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Mapa Judiciario: Fazer depressa de mais uma reforma desta importância, é caminhar para as trevas (Des. Rui Rangel)
«A reforma da geografia orgânica dos
tribunais, comummente conhecida por ‘Mapa Judiciário’, está em fase de
discussão pública. É o momento de pedir ao Governo que, antes de
avançar, “pare, escute e reflicta”, porque ela constitui a mais
importante medida legislativa, a medida verdadeiramente estruturante da
‘vida’ da Justiça, a ser tomada pelo Governo Sócrates. Sabido que é
consensual que a actual Orgânica Territorial da Justiça está obsoleta e
ultrapassada porque foi feita para um outro País e para uma outra
realidade da Justiça, tal não legitima que o executivo ande depressa de
mais, subordinado a uma lógica de cumprimento do seu programa de
governo.
É verdade que as eleições estão à porta! O programa de
governo é, em princípio, para uma legislatura, mas esta reforma é para
a vida da Justiça, que se deseja seja longa e duradoura. A arrogância
parlamentar, que decorre da lógica de funcionamento da maioria, exige a
montante uma cultura de humildade democrática da parte do poder
governativo, adoçada por uma ética de responsabilidade. Os juízes não
são, por princípio, contra a mudança de paradigma, que imprima ao
serviço público da Justiça uma maior racionalidade, uma mais eficaz
operacionalidade na resposta e uma maior eficiência dos serviços que
são prestados ao cidadão. Apesar de, a jusante de muitas reformas
feitas, os juízes terem tido razão porque criticaram o caminho seguido,
com apresentações de sugestões que não foram acolhidas, receiam e estão
preocupados que o tempo deste legislador, que ouve, mas não acolhe, se
esgote num presente estéril, sem memória nem projecto que traga o tal
paradigma.
O legislador não pode ser o dono do tempo do Direito
e da Justiça. O que se exige de quem tem o poder de legislar é que
tenha amor pelos valores e respeite os princípios estruturantes do
exercício nobre da função judicial. A defesa dos valores da
inamovibilidade, do juiz natural, do respeito pelo não desaforamento
processual, de uma Justiça de proximidade e da independência interna do
juiz são um garantia da democracia e de um sistema de pesos e
contrapesos que deve existir entre os diferentes órgãos de soberania.
O
discurso neoliberal e tecnocrático da Justiça, de uma Justiça
optimizada e com maiores ganhos de produtividade tem de ‘casar’ com a
defesa destes valores simbólicos, enquanto direitos fundamentais. Se
não for dinamizada a discussão pública, se não se der tempo ao tempo,
se não se alargar o arco de consensos, entre partidos políticos com
assento parlamentar e toda a comunidade jurídica, será cometido o erro
do século, com consequências arrasadoras, na medida em que esta reforma
vai soçobrar às mãos da Justiça Constitucional.
Vem-me à ideia
esta frase de Tocqueville: “Uma vez que o passado já não ilumina o
futuro, o espírito caminha nas trevas.” Fazer depressa de mais uma
reforma desta importância e dimensão é caminhar para as trevas,
associando-lhe um destino sombrio e pouco transparente. É nesta
sabedoria e inteligência no fazer e como fazer que se distingue, desde
os gregos, o bom do mau governo».
RUI RANGEL | 02.03.2008
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