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Não estamos na Idade
Média, embora de quando em vez até pareça, pelo que levar um Tribunal a
funcionar fora… do Tribunal, é, na minha opinião, desrespeitar a
justiça. É levá-la para a rua! Acontece que, como não há um projecto político para nenhuma área no nosso País, também na Justiça se “navega à vista”.
Diariamente chegam
novas de comportamentos indignos perpetrados por agentes da justiça e
pelos que já esgotaram a paciência – os arguidos que crescem que nem
cogumelos.
Aliás, hoje em dia, em Portugal, um “bom pai de família” foi, é, ou será arguido de qualquer coisa!
Não é, pois, de admirar que engrossem as fileiras dos descrentes nos sistemas judiciário e judicial.
São vozes que surgem de todos os lados. Com ou sem razão.
Com mais ou menos aproveitamento mediático.
A voz mais recente chega de Londres. Vale e Azevedo decidiu dar uma
entrevista à Sic para justificar o seu “rico” modus vivendi na capital
britânica e afirmar de forma peremptória que não acredita na “justiça
portuguesa”, só na “inglesa”…!
Acontece que o ex-presidente do Benfica é advogado, já esteve preso,
continua a ter em Portugal uns quantos “casos pendentes” e enquanto
passeia o “seu” Bentley em terras de Sua Majestade, vai dizendo que
“sabe do que fala” quando diz que em “Portugal não há justiça!”.
E porquê mais este enxovalho?
Claro que o “invisível” ministro da Justiça, nada sabe, nada comenta,
nada vê, nada explica porque anda muito ocupado com o controverso Mapa
Judiciário, uma ideia “luminosa” que como todas tem um lado obscuro.
Ou seja: o Mapa Judiciário como modelo de gestão até pode parecer
moderno e eficaz, mas há a questão territorial desta concentração que
vai obrigar à deslocação de muitas dezenas de quilómetros de todos os
infelizes que habitarem longe. E assim continuaremos a ter a justiça
mais cara para os que menos podem!
Entretanto um juiz foi agredido a pontapé e uma magistrada ficou com cortes na cara em Santa Maria da Feira.
Dizem que as instalações, no caso o salão dos bombeiros da Feira, foi
local propício às agressões, pela falta de condições ao julgamento em
causa – tráfico de droga –, mas tenho para mim que tudo isto é uma
grande falta de respeito e de educação. A todos os níveis.
Não estamos na Idade Média, embora de quando em vez até pareça, pelo
que levar um Tribunal a funcionar fora… do Tribunal, é, na minha
opinião, desrespeitar a justiça. É levá-la para a rua!
Acontece que, como não há um projecto político para nenhuma área no nosso País, também na Justiça se “navega à vista”.
Desde há décadas que são necessárias obras em dezenas de tribunais. Não
se fizeram. Agora alguns caem aos bocados e com a cal, o estuque e o
cimento cai o sentimento de respeito e de dignidade que a palavra
justiça deveria conter em si.
Mas talvez, como escreveu Yonesco, que as raízes das palavras sejam
quadradas e nesse caso ainda haja esperança para encontrar na palavra
“justiça” um lado bom.
Até lá, manda o bom senso que os senhores juízes e o Ministério Público
(uma parte, que não felizmente, o todo) se deixem de ironias de mau
gosto nas sessões de audiência de testemunhas e de julgamentos…
É que o respeito não pode ser só numa direcção – a do terceiro poder que dizem ser o da Justiça.
O respeito não ocupa espaço e distingue o Homem dos restantes animais.
Robert Muzil diz que o “pensamento é uma questão moral”.
O respeito também!
NASSALETE MIRANDA | JUSTIÇA E CIDADANIA | 01.07.2008
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