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Crónica de Rui Rangel, Juiz Desembargador: «As recentes agressões de que foram
vítimas os juízes que estavam a realizar um julgamento são, antes de mais, uma violação e uma
afronta à autoridade do Estado Democrático.
Nunca foi pensada uma estratégia central da segurança para os tribunais, agora mais vulneráveis. Para o Governo, estas funções de soberania
do Estado podem, tranquilamente, ser exercidas num qualquer vão de
escada. A falta de investimento nestas funções soberanas do Estado é
uma consequência da ditadura das finanças.
A falta de respeito pelos juízes e a
degradação da sua imagem foram alimentadas por este Governo, numa
política de pura e baixa propaganda eleitoral, o que decisivamente
contribuiu para estas agressões. Por isso, os Juízes não devem aceitar
fazer julgamentos em tais condições, até porque têm a obrigação de
proteger a segurança e a tranquilidade das pessoas que vão ao
tribunal».
As recentes agressões de que foram
vítimas os juízes que estavam a realizar um julgamento no Quartel de
Bombeiros de Santa Maria da Feira, por inexistência de um tribunal com
condições e dignidade, são, antes de mais, uma violação e uma
afronta à autoridade do Estado Democrático.
Mesmo naquela improvisada sala de audiências, o Estado estava presente, pois era em seu
nome que a justiça estava a ser feita. O Governo não foi capaz ou não
quis manter a autoridade do Estado e, quando assim é, quem sofre somos
todos nós.
Os sinais de desagregação da autoridade do Estado são
bem visíveis e mais frequentes do que imaginamos. Quando um aluno bate
num professor, quando se dão tiros num comício em que está presente o
primeiro-ministro ou quando um arguido bate num juiz, o quetemos
é a completa inversão da pirâmide de valores, é o fracasso das
estruturas em que assenta o Estado de Direito.
Impressiona- me a
condescendência de uma cultura que assiste passivamente a tudo isto.
Sendo o homem lobo do homem, como disse Hobbes, se a autoridade do
Estado não for exercida com responsabilidade e sem transigir na
defesa da liberdade e da segurança, acabamos por morrer às mãos uns dos
outros.
Santa Maria da Feira é isto tudo e, também, um
problema de segurança e do estado de degradação em que se encontram as
instalações dos tribunais. Para o Governo, estas funções de soberania
do Estado podem, tranquilamente, ser exercidas num qualquer vão de
escada. A falta de investimento nestas funções soberanas do Estado é
uma consequência da ditadura das finanças.
Nunca foi pensada uma
estratégia central de segurança para os tribunais, agora mais
vulneráveis face ao aumento da criminalidade grave e à circulação de
arguidos de diversas nacionalidades que aí são julgados. Mas não se
trata de transformar os tribunais em bunkers, na expressão excessiva de
Marinho Pinto.
É óbvio que a falta de respeito pelos juízes e a
degradação da sua imagem foram alimentadas por este Governo, numa
política de pura e baixa propaganda eleitoral, o que decisivamente
contribuiu para estas agressões. Por isso, os Juízes não devem aceitar
fazer julgamentos em tais condições, até porque têm a obrigação de
proteger a segurança e a tranquilidade das pessoas que vão ao
tribunal.
Como disse Locke, "o uso da força sem autoridade põe
sempre aquele que a empre - ga em estado de guerra, como agressor, e
sujeita-se a ser tratado nos mesmos termos. Todos devem ter consciência
da lei!
RUI RANGEL | CORREIO DA MANHÃ | 02.07.2008
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