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30-Jun-2008
As agressões aconteceram num tribunal. E também é um acontecimento. O tribunal está instalado num quartel de bombeiros. Sendo um órgão de soberania como outro qualquer, é a mesma coisa (...) que o Governo reunir-se habitualmente numa cavalariça. O espaço do tribunal não é o mesmo espaço do cadafalso. Há muitos anos que o poder político deixou de investir na dignidade do poder judicial. Os juízes quando se instalam no frontispício de uma sala não estão a agir em nome individual nem em nome da sua classe. É em nome do povo que executam os actos da Justiça.

Dois magistrados foram objecto de agressões por parte de dois arguidos condenados no Tribunal de Santa Maria da Feira. Levantou-se um incêndio de paixões que o ministro da Justiça quis rapidamente apagar com palavras serenas. Apagar é o termo certo. O tribunal funciona no quartel dos bombeiros.

É verdade que é apenas um incidente. Não existe na nossa história criminal um lastro de atentados e assassinatos de procuradores e juízes. Mas também é um acidente. As agressões aconteceram num tribunal. E também é um acontecimento. O tribunal está instalado num quartel de bombeiros. Sendo um órgão de soberania como outro qualquer, é a mesma coisa do que um executivo camarário reunir-se regularmente numa esplanada de praia ou o Governo reunir-se habitualmente numa cavalariça.

Na verdade, os ritos simbólicos que investem de sacralidade cívica o exercício do poder perdem sentido e significado quando estão fora do espaço que os legitima. O espaço do tribunal não é o mesmo espaço do cadafalso. Não admira pois a reacção do presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Solidarizou-se com os colegas, não alinhando no discurso desculpabilizador da situação. Poderia o ministro ter dado outra explicação.

Há muitos anos que o poder político deixou de investir na dignidade do poder judicial. Os tribunais, na sua maioria, estão desactualizados, sem normas de segurança e condições de trabalho. Conta-se pelos dedos as novas edificações dos últimos vinte anos. E bem podia argumentar que as reformas em curso, quer no plano dos estabelecimentos prisionais quer nos tribunais, podem ser a solução para esta vergonha nacional.

Os juízes quando se instalam no frontispício de uma sala não estão a agir em nome individual nem em nome da sua classe. É em nome do povo que executam os actos da Justiça. Ao povo foi expropriado o direito ao exercício da violência privada. Foi adjudicada em nome do poder tripartido, em nome do Estado para daí resultar uma função punitiva regida pela exemplaridade cívica. O espectáculo cénico é solene. Os rituais iniciáticos.

Não se decreta uma sentença ou um acórdão à mesa de um café. E torna-se obscena a decisão rodeada de viaturas de bombeiros. Não é surpreendente que tal situação seja a degradação pública da própria ideia de Justiça. Banalizada a função, não espanta que os juízes sejam agredidos. É o regresso às velhas justiças privadas. À idade do ferro com que se morre e com que se mata.

FRANCISCO MOITA FLORES | 29.06.2008

Comentarios (10)add
... : Tribunais novos
Afirma Moita Flores que há mais de 20 anos quase não se constroem novos edifícios para os Tribunais. É certo, mas falta afirmar que os que neste período foram construídos foram só para calar autarcas e/ou com graves defeitos de construção.
Exemplos: Matosinhos, que esteve no "papel" anos e anos a fio.
Braga: inaugurado em 1995 (se não me engano) ,em 2002 já tinha fissuras e chovia nas salas de audiência.
Santa Maria da Feira: é o que se está a ver.
Outros, mais antigos, são autênticas armadilhas para quem lá vai. E o "povo" esquece-se que também frequenta os Tribunais, parece que só os magistrados, os funcionários e os senhores advogados o fazem...
Santa Cruz, Madeira: telhado em ruínas, tecto caiu no gabinete da Juíza.
E por aí fora.
30.Junho.2008
... : Gajo atento a mandar "bitaites"
Desde que começou a "opinar" sobre o Processo Casa Pia deixei de me identificar com as posições de Francisco Moita Flores, mas deste texto gostei. smilies/cheesy.gif
30.Junho.2008
... : Hi-Hi-no-Havai
Moita Flores não é propriamente um bom escritor (e quem está por dentro das coisas sabe que é assim - e ele mesmo tem consciência disso - e não vale a pena rodear a questão, o homem tem frases de bradar aos céus e outras que são duma banalidade confrangedora) mas é um autor de artigos para jornais e revistas excelente e este é um deles. Moita Flores pode não escrever como os bons escritores, pode também não saber muito de Direito, ou não tanto como julga, mas pensa muito bem e pela sua cabeça.
30.Junho.2008
... : A.Silva
Tem toda a razão os Srs.Juízes,tanto os de Sta.Maria da Feira como aqueles que já passaram por situações semelhantes.Contudo em certa medida discordo que seja só o Governo o responsável pelas atitudes dos reús.Quando a comunicação social discute com enorme desrespeito as decisões dos tribunais(com a ajuda infelizmente de alguns juízes e do imprescindivel Marinho Pinto que quer ter o ordenado igual ao do Presidente do Supremo Tribunal) como se os julgamentos devessem ser feitos nos estúdios das televisões em directo a mensagem que passa para os reús é de que eles também podem não aceitar as sentenças e proceder de acordo com aquilo que lhes apetece.Quem não se lembra das imagens de amontoados de pessoas ás portas dos tribunais para insultar quem muito bem lhe apetece,as televisões passam-nas as vezes necessárias para captar as audienças sem qualquer sentido ético.É esta a selva em que vivemos,alunos que batem nos professores,presos que batem e insultam os policias,reús que insultam e batem nos Juízes,e agora até atiradores furtivos fazem alvo num pavilhão onde decorre um jantar de militantes de um partido politico.Não sou adepta de qualquer deriva securitária,mas temos todos que refletir como vamos resolver esta crise de desrespeito progressivo a que estamos a assistir
30.Junho.2008
... : jurista portugues
Óh Moita Flores! Óh Moita Flores! As tuas expectativas são demasiado altas!!!!
-Não é um incidente.
É como diz Sua Excelência o Sr. Ministro da Justiça:
-uma incidência!
-E estatisticamente lá fora é pior! (sic!!!!!!!!!!!!!!!!!!)
Percebeste? Eu percebi.
Cabeça escondida, estatística para fora.
-E o arquétipo estatistico terá por acaso nome?
Chamar-se-à República das Bananas?
Mas não te aborreças que vais ter o TGV, o aeroporto e mais vias rápidas.
É uma grande conquista para os filhos, netos, bisnetos e gerações futuras, que certamente tirarão partido destas grandes obras.
Assim se não lhes faltar engenho e arte, podem ir embora deste sítio, mais rápidamente e deixá-los a falar grandiloquentemente por interjeições... aos animaizinhos do jardim zoológico, que fazem hummm, zurrando de compreensão.!!!
30.Junho.2008
... : Hegel Lusitano
O texto de Moita Flores é certeiro, objectivo e fundamentado.
Só peca num ponto. As autarquias locais não são órgãos de soberania. Os órgãos de soberania em Portugal são o Presidente da República, a Assembleia da República, o Governo e os Tribunais.
Nem as Regiões Autónomas nem as Autarquias Locais são órgãos de soberania, mas sim órgãos de administração descentralizada, ainda que com previsão constitucional.
30.Junho.2008
... : Estado de Citius
Não se esqueçam que o Prof. Dr. Moita Flores é da oposição e tem ambições governativas.
Hoje em dia é fácil criticar o governo em geral e a justiça em particular.
Lembram-se dele na altura do processo casa pia?
30.Junho.2008
... : Justo
O estado de Citius não analisa ou discute a notíca. Limita-se a alertar a navegação que o Sr Moita Flores "é da oposição". A que oposição se refere?À do Estado de Direito? Era melhor não dar estas notícias, não era? Nada distingue este "suchialista" do anterior corporativista salazarento.
30.Junho.2008
... : Alberto Ruço
A subtracção dos símbolos da República.

Ocorreu-me agora algo que já se passou há uns bons anos e que na altura achei estranho, não percebi e continuo a não perceber a sua razão de ser, e que consistiu em terem sido retirados os símbolos da República das folhas dos processos em que o juiz escrevia os despachos e as sentenças.

01.Julho.2008
... : Estado de Citius
Justo, eu não discuti ou analisei o comentário (e não notícia, como você qualifica), porque concordo, no essencial, com o mesmo, o que aliás não seria difícil, face ao seu tom politicamente correcto.
Limitei-me a tentar relativizar a "autoridade" do comentador, bem como a questionar a motivação do mesmo. Convém não ser ingénuo, nos tempos que correm.
Tudo, claro, se você não se importar...
01.Julho.2008
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