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Edgar Taborda Lopes, Juiz de Direito: "A era que nos coube viver não tem paralelo no passado: nunca
houve tantos juízes, nunca houve tantos processos (nunca se trabalhou tanto nos
tribunais), nunca houve tantos (e tão predadores) órgãos de comunicação social,
nunca a qualidade da produção legislativa foi tão má, como nunca a sua
quantidade foi tão inflacionada. A sociedade exige cada vez mais dos seus
juízes, mas encara-os com cada vez mais desconfiança. Tudo o que tem que ver com
o mundo judiciário expõe hoje em dia todos os intervenientes a um circo
mediático para o qual uns estão mais preparados do que outros".
A exposição pública das decisões potencia as críticas (quer as
construtivas quer as demagógicas e populistas), o que, por si só, não é
negativo, desde que todos tenham o cuidado de evitar generalizações: nem as
decisões dos tribunais são sempre perfeitas nem as que o não são (e por isso são
notícia) são regra.
A arrogância de qualquer dos lados é má conselheira: as
verdades absolutas não existem em Direito nem o jornalista (ou o cronista, ou a
opinião pública) tem sempre razão. Neste contexto, exige-se ao juiz uma nova
cultura capaz de enfrentar um desafio que nunca estará ganho: aceitar a
realidade e responder com uma cada vez maior exigência de fundamentação e
compreensibilidade das decisões.
Os juízes portugueses têm já uma mais-valia inestimável:
relativamente aos países que nos são próximos são os que mais fundamentam as
sentenças. Mas é preciso começar a atribuir à decisão do juiz uma dimensão
comunicacional. Só com ela será possível garantir que a generalidade dos
cidadãos entenda o que os tribunais decidem em seu nome e melhoro possam
aceitar: Decidir é também comunicar. O juiz, sem se deixar anestesiar pelo
conformismo, deve manter inatacável o seu brio profissional e a sua capacidade
de trabalho e, para o exterior, estar atento, ter sentido de autocrítica e
capacidade de aceitar a crítica dos outros, saber dosear o falar e ter uma cada
vez maior intervenção pública (individual ou associativa), bem preparada,
responsável, moderada, serena, crítica e corajosa, evitando discursos
irreflectidos e/ou incendiários, procurando contribuir para uma opinião pública
mais esclarecida e para o aperfeiçoamento do sistema em que se insere (poucos
terão uma noção tão concreta, como global, das consequências da aplicação da
lei).
Estamos num processo de recíproca aprendizagem dos mecanismos
de funcionamento dos mundos judicial, da comunicação e da opinião pública e,
neste processo, também o cidadão tem de compreender que o juiz não é acéfalo,
que não é (porque ninguém o é) bacteriologicamente puro (o juiz é como os outros
cidadãos: diferentes entre si e com abordagens distintas perante as situações
que lhes são colocadas), que o juiz não dá opiniões nas sentenças (decide e
explica porquê e em recurso outros juízes reapreciarão), que normalmente as
decisões surgem descontextualizadas nos media, que decidir é escolher e nunca
será possível agradar a todos (o juiz tem mesmo de estar preparado para
desagradar a todos: ao poder, às partes e até à opinião pública).
Ser cidadão é participar activamente na vida da comunidade. Ser
juiz, hoje, é exercer cidadania: estudar, discutir, reflectir, decidir.
EDGAR TABORDA LOPES | NOTÍCIAS MAGAZINE (DN) | 24.06.2007
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