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Pena de morte criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
03-Jan-2007

ImageA morte de Saddam Hussein por enforcamento faz-nos regressar à Idade Média. Já não basta a iniquidade da pena de morte: acrescenta-se-lhe a humilhação da forca, reforçada pelas filmagens que correm o mundo e que nos apresentam um homem de olhos apavorados, mas que manteve toda a sua dignidade, quando confrontado com um método de morte perfeitamente indigno.


1. É desta forma que começa a coluna de opinião do jornalista José Luís Ramos Pinheiro [Correio da Manhã]. «Na curta-metragem da morte de Saddam Hussein identifica-se, sobretudo, uma vítima, numa situação mais próxima da noção da vingança do que do valor da Justiça (..). O enforcamento de Saddam não levará a paz ao Iraque, mas envia a mensagem de que os valores civilizacionais são mais uma cartilha do que uma convicção: eis um erro indesculpável, quando o mundo se confronta com a ameaça sempre latente do terrorismo».

2. Saddam Husseim foi condenado à morte por enforcamento. Ao longo da história têm sido vários os métodos de aplicação da pena de morte. Designadamente, por asfixia, fogueira, crucificação, esmagamento, morte por mil cortes, decapitação (à espada, machado ou guilhotina), desmembramento, afogamento, electrocussão numa cadeira eléctrica, dsesangrado, fuzilamento, Garrote vil, câmara de gás, empalamento, injecção letal, lapidação (apedrejamento), estrangulamento e a roda.

3. A pena de morte foi abolida em Portugal para crimes políticos em 1852 (artigo 16º do Acto Adicional à Carta Constitucional de 5 de Julho, sancionado por D. Maria II). Abolida para crimes civis em 1867 no reinado de D. Luís. Abolida para todos os crimes, excepto por traição, durante a guerra em Julho em 1867 (Lei de 1 de Julho de 1867). A proposta partiu do ministro da Justiça Augusto César Barjona de Freitas, sendo submetida à discussão na Câmara dos Deputados. Transitou depois à Câmara dos Pares, onde foi aprovada. Mas a pena de morte continuava no Código de Justiça Militar. Em 1874, quando o soldado de infantaria nº 2, António Coelho, assassinou o alferes Palma e Brito, levantou-se grande discussão sobre a pena a aplicar. Abolição para todos os crimes, incluindo os militares em 1911. Readmitida a pena de morte para crimes de traição em tempo de guerra, em 1916. Abolição total em 1976. A última execução conhecida em território português foi em 1846, em Lagos. Remonta a 1 de Julho de 1772 a data em que é executada pela última vez uma mulher. Chamava-se Luísa de Jesus.

4. Apesar deste pioneirismo, conforme assinalou Luís Miguel Viana, na sua crónica do Diário de Notícias de 04.12.2005 [link], "deve dizer-se que Portugal não tem contribuído nos últimos anos para levar tais questões ao bom caminho. Depois de no século XIX ter sido pioneiro na abolição da pena de morte e da pena de prisão perpétua, registou em 2000 uma inflexão dessa política para, precisamente, aderir ao TPI modificou a Constituição de forma a admitir a entrega de pessoas que possam vir a cumprir, efectivamente, uma pena de prisão perpétua. Ora, quando se subscrevem retrocessos civilizacionais, perde-se a autoridade moral para condenar execuções".

5. Consta do art.º 1.º do Protocolo n.º 6 à Convenção Europeia dos Direitos do Homem, em vigor desde 1 de Março de 1985, " a pena de morte é abolida. Ninguém pode ser condenado a tal pena ou executado, estatuindo-se no seu artigo 2.º que "Um Estado pode prever na sua legislação a pena de morte para actos praticados em tempo de guerra ou de perigo iminente de guerra; tal pena não será aplicada senão nos casos previstos por esta legislação e de acordo com as suas disposições. Este Estado comunicará ao secretário-geral do Conselho da Europa as disposições correspondentes da legislação em causa".

