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Primeiro Ministro para comando dos polícias ? criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
12-Mai-2008
Depois de ter colocado os serviços de informação na alçada de um secretário-geral que reporta directamente ao primeiro-ministro, repetir a fórmula com o secretário-geral dos serviços de segurança indicia uma excessiva concentração de poderes em áreas politicamente sensíveis.


No meio do ruído mediático provocado pela demissão e substituição do director nacional da Polícia Judiciária, passou quase despercebido um tema muito mais relevante: a aprovação na Assembleia da República da Lei de Segurança Interna.

O que é que essa lei nos trará de novo? A entronização da figura do secretário-geral do Sistema Integrado de Segurança Interna (SISI) que dependerá directamente do primeiro-ministro e terá um estatuto idêntico ao dos secretários de Estado, com as regalias correspondentes.
A lei estabelece depois que esse secretário-geral terá ‘competências de coordenação, direcção, controlo e comando operacional’, o que significa que não se limitará a supervisionar serviços tão distintos como a GNR, a PSP, a Polícia judiciária, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, a Autoridade Marítima Nacional, o Sistema de Autoridade Aeronáutica, o Sistema de Protecção e Socorro e ainda os Serviços Prisionais, como poderá controlá-los e comandá-los operacionalmente. Adiante especifica-se que as suas competências de controlo incluem, por exemplo, gerir “incidentes táctico-policiais” que vão desde crises provocadas por “suspeitos com armas de fogo ou outras com capacidade para produzir ofensas à integridade física graves ou a morte” até ao “sequestro ou tomada de reféns”.

Em caso de “catástrofes naturais” ou “ataques terroristas”, todos os serviços atrás indicados podem ficar operacionalmente dependentes deste novo secretário-geral, que não ascende a tal lugar pelo mérito da sua carreira (como é regra nas instituições militares), mas por nomeação directa do primeiro-ministro.

As competências assim definidas, a dependência directa do primeiro-ministro, a nomeação política e o facto de o Conselho Superior de Segurança Interna apenas integrar, para além do primeiro-ministro, que preside, um número variável de membros do Governo e um conjunto de quadros dirigentes de nomeação política, dois deputados e o chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas não permite dúvidas: estamos perante um lugar político destinado a quem, para além das indispensáveis competências profissionais, tenha uma igualmente indispensável proximidade do primeiro-ministro.

Na verdade, não se trata do primeiro cargo deste tipo a ser criado em Portugal e por este Governo. O chamado “secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa” goza de idêntica equiparação a secretário de Estado e também ele depende directamente do primeiro-ministro. Sob a sua alçada encontra-se o SIS (Serviços de Informação e Segurança, já muitas vezes envoltos em polémica) e o SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, onde têm ocorrido muitas demissões nos últimos meses, designadamente de alguns dos quadros mais antigos e experientes), isto é, o conjunto dos serviços secretos portugueses.
Todos os dirigentes destes serviços foram substituídos depois de o actual Governo tomar posse, tendo sido também substituído o secretário-geral que reporta directamente ao primeiro-ministro.
Com a reprodução, na área da segurança, do modelo, contestável, que havia sido adoptado para a área da defesa, estamos perante uma acumulação formal de poderes de coordenação e comando sob a alçada directa do primeiro-ministro que não tem precedente na história recente de Portugal. Mais: que, sobretudo por ausência de mecanismos eficazes de controlo e fiscalização, é relativamente opaco para os cidadãos.

Em nome da eficiência e da necessidade de combate aos “novos riscos”, podemos estar perante uma violação de um princípio fundamental em qualquer democracia: o do governo limitado, isto é, o de um poder executivo que não traduza uma acumulação excessiva de poder no seu titular - ou seja, no muito particular sistema português, uma acumulação excessiva de poder no primeiro-ministro.
Ora como sabemos que “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente só se estranha como passou quase sem debate público a nova Lei de Segurança Interna. O facto de o principal partido da oposição estar à procura de um novo líder não implica que o resto do país, e até uma parte do Partido Socialista, não se interrogue ou inquiete.
 
JOSÉ MANUEL FERNANDES | PÚBLICO | 12.05.2008 
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