header image
Início seta Artigos de Opinião seta Os ratos na Boa Hora
Os ratos na Boa Hora criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
22-Jun-2007

 «Ridícula história esta, a de um rato encontrado em estado de avançada decomposição no gabinete de juízes do Tribunal da Boa-Hora. Ridícula, mas verdadeira. De tal modo que os juízes da 4.ª Vara Criminal daquele tribunal, fartos da repetição de casos como este, requerem a intervenção do director-geral da Saúde (DGS) e do inspector-geral do Trabalho (IGT), por considerarem as condições em que ali trabalham ser atentatórias em relação à saúde e ao funcionamento da actividade profissional» (...)

«Já muitas vezes tem sido reclamado o estado decrépito em que se encontra aquele edifício, aliás, um monumento a ter em conta na Baixa lisboeta e no parque histórico das "casas da Justiça" em Portugal.
Este sinal de alarme representa o desespero de quem ali trabalha e constitui uma reclamação pública do incompreensível adiamento de uma intervenção que se impõe.
É também o reflexo do mal-estar que continua a persistir entre agentes da Justiça e o actual Governo.
Mas confesso que acordar ao ouvir esta notícia como primeira notícia do dia nas rádios a que ontem estive ligado é, acima de tudo, deprimente. E leva-me a ter o desejo de poder escrever a todas as autoridades deste país ou a pedir aos meus concidadãos que subscrevam por todo o lado abaixo-assinados para que casos destes acabem urgentemente. Esta história, no seu ridículo, reveste-se de um grau simbólico da caricatura que se vai desenhando sobre o país. É ridícula para o país. E também por isso é de clamar contra as coisas risíveis que alastram sobre uma nação que se quer, e se pensa, séria.
A cena dos ratos que se passeiam e apodrecem nos aposentos da Boa-Hora pode também ter a leitura da crise que cada vez mais se acentua sobre a Justiça, os seus agentes e organismos. O efeito roedor das estruturas do edifício social que nos abarca - o Estado - é muito mais catastrófico. Tem de valer-se à Boa-Hora. Mas tem de valer-se ainda muito mais rapidamente sobre o estado de decomposição da imagem da Justiça e de seus actores.
Indubitavelmente a crise da Justiça é evidente. Mas pelos sintomas da crise não debelada, talvez até porque mal diagnosticada nos seus múltiplos factores, querer "matá-la", destruí-la na imagem pública aos olhos dos cidadãos, é um crime de que todos nós, responsáveis directos e indirectos, havemos de responder historicamente. Sem Justiça não há Estado.
Já todos constatámos não ser possível manter em salvaguarda, nos termos em que as regras actuais estabelecem, o "segredo de justiça". Só quem não quer ver é que não reconhece que o segredo sobre tudo "morreu". Só é possível preservá-lo quando aqueles que o conhecem o guardam. Pululam por aí tantos "segredos violados". Constrói-se histórias e histórias sobre eles. Pressupõe-se, cínica e candidamente, que só quando se pronunciar a sentença se fará a justa justiça. Aponta-se "fabricadores" de processos ditos inventados.
Já se tornou do domínio popular que a aplicação da justiça não deriva de uma ciência exacta, mas da interpretação humana de leis e circunstâncias. Continua, é certo, a ser difícil ao povo entender como é que um juiz manda arquivar um dado processo e outro manda abrir e seguir para julgamento.
Ou perceber o desfecho diferenciado a Sul e a Norte na acusação a jornalistas de eventual infracção relativamente ao respeito do tal segredo de justiça. Ou aceitar que conversas reais gravadas não "existem" ou não "existiram" porque não têm sustentação jurídica ou constitucional.
Não é possível atribuir este estado de coisas ao preço de viver em democracia. É uma tremenda injustiça. Imputar à democracia este desgaste sobre a "máquina da Justiça" é estar a cavar uma vala perigosa em que todos podemos sucumbir».

PAQUETE DE OLIVEIRA | JORNAL DE NOTÍCIAS | 21.06.2007 

Comentarios (6)add
... : Paga Nini
Muito bem, Sr. Paquete de Oliveira.
Mas neste Portugal que querem adormecido, onde todos botam figura falando sobre justiça (repare justiça com "j" pequeno), onde um simples funcionário camarário que, ao que parece, até indicou mal as suas habilitações literárias, se alcandora a 1º ministro e, logo no discurso de tomada de posse, bota faladura sobre a justiça, poder