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Artigo de Dr. António Martins, Presidente da DN da ASJP: «Na sequência do caso de violência no salão de bombeiros de Santa Maria
da Feira (improvisado em sala de audiências pelo Governo), houve
atitudes que não podem deixar de ser vistas como uma afronta ao poder
judicial. (...)»
«A base da sociedade é a justiça.
O julgamento constitui a ordem da sociedade.
Ora, o julgamento é a aplicação da justiça.»
Aristóteles, 384-322 A. C.
NA sequência do caso de violência no salão de
bombeiros de Santa Maria da Feira (improvisado em sala de audiências
pelo Governo), houve atitudes que não podem deixar de ser vistas como
uma afronta ao poder judicial.
A começar por aqueles que, não podendo deixar de admitir o óbvio, a
gravidade dos factos, logo os procuraram reduzir a «mero incidente»
enfim…, nada de especial, comparado com outros países por esse mundo
fora. Atitude própria de quem está sempre satisfeito com a
deslegitimação do poder judicial. Até porque telhados de vidro há por
aí muitos e, quanto mais deslegitimado estiver o poder judicial, menos
os outros poderes poderão ser controlados.
Outra atitude foi uma
mistura de ignorância e maldade. Estes reconduziram a questão à
segurança dos juízes e, assim sendo, o problema é deles. Eles que o
resolvam. Esquecem-se estes que, enquanto simples cidadãos que
pretendam ver reconhecidos os seus direitos, ou testemunhas, também
podem ser vítimas desta violência nos tribunais.
Exemplo recente é o
caso duma senhora que, na sequência de tentativa de conciliação em
processo de divórcio, num tribunal, foi atacada pelo marido com uma
faca, acabando por ficar cega de um olho.
Atitude mais grave foi a de
alguns que pretenderam lançar o odioso do problema e da consequência -
suspensão da realização de julgamentos enquanto não houver condições de
dignidade e segurança em Santa Maria da Feira para os juízes. Os juízes
que tivessem requisitado força policial suficiente e que a requisitem
no futuro, mas devem continuar a fazer os julgamentos, seja no salão
dos bombeiros ou em qualquer vão de escada. Até porque, para estes,
fazer os julgamentos nestes locais, ou na sala de audiências, é
indiferente para potenciar a violência e a dignidade do acto de
julgamento pouco ou nada importa. Um ou outro, qual guerrilheiro da
AL-Quaeda ou aprendiz de feiticeiro, conseguiu a proeza de somar todas
aquelas atitudes. Sem ter a mínima noção de que quem semeia ventos
colhe tempestades.
Consequência típica destas atitudes incendiárias foi
o à vontade com que alguns dias antes, num outro tribunal, dois
arguidos tinham invectivado uma Exma. Advogada, dando-se ao desplante
de a questionar (não foi concerteza conversa amigável) sobre a
estratégia de defesa adoptada em relação ao seu constituinte, um
co-arguido que estava a ser julgado no mesmo processo daqueles.
Para os
autores destas atitudes pouco parece valer o facto de os interesses dos
cidadãos só poderem ser devidamente acautelados se os tribunais tiverem
condições adequadas para o exercício de um dos poderes soberanos do
Estado, o de administrar justiça.
Não será de esperar outra coisa de
quem não tem tido palavras nem acção em relação ao facto de uma grande
parte dos tribunais portugueses não cumprirem a legislação que impõe
determinados requisitos aos edifícios públicos para a acessibilidade
dos cidadãos com mobilidade limitada, como a ASJP denunciou em
relatório que elaborou em Abril de 2007 (acessível em www.asjp.pt). Com
a consequência, inadmissível, de se ouvirem testemunhas na rua ou,
nalguns Tribunais de Trabalho, se transportarem sinistrados de
acidentes de trabalho ao colo, para poderem ser sujeitos a exame médico.
Mas, valha a verdade, que quanto à violência em Santa Maria da Feira
também houve posições muito correctas e que prestigiam e dignificam quem
as tomou. Refiro-me, desde logo, ao Presidente e Vice-Presidente do
CSM, que manifestaram solidariedade e apoio aos juízes de Santa Maria
da Feira. Da maior relevância, também, até por ser representativa dos
advogados de Santa Maria da Feira, foi a posição do Conselho Distrital
do Porto da Ordem dos Advogados, de concordância e apoio à posição
daqueles juízes.
Esperemos que aqueles primeiros tenham aprendido com
estes e que percebam o que está em causa. Porque o que está em causa é
mesmo o pensamento aristotélico que encima este artigo. Sem julgamento
não há ordem na sociedade e não há aplicação da justiça. E sem justiça
cai a base da sociedade.
ANTÓNIO MARTINS | O DIABO | 01.07.2008
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