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Tribunais a arder ? criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
29-Jun-2008
É um retrato pavoroso do sistema judicial e a prova indisfarçável de que a Justiça bateu no fundo. Se um juiz é espancado nos tribunais, o que é que falta acontecer? Nada. Os tribunais são órgãos de soberania. Que dignidade existe se funcionam no quartel dos Bombeiros Voluntários? "Ó senhor ministro da Justiça, o senhor está a dormir. Acorde, por favor. O País pode cair de ridículo".


Toda a gente sabe que esta semana dois juízes foram agredidos em pleno tribunal, no momento da leitura da sentença, pelos arguidos de um processo de tráfico de droga.

Toda a gente sabe que o tribunal funcionava provisoriamente no quartel dos Bombeiros Voluntários de Vila da Feira porque o edifício do tribunal estava prestes a ruir.

O que é espantoso é que ninguém saiba que juízes agredidos em tribunal pelos arguidos que estão a ser julgados significa o fim da linha.

É um retrato pavoroso do sistema judicial e a prova indisfarçável de que a Justiça bateu no fundo.

Não adianta pintar com cores brandas o que aconteceu. É um epifenómeno, a ponta do icebergue, mas que mostra à sociedade um cortejo de enormidades que assustam o mais comedido cidadão.

Se um juiz é espancado nos tribunais, o que é que falta acontecer? Nada. Os tribunais são órgãos de soberania. Que dignidade existe se funcionam no quartel dos Bombeiros Voluntários?

Por puro pragmatismo, alguém decidiu que um tribunal não precisa de lugar próprio para funcionar e de outras formalidades e rituais que historicamente legitimam o exercício da Justiça. Ou seja, um tribunal pode então funcionar num café, numa mercearia, numa agência funerária, numa discoteca, num mercado ou no quartel dos bombeiros.

Entre um e outro fogo, por entre as sirenes estridentes dos bombeiros, os juízes despacham processos, lêem sentenças, ouvem testemunhas. Eu sei lá!

Isto dava um grande filme. Estou mesmo a ver. Os juízes com os capacetes dos bombeiros para aguentarem bem qualquer paulada. Os advogados das partes enroscados nas mangueiras de água, as testemunhas sentadas nos carros que apagam os fogos e os réus no cimo das escadas magirus à espera da sorte que lhes coube. Precisamos de Fellini para este filme trágico-cómico.

Ó senhor ministro da Justiça, o senhor está a dormir. Acorde, por favor. O País pode cair de ridículo. Faça qualquer coisa.

Sem Justiça o País não funciona, as empresas estrangeiras não se instalam. A economia não floresce. Sem Justiça célere, sem juízes preparados para o acto nobre de julgar, sem instalações dignas, a Justiça esfuma-se.

Faça qualquer coisa, senhor ministro.

EMÍDIO RANGEL, JORNALISTA | CORREIO DA MANHÃ | 28.06.2008

Comentarios (14)add
... : Tony
Excelente texto.
Não resisto, contudo a transcrever, as opiniões que constavam na caixa de comentários a esse artigo do Correio da Manhã:

28 Junho 2008 - 11h46 | José Vila Nova - Castanheira
Isto é muito grave, mas que dizer do investimento (?) que vai ser feito em novas prisões, para que os presos tenham todo o conforto necessário? Que maravilha! Dar porrada nos juízes e ir para o conforto ...

28 Junho 2008 - 15h08 | Luisa Baião
"sr ministro faça alguma coisa".Fazer o quê? Para fazer é preciso saber.E esta gente que nos (des)governa sabem o quê? aposto , com quem quizer que, nem vergonha sentem ,nem se apercebem do ridiculo em que cairam.

28 Junho 2008 - 18h29 | José Timão-Açores
Os Senhores Juízes e os demais fautores da Justiça são objecto das mais abjectas desconsiderações, alicerçadas nas Leis "à passa-piolho" que eles não fizeram mas que têm a rigorosa obrigação de aplicar. Portugal não é um "Paris está a arder?" e por isso era bom que, duma vez por todas, houvesse por aí alguém com o saber e a coragem de nos dizer, claramente, por que "arde" a Justiça em Portugal.
29.Junho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Cuidado com as colagens aos jornalistas. Quem vos avisa vosso amigo é. Hoje estão com os juízes de 1ª instância, amanhã estão contra os juízes de 1ª instância. Os jornalistas nada sabem de especial, só por ouvir dizer... Olhem as emoções.
29.Junho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Hoje estão contra o bastonário, amanhã estão a favor do bastonário. É assim que a imprensa funciona.
29.Junho.2008
... : Observador
Não posso estar mais de acordo com o Hi-Hi-no-Havai.

