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O Juiz desembargador jubilado Dr. António Rodrigues Simão entende que, para ultrapassar a situação
actual, deve evitar-se a retórica justiceira ou o revivalismo
conservador.
1-A `crise da justiça’ é antiga, profunda e potencia o fenómeno nos demais sectores da sociedade.
Tais asserções verdadeiras, mais proclamadas por sectores com maior
capacidade de vitimização e, em parte, tributárias de uma visão
ultraliberal do Estado - comportam alguns equívocos.
Porque o óbvio não é universal nem intemporal, algo há pois a dizer.
2-”Crise” - palavra que significa “momento histórico indefinido ou
de riscos inquietantes”, “situação de tensão momentânea” ou, até,
“certo tecido antigo” (ver “Grande Enciclopédia Portuguesa e
Brasileira”) - tem um sentido negativo, embora reporte o momento em que
dada conjuntura pode evoluir em sentido favorável ou não.
`Justiça’ é a composição de litígios por entidades independentes
(tribunais), de forma pública e mediante ritos próprios, tidos por
adequados (os dos códigos de processo).
Mas, vulgarmente, nela se incluem serviços - polícias, prisões,
laboratórios, registos, etc. -, de natureza administrativa e
dependentes dos governos. E esquece-se que nos tribunais existem duas
magistraturas -juízes e procuradores - entre si independentes.
3-Mas tal sentido amplo da justiça - cívica e politicamente legítimo - permite outra abordagem da questão.
A crise será aí duplamente inevitável: o sistema é muito complexo,
lidando com o conflito e com a não cooperação dos interessados; depois,
e mais importante, a justiça é para o vulgar cidadão um ideal
transcendente, quase uma religião (o equilíbrio, a equidade, a paz, a
ordem, sendo dela desígnios, são também atributos da divindade).
Assim, o concreto funcionamento da justiça acarreta sempre uma certa
margem de insatisfação, um sentimento de `crise’ permanente e
inultrapassável.
4-Tais inegáveis realidades não podem, contudo, escamotear responsabilidades.
Os políticos, em primeira linha e desde logo, pelo excesso legislativo:
há leis a mais e mal feitas; o que gera insegurança, conflitos e, no
limite, desrespeito pela lei. Depois, pelo não investimento, longo de
décadas e causador de ineficácia (radicará tal pertinaz inércia em
interesses instalados, a quem convém reduzir a justiça a mera sucessão
de `casos’, um permanente jogo de sombras que o cidadão não compreende,
ainda que sinta estar perante lutas de poderosos ou de secretas
agremiações?).
As Universidades comungam de alguma desta responsabilidade, ao não
produzirem um discurso teórico actualizado, simples e adequado à
solução dos problemas.
Mas também os agentes da justiça.
Esta está ao serviço dos cidadãos e é “administrada em nome do povo”, pelo que:
- esses agentes, todos eles, devem ser claros e directos, na explicação
dos tempos e ritos próprios da justiça e das suas acções, ultrapassando
indesejáveis segredos; - os magistrados devem recusar intervenções
externas - na política, na polícia, na ribalta mediática, no desporto -
pois os seus direitos e deveres resultam do exercício das funções
próprias e definidoras e não são algo que sempre exorne as suas
pessoas; - solidários, devem evitar “tricas de campanário” e manter-se
alheios ao jogo político (mas sem apoliticismo, já que a cultura é
garantia da sua independência). E quanto melhoraria a justiça com a
atenção de magistrados, advogados e funcionários ao básico
da cidadania (humildade democrática, lealdade, solidariedade) e à noção
de serviço (assiduidade, pontualidade, celeridade e competência).
5-A retórica justiceira ou o revivalismo conservador são caminhos a
evitar para superar o actual estado das coisas: unificados numa visão
redutora e pessimista do presente - repositório de todo o mal - apenas
propõem o mecânico retorno a um passado, que, em idílica visão,
equiparam ao paraíso perdido.
Ora, a vida moderna é cada vez mais complexa, colocando problemas e
desafios novos, razão pela qual, sem renegar o passado, há que olhar em
frente e buscar soluções actuais, abandonando tudo quanto seja “certo
tecido antigo”.
ANTÓNIO RODRIGUES SIMÃO | EXPRESSO | 06.02.2010
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