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No discurso do primeiro-ministro, José Sócrates, no Parlamento
na passada quarta-feira (13/02/ 2008) bastava substituir a palavra "professores"
pela palavra "criminosos" para se perceber o que vai nas mentes dos "socialistas
modernos".
Era como se alguém dissesse no Parlamento mais ou menos isto: "Há 30
anos que há criminosos que não são penalizados, como nos outros países
ocidentais. E nós não vamos acabar o nosso mandato sem que isso aconteça! Todos
os governos antes de nós não tiveram a coragem de fazer isso!" Depois, perante
diversas e legítimas questões ou pedidos de esclarecimento colocados pelos
deputados da direita à esquerda, o orador se limitasse a insistir no mesmo
chavão: penalizem-se os criminosos, Não esclarecia as questões legais. Não
esclarecia a calendarização das medidas e o faseamento da implementação de
processos complexos. Não esclarecia se existiam ou não juízes competentes e com
possibilidades reais/disponibilidade para aplicar as leis. Não esclarecia se
havia ou não condições logísticas, no terreno, para os agentes de autoridade
exercerem a sua missão. Não esclarecia se existiam ou não agentes credenciados e
treinados -em número minimamente suficiente para exercer o poder coercivo
legítimo exclusivo do Estado. Nem sequer esclarecia se havia ou não criminosos
em número minimamente suficiente que justificassem a urgência da medida ou se
essa era uma angústia social relevante ou justificada. Mas o orador insistia:
prendam-se e penalizem-se os criminosos até 2009! O resto é "absolutamente" (uma
palavra que o orador em causa adora) secundário.Enfim, foi confrangedora a
pobreza argumentativa do primeiro-ministro na casa da democracia.
Nem a
comunicação social parece ter dado por isso. Há quem ainda ande nas nuvens
seduzido pela "determinação" do político e pelas políticas para a educação (em
especial as que visam os professores, dado que as outras, não sendo na essência
distintas da avaliação dos docentes, lá vão tirando a opinião pública do "estado
de estupor", como diria José Pacheco Pereira).
Sou, como muitos, defensor da
existência de um sistema de avaliação que diferencie os professores, embora,
dada elevada sensibilidade social do que está em causa, a seriedade de tal
caminho deva implicar uma construção ponderada e um processo que deve levar
tempo, deve ser testado, para ser credível e justo. Mas antes disso sou defensor
da democracia. A última assenta nos processos de negociação social, na persuasão
lógica-racional (é o que nos deveria afastar, no século XXI, dos totalitarismos
e dos populismos laicos e teocráticos), no respeito pelo Estado de direito e
pela dignidade de todos. Não é próprio de qualquer democracia que a tónica da
acção política incida radicalmente nos fins em si mesmos.
Quando, como ficou
óbvio no discurso do primeiro-ministro na última sessão parlamentar, os fins
justificam os meios desta forma, está-se para lá da democracia. Talvez estejamos
a viver abaixo das regras definidas pelo governo de Ouagadougou. Ë mais fácil
descobrir o país cuja capital é Ouagadougou do que descortinar tendências
construtivas próprias de um país da Europa ocidental nas políticas educativas em
Portugal do últimos três anos.
Gabriel Mithá Ribeiro Almada | PÚBLICO | 19.02.2008
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