A maior rede de tráfico de influências que existe é a que permanentemente, de acordo com o sabor das conveniências, é montada pela comunicação social... São impiedosos, tenham ou não razão no que veiculam, o único objectivo é venderem papel ou terem mais um pontinho percentual nas audiências.
29.Junho.2008
... : sargento ajudante Morais
Que tudo isto leve também os srs juizes a reflectirem sobre quão errado tem sido estarem permanentemente a assestarem baterias contra o MP, os advogados, os oficiais de justiça e os polícias. E por aqui tem havido bons elemmntos nese tiro ao alvo. Leiam Ferreira Fernandes e Nuno Brederode dos Santos em Câmar Corporativa e ...pensem.
29.Junho.2008
... : Um Juiz Que Não Será Presidente
Concordo com Hi-Hi-no-Havai e Observador. Porém, isto não retira que se conclua o óbvio: o texto é realista, pelo que merece cocnordância. Noutras circunstâncias dir-se-á o que se tiver que dizer.
30.Junho.2008
... : Ver os dois lados
Este artigo também é muito bom
Os juízes do Tribunal da Feira decidiram suspender os julgamentos. Decidiram fazer exactamente o contrário do que deviam. Depois de dois juízes terem sido agredidos, deviam querer julgar mais, não menos e mais tarde. Porque há, pelo menos, um julgamento que urge: o dos dois tipos que agrediram os juízes. Suspender julgamentos porque os criminosos abusaram equivale a remeter a justiça portuguesa para a Guerra de Solnado: "Sargento, fiz um prisioneiro!" - "Onde é que ele está?" - "Não quis vir." A justiça que tanto sabe e pratica símbolos - ele é togas, ele é vendas nos olhos, balanças e espadas - devia saber que sinais está a passar: a malta dá- -lhes umas lamparinas e eles fecham a loja... Mas que órgão de soberania (tanto ano de latim devia ter-lhe ensinado: quer dizer, de mando, de poder, de autoridade) é este que se encolhe quando ofendido? A hora é sobre este assunto (tão grande e tão grave): dois juízes foram agredidos no tribunal. E mais nada.|

Ferreira Fernandes
30.Junho.2008
... : Marinho Pinto
Bem sei que não me falam, mas vai uma aposta que os tirinhos no barracão do pinto de sousa foram encomendados só para desviar a atenção da porrada nos tribunais? smilies/grin.gif
30.Junho.2008
... : cgf
A Justiça bateu no principio do fundo.
E volto a afirmar o que já tinha dito anteriormente neste espaço.
Juízes, Advogados, Procuradores, Funcionários Judiciais, uni-vos.
A luta é feroz e perde-la não é opção, nem para nós, nem para o país.
A Justiça tem que deixar de ser o parente pobre do Estado.
30.Junho.2008
... : laraLi
´
boa, marinho pinto!
Até se diz algo de interesse.
30.Junho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Boa Marinho Pinto??!! LaraLi dever ser daquelas que têm a bandeira nacional à varanda e gritam: "Biba Portugali!"
30.Junho.2008
... : laraLi
hi havai: n leu bem.
O que se apoia é a tese conspiratória.
Um atirador do PS construiu um facto noticioso...dois dedos acima, está o suporte da comunicação...dois dedos...
30.Junho.2008
... : Marinho Pinto
Hi-hi e Larali: sejam amigos! Não vale a pena pegarem-se. Vá, respira fundo...
01.Julho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Não acho bem que o comentador Marinho Pinto use um nick que se pode confundir com o nome do bastonário da OA, ou que tente de algum modo fazer-se passar por outra pessoa, pessoa essa que está, porque faz parte do mundo judicial juntamente com outros protagonistas, em permanente análise (e bem) nesta Revista. Para mim é mesmo coisa de mau gosto usar o nome de outro de forma a trocar identidades e criar confusão nos comentadores. E não sei se não será ilegal...
01.Julho.2008
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