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No Jornal de Notícias de 06.03.2007 - "Juízes acusados de não aplicar a lei". O título é uma falácia. O seu criador, manifestamente desconhecedor do que sejam as funções dos juízes, serve-se do prestígio destes para conferir à notícia uma importância que ela manifestamente não tem. Não correspondendo também aquele ao que terá sido dito pelo Governo e pelos parlamentares do PS quanto à matéria em causa.
A notícia reporta-se à problemática das agressões aos professores e à discussão, actualmente em curso, sobre o novo estatuto do aluno. Os professores, preocupados com um problema real e que directamente os afecta, vêm manifestando vontade que alguma coisa mude, nomeadamente ao nível da repressão dos comportamentos agressivos contra os docentes. Para isso propuseram, entre o mais, que o crime de ofensa à integridade física praticado contra professores no exercício de funções ou por causa delas tenha natureza pública, isto é, que não dependa de queixa do ofendido.
O que vem dizendo o poder político nesta matéria é que essa reivindicação carece de sentido, porquanto isso já hoje acontece. O que é verdade (cfr. artigo 146.º, nºs. 1 e 2 e 132.º, n.º 2, al. j) do Código Penal). Mas essa circunstância não tem impedido que, na prática, tais crimes venham sendo tratados como ofensas à integridade física simples.
Trata-se realmente de um problema, uma vez que na ausência de queixa os processos se extinguem ou nem sequer se encetam.
Mas os juízes nada têm que ver com essa situação, posto que no quadro constitucional os tribunais (e por consequência os juízes) não têm (e bem) poder de iniciativa, esta cabe aos cidadãos ou às instituições e organizações do Estado ou da comunidade. Tudo se passa, então, no âmbito da investigação criminal, a qual está a cargo das polícias e do ministério público (e não dos «juízes»). Fica assim evidenciada a impropriedade do título da notícia.
Não deixa de ser uma oportunidade perdida, pois a matéria em causa encerra uma problemática muitíssimo mais rica do que a mera questão da natureza pública ou semi-pública do crime de ofensa à integridade física dos professores. Mais importante parece ser a tão maltratada autoridade do professor na sala de aula e na escola. Questão simples que os sucessivos ministros da educação e seus assessores (sociólogos e psicólogos que como predadores colonizaram todo o sistema, dele se apropriando) vêm complicando, adensando uma teia burocrática que asfixia os professores e as escolas e que contribui, em grande medida, para agudizar os problemas a juzante. Andou, pois, o articulista, ao lado da verdadeira notícia e perdeu desse modo a oportunidade de fazer um trabalho sério e certamente mais útil à comunidade.
DR. J.F. MOREIRA DAS NEVES | BLOG JOEIRO | 06.03.2007
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