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Os juízes não se encontram em roda livre, ao
contrário do que acontece com algum jornalismo.
Já não é a
primeira vez que Henrique Monteiro, director do semanário ‘Expresso’, se
permite dizer, na sua coluna, um conjunto de inverdades sobre a magistratura
judicial. Escreve com arrogância sobre um assunto que, pela leitura da sua prosa,
se percebe que desconhece. Era-lhe, no mínimo, exigido, enquanto director de um
jornal tido de referência, fazer o trabalho de casa e estudar as questões que
se relacionam com a actividade e métodos de avaliação dos juízes, evitando as
confusões básicas de que padece o seu escrito. Mas se não quisesse estudar,
porque dá trabalho, bastava-lhe perguntar para ser esclarecido e assim prestar
um bom serviço aos leitores do jornal. A posição que ocupa não lhe permite,
mesmo num texto de opinião, que contribua para desinformar as pessoas.Suponhamos, porém, que o director do semanário tinha feito as
perguntas que se impunham para poder escrever com rigor. Teria ficado a saber
que os juízes não se encontram em roda livre, ao contrário daquilo que sucede
com algum jornalismo em Portugal, apelidado de ‘quarto do poder’, muitas vezes
sem controlo e sem critérios éticos e deontológicos.
A ética da
responsabilidade, os critérios de avaliação, de desempenho na profissão e de
qualidade são pura ficção no jornalismo, sacrificando-se valores naturais e de
matriz, o ADN da profissão.
De forma
paciente ser-lhe-ia explicado que os juízes são titulares de um poder soberano,
reconhecido constitucionalmente, com regras de funcionamento muito específicas,
de imparcialidade, isenção, exclusividade, inamovibilidade, independência e sem
uma estrutura hierárquica. Com regras próprias de avaliação, de desempenho e de
qualidade, que estão no Estatuto Judicial e que funcionam em níveis aceitáveis.
A
actividade judicial é pública e é fiscalizada, no processo, pelas partes, pelos
advogados e por três instâncias de recurso. Existem inspecções periódicas que,
ao avaliarem o trabalho do juiz, classificam com nota de mérito. O Conselho
Superior da Magistratura, formado na sua maioria por membros indicados pelo
poder político, exerce funções disciplinares, não sendo exacto que, nas
avaliações, conclua que são todos perfeitos. Peça os relatórios. Existem
actualmente juízes com a actividade suspensa e afastados da profissão por não
terem cumprido com as suas obrigações. Quantos jornalistas estão suspensos ou
foram expulsos por não cumprirem com a sua arte? Quem avalia o desempenho e a
qualidade dos media?
E não me venha com a lógica recorrente da deriva corporativa
para atacar este texto. É público que, há muitos anos, sou um crítico do
sistema.
Um reparo e duas notas finais.
O reparo: um juiz ser independente ou ser um juiz-funcionário
dependente do poder político não é uma questão de gosto, mas sim de regime. São
o Estado de Direito e a qualidade da democracia que ficam em causa.
As notas finais: com humildade cristã peço-lhe que transmita ao
‘Sr. Máquina do Tempo’ que evite tantas imprecisões e diga-lhe que o cozinheiro
infectado com VIH não foi despedido; o que aconteceu foi a caducidade do
contrato. Na Idade Média conheciam a diferença. Já agora, o caso não foi
julgado no Palácio da Justiça. É azar tantas vergonhosas inverdades no mesmo jornal. Para os leitores poderem avaliar o seu trabalho e exigir-lhe
responsabilidade diga lá quanto ganha. Depois comparemos com um juiz. Se quiser
trocar de vencimento, diga-me, por favor.
Como dizia Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos
maus, mas o silêncio dos bons.”
RUI RANGEL | CORREIO DA MANHÃ | 02.12.2007
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