6. Segundo noticiou o Jornal Público, na sua edição de 22.11.2006, Portugal vai organizar uma conferência internacional contra a pena de morte com o apoio da Comissão Europeia e do Conselho da Europa, em Outubro de 2007, mês em que é assinalado o Dia Mundial Contra a Pena de Morte.A realização da conferência está integrada na presidência da União Europeia, que será exercida pela Alemanha, Portugal e Eslovénia no período de Janeiro de 2007 a Julho de 2008.

7. De acordo com dados da Amnistia Internacional, de Abril de 2006, em 2005 foram executadas pelo menos 2.148 pessoas em 22 países, 94% das quais na China, Irão, Arábia Saudita e Estados Unidos da América. E que 5186 pessoas foram condenadas à morte em 53 países. "Os números sobre a pena de morte são verdadeiramente preocupantes: 20.000 pessoas contam os dias até que o Estado lhes tire a vida. A pena de morte é a negação dos direitos humanos, na sua forma mais irreversível. É normalmente aplicada de uma forma discriminatória, no seguimento de julgamentos injustos ou é aplicada por motivos políticos", afirmava a secretária-geral da AI, Irene Khan.

«Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos»
Victor Hugo,1876.

Comentarios (5)add
E ainda falta esclarecer devidamente as circunstâncias do julgamento. A rapidez da decisão, aliada à limitação dos direitos da Defesa (que se afigura como um atentado ao Estado de Direito Democrático) e à enorme pressão para uma condenação exercida por quem não tem qualquer autoridade moral para tal (EUA) mostra que o enforcamento (um meio de execução da pena de morte ultrapassado) foi encomendado. Será que os EUA (aliás... Bush) ainda não perceberam que já é altura de ouvirem as opiniões dos outros (ou mesmo dos próprios, como Colin Powell)? Será que ainda aprenderam com os seus próprios erros?
03.Janeiro.2007
... : Narciso Gaitinha
Se aplicar JUSTIÇA a quem mandou matar outros seres humanos fosse sentenciar à MORTE, o sr. BUSH e quejandos seriam reais candidatos a deixar o reino dos vivos por intervenção mecânica. Ou será que se diferenciam o modo como se manda matar e os fundamentos (verdadeiros ou falsos) que subjazem a essa ordem? O enforcamento de Saddam não foi um acto de justiça. Foi, verdadeiramente, um acto terrorista planeado no gabinete de um idiota que responde pelo nome de G.W. Bush a servir de aviso a quantos resistam a dobrar a espinha em vassalagem.
NG

05.Janeiro.2007
... : -
Por mais do que uma vez, fui confrontado essa notícia de que se vai organizar em Lisboa, em Outubro de 2007, uma conferência contra a pena de morte... Puro absurdo!!! Uma verdadeira anedota!!! Tinha muito mais interesse que fosse um debate realmente alargado entre os que compreendem a necessidade real desse recurso jurídico extraordinário (no sentido de só dever ser aplicado em casos de crimes extremos, tais como a pedofilia associada ao assassinato de menores e, note bem, após rigorosa investigação) e esses aí que se limitam a repetir, porque fica bem, que são contra a pena de morte! Mas... enfim, é o país que nós temos! Não é de espantar que tenhamos sido dos primeiros a abandonar o barco da razão... De qualquer forma, eu não defendo a aplicação da pena de morte nos casos em que ela é aplicada na China comunista e em diversos países do Terceiro Mundo, em que se pode ficar sujeito à pena capital, por exemplo, por criticar um regime político instituído, não seguir preceitos religiosos, praticar o adultério ou até estar implicado em contrabando! Não se pode comparar um gajo que trafique produtos contrafeitos a um violador de crianças!!!
16.Janeiro.2007
... : f ilipa
Acho que foi muitoi bem feito
22.Janeiro.2007
... : menina da escola
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07.Março.2007
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