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Há uma obsessão controladora neste governo socrático. Onde está a ameaça para assim artilharem a máquina do Estado, engendrando o cartão único, o cruzamento de dados, a publicitação das dívidas ao fisco e, agora, este big brother policial que a todos vigia e a todos pretende intimidar? A resposta só pode ser uma: o Governo do engenheiro Sócrates tem medo dos portugueses, porque são eles a única ameaça séria à ilusão de uma maioria absoluta perpetuada no tempo.
«E se fosse um Governo do PSD a aprovar um plano que colocasse o primeiro-ministro no vértice de uma pirâmide, com acesso simultâneo não só às informações que vêm das polícias civis (PSP, GNR, SEF e PJ), mas também às dos serviços de espionagem (SIS e SIED)? Mais. Que diria o PS, se estivesse na oposição, de um governo social-democrata que atribuísse ao chefe do Executivo a possibilidade de orientar ou controlar matéria de investigação criminal? Sabe-se, de ciência certa, que diria das boas. No mínimo, invocaria a besta fascista, prenunciaria perseguições e ignomínias, exigiria debates no Parlamento, apelaria ao Presidente da República... Por muito menos, o PS e a esquerda em geral atiraram-se, como gato a bofe, ao ex-ministro Morais Sarmento, por causa da sua famosa central de comunicação. E, no entanto, a pobre central (que o Governo Sócrates, de mansinho, já contemplou na futura orgânica) tem, à distância e à luz das medidas verdadeiramente controladoras do PS, o ar na de uma brincadeira de meninos.
Há uma obsessão controladora, neste PS socrático. E nem se percebe bem porquê. O País não tem minas de ouro ou poços de petróleo, nem know how científico e tecnológico susceptíveis de cobiça alheia, nem indústrias estratégicas em áreas sensíveis, nem ameaças externas evidentes, nem pretensões expansionistas. E mesmo que tivesse tudo isto ou quase tudo isto, o modelo devia, ainda assim, ser outro. Aquele em que assentava a matriz original do PS, que escolhia a liberdade em detrimento da sacrossanta eficácia.
Ora se, pelo contrário, Portugal é um país pindérico, que ninguém respeita porque não se dá ao respeito, cujas (poucas) riquezas naturais têm sido desbaratadas por agentes políticos incompetentes ou venais, com um crescimento económico miserável e sem perspectivas de afirmação no mundo, o que temem este Governo e este primeiro-ministro?
Onde está a ameaça para assim artilharem a máquina do Estado, engendrando o cartão único, o cruzamento de dados, a publicitação das dívidas ao fisco e, agora, este big brother policial que a todos vigia e a todos pretende intimidar? A resposta só pode ser uma: o Governo do engenheiro Sócrates tem medo dos portugueses, porque são eles a única ameaça séria à ilusão de uma maioria absoluta perpetuada no tempo.
Essa é, aliás, uma ideia doce e exequível, à luz do que se passa no maior partido da oposição. De facto, neste momento, o PSD não merece governar Portugal. Se dúvidas houvesse, a sua omissão, neste caso, acabaria com elas. E o pior é que, provavelmente, o silêncio do PSD se deve a puro calculismo. Nada melhor do que herdar, sem custos políticos, o enorme poder que o PS um dia lhe legará de bandeja. Se, entretanto, não houver vozes suficientes para travar este atentado a um dos princípios fundadores do Estado de Direito: a separação de poderes. O PS que não se iluda. O poder é efémero e, qualquer dia, serão outros a exercê-lo. Se não lhe bastam os princípios, devia utilizar a memória. E a do processo Casa Pia ainda está aí, bem fresca.
ÁUREA SAMPAIO | VISÃO | 15.03.2007
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