header image
Início seta Artigos de Opinião seta Sobre os discursos do Ano Judicial 2008
Sobre os discursos do Ano Judicial 2008 criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
06-Fev-2008
Crónica Juízos e Prejuízos, Juiz Conselheiro Dr. José Rodrigues da Silva, n'O Primeiro de Janeiro: 
«Estive no Supremo Tribunal de Justiça na sessão de abertura do ano judicial. Comecei por ouvir o novo Bastonário da Ordem dos Advogados, homem generoso, um tudo nada truculento, que disse verdades que por vezes são silenciadas. O pior é que disse mal de tudo. Ora, quem diz mal de tudo e não apresenta soluções, arrisca-se a não contribuir para o progresso da justiça nem para a satisfação das aspirações dos que representa. Com o tempo, desde que não seja discriminado, coisa que eu não farei, o Dr. Marinho Pinto irá assentando. É a minha esperança.

O Procurador Geral da República, que fez o balanço da actividade do Ministério Público – ainda não percebi porque razão M. P. se escreve com maiúsculas e juiz com minúsculas – deixou-nos nos a garantia de que nada ficará por investigar. É homem para cumprir. Conheço-o.

O Ministro da Justiça, que fez o balanço das reformas empreendidas no âmbito do seu Ministério, mostrou que tem trabalhado. Espera-se que a quantidade não prejudique a qualidade e que a celeridade não venha a prejudicar quer justiça quer a segurança dos cidadãos.

O Presidente do Supremo, numa intervenção muito equilibrada, alertou para a disjunção celeridade/justiça, ao lembrar, no termo do seu discurso, que o direito é um regulador social e não um regenerador. Pergunto-me a propósito se a crise da justiça não se faz também de crise da sociedade?

A intervenção do Sr. Presidente da República foi modelar. Chamou a atenção para a necessidade de as reformas serem pensadas, testadas e continuamente monitorizadas por forma a poderem ser reformuladas. Realçou o valor da qualidade, na relação dialéctica que entretém com a quantidade.

E enfatizou a necessidade de as leis serem claras, susceptíveis de serem compreendidas pelo cidadão. É uma necessidade fundamental, pela qual continuamente tenho combatido mas que a maioria dos juristas ignora.

Este encontro entre o meu modo de ver o Direito/Justiça e o do Sr. Presidente da República deve ser casual. De qualquer modo, vou-lhe oferecer o meu livro “A Justiça e a Comunicação Social – Do Direito Problemático à Comunicação Antropofágica” e cópia da comunicação sobre “A Proximidade entre a Justiça e a Sociedade”, que proferi no colóquio sobre a justiça e sociedade, que teve lugar há cerca de seis meses no Supremo Tribunal de Justiça. Perpassa das suas páginas uma maneira diferente, antiga mas esquecida, de ver o direito e a justiça. No plano do impacto social, é pressuposto do paradigma legal que a mensagem legislativa seja acessível ao cidadão, primeiro no sentido de ser conhecida e depois no de ser inteligível. Mas o direito que temos, que é um direito só para juristas, insusceptível de ser percebido pelo cidadão, torna a justiça distante e problemática visto que nenhuma tecnologia disciplinar pode funcionar com eficácia, na ausência de laços de identificação entre a pessoa e a norma.

Esses laços existiam nos grandes códigos da nova tradição jurídica, que é de raiz francesa. Mas nós deitamo-los fora como trastes velhos. O famoso código de Seabra, de uma diáfana clareza, foi substituído por um código de raiz germânica, insusceptível de ser percebido pelo cidadão comum. A essa reforma remonta – a meu ver – a crise da Justiça.

Foi pena que a sessão de abertura do ano judicial, não tivesse sido transmitida em directo pela televisão, na íntegra, para evitar deturpações. Não sei se alguém pensou nisso mas deixo aqui a sugestão. Qualquer dia, em “A Grande Reportagem”. Haverá um grande debate, um grande espectáculo, sobre a Justiça, a partir das críticas do novo Bastonário da Ordem dos Advogados. Chegará ao público uma visão deformada mas espectacular da Justiça o que fará com que o cidadão fique ainda mais confuso. Será mais uma oportunidade para sabermos se vivemos em democracia ou em telecracia ou num misto de ambas as cracias.

Que se há-de fazer? O mundo está em crise, não é só a Justiça. Sabem que o B.P.I. vale hoje metade do que valia há breves meses? Sabem quantos inocentes o terrorismo islâmico mata diariamente só no Iraque? Sabem quantas jovens sul-americanas e europeias de leste caem diariamente nas malhas das máfias para satisfazerem os desejos dos ocidentais que podem pagar? Sabem quantos no mundo ainda morrem à fome?

Não há nada a fazer?
Há. No mundo exterior, há que planear para a felicidade, sem esquecer que já não há amanhãs que cantam. No mundo interior – há dois mundos – que é feito de ideias e de sentimentos, há que desenvolve-lo, sabendo que se ele foi mais justo, o exterior o será também em breve.
Há governos que apostam em destruir a espiritualidade.
Porquê?
 
O PRIMEIRO DE JANEIRO | 06.02.2008 
Comentarios (2)add
... : Um cidadão
Penso que as "verdades silenciadas", ditas pelo Bastonário já foram mais do que suficiente para levantar essas ondas todas, onde até a Assembleia teve de tomar medidas cosméticas para o combate à corrupção.
Ora, só nos falta um pouco mais de pressão da opinião pública para que tomem medidas mais eficientes para o combate, v.g., a tipificação do crime "riqueza injustificada" por aqueles que empenham cargos públicos.
07.Fevereiro.2008
... : BD
Pelo que li, parece-me o Juiz Conselheiro Dr. José Rodrigues da Silva um grande homem, íntegro, e um verdadeiro Juiz, sensato. E faz aquilo que infelizmente é muito difícil para muitos: escreve simples e com (buscando as suas próprias palavras) uma "diáfana clareza". Muito bem.
07.Fevereiro.2008
Escreva o seu Comentario

Este post foi bloqueado. Impossivel adicionar comentarios.


busy
 
< Item anterior   Item seguinte >
Sondagem