coube-me ler muita decisão judicial de vários países europeus e algumas dos USA. Nunca vi nada de mais rebuscado no inútil que o pretensiosa erudição dos nossos doutos arestos. Saliento, pela sua clareza, simplicidade e precisão, de entre as que li, as alemâs, inglesas, nerlandesas e americanas e isto neda tem a ver com o conhecimento maior ou menor das línguas respectivas. Há traduções em português. Ali se diz o que importa para o caso e de forma que um mínimo de instrução permite entender satisfatoriamente. Penso que é isso o que se pede.
31.Janeiro.2008
... : Observador
O comentário de Barracuda é muito pertinente.
O Presidente da Repúbica também criticou uma certa cultura de (re)produzir decisões judiciais. Deveria ser este o aspecto que mais interessava aos Juizes, pois em boa verdade é o único que podem corrigir (não podem corrigir os erros dos outros,como é óbvio).
A qualidade da fundamentação jurídica radica na sua racionalidade, ou seja, na sua compreensibilidade por todos os que quiserem ter o trabalho de a ler. Este esforço de construção de uma argumetação objectiva, clara e simples não existe entre nós, onde se cultiva exagradaemnte o "copy paste" com a agravante "pirosa" de citar os nomes dos relatores, adjuntos e até procuradores que intervieram no processo.

02.Fevereiro.2008
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