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O reduzido investimento em tecnologias e a escassa aposta na
formação económica dos juizes, explica a ineficiência da justiça. "Os tribunais ainda têm uma gestão quase artesanal", investe-se
pouco em tecnologias e na formação dos juízes. A opinião é de Luís Mira Amaral,
líder do Fórum para a Competitividade, que realiza hoje, em Lisboa, um seminário
sobre "O sistema de justiça e a competitividade da economia portuguesa".
Qual o impacto que o deficiente funcionamento da justiça tem na
economia portuguesa?
Acho que é difícil medi-lo e não me consigo pronunciar
nesses termos. O que posso dizer é que, qualitativamente, o impacto é
elevado.
Que influência tem nas decisões?
Por vezes, escolhe-se um
negócio em detrimento de outro. E esta situação incentiva a economia paralela,
na medida em que os empresários tendem a fugir ao sistema para resolver os seus
problemas.
Que sinais existem dessa situação?
Isto fica evidente quando
se verifica uma proliferação, à margem dos tribunais, de acordos para resolver
conflitos. As empresas preferem uma solução razoável, que demore um ou dois
anos, do que uma solução óptima que demore dez anos e que acabaria por gerar
custos terríveis pela excessiva demora.
É a morosidade que está em causa ou a própria credibilidade dos
tribunais?
Penso que os empresários e gestores não desconfiam da
credibilidade ou da qualidade das decisões que são tomadas. Simplesmente, os
custos da espera por uma boa decisão são mais elevados que os que resultam de um
acordo menos justo para as suas pretensões, mas mais rápido.
Do seu ponto de vista, o que motiva a lentidão nas decisões
judiciais?
Os tribunais ainda têm uma gestão quase artesanal. Em Portugal,
estamos a gastar mais em justiça por milhão de habitantes do que os países mais
desenvolvidos da Europa. Tal como sucede na saúde e na educação, o problema não
é de falta de dinheiro, mas de eficácia na utilização dos recursos. Temos um
número de juízes por milhão de habitantes mais baixo do que sucede na Alemanha e
na Finlândia, um número de juízes por tribunal também mais baixo, mas temos um
número de funcionários por juiz que é superior à média europeia. Também gastamos
muito pouco em tecnologias de informação por milhão de habitantes. Na Holanda,
por exemplo, gastaram-se 27,2 milhões de euros em 2002 em tecnologias na justiça
e em Portugal gastou-se apenas 0,3 milhões de euros. Como damos pouca formação
aos juízes, não investimos em tecnologia e temos muitos funcionários, isto
resulta num excesso de procedimentos administrativos que é reflectido numa carga
burocrática protagonizada por gente com pouca qualificação para gerir cada
processo.
O Governo tem ignorado a "justiça económica"?
Sinto, da
parte do actual Governo, naquilo que é a desburocratização e a simplificação
administrativa, uma contribuição marginal para a melhoria do funcionamento do
sistema. Mas a grande questão é que o "pacto da justiça", assinado entre o PS e
o PSD, se preocupou mais com a justiça mediática, a área penal, do que com a
justiça económica. É preciso actuar em quatro pontos: simplificação e
estabilização do processo legislativo, simplificação legislativa, melhoria da
qualidade das leis e melhoria da gestão dos processos nos tribunais.
Infelizmente, o "pacto da justiça" não tratou de nada disto. Já passei pelo
Governo e conheço o filme. Temos tendência para reagir aos problemas colocados
pela comunicação social que, nos tempos mais recentes, colocou à vista a
ineficiência da justiça penal. A classe política também tem poucos gestores e é
natural que haja uma predisposição maior para a área penal do que para a área
económica.
Defende os tribunais especializados?
A percentagem de juízes
sujeitos a acções de formação, anualmente, é de 12% em Portugal, enquanto na
Finlândia é de 93 %. Isto mostra que há um esforço muito grande a fazer neste
aspecto específico. O que sinto é que os juízes têm dificuldades por falta de
formação económica e eu não vejo os tribunais comuns com competência para
tratar, por exemplo, de matérias como falências. Outra área que vejo com
preocupação é a do recurso das decisões dos reguladores. Estes produzem decisões
com base no parecer de bons especialistas. Depois, pode vir um tribunal colocar
em causa uma decisão, sem que tenha à sua disposição a mesma competência
técnica. Nestes casos, deviam existir tribunais mais especializados para poderem
decidir sobre processos com grande complexidade técnica. Choca-me que um juiz
generalista vá decidir contra um regulador, isto sem prejuízo do direito de
recorrer aos tribunais para avaliar decisões com que as empresas não
concordam.
IN JORNAL DE NEGÓCIOS | 21.06.2007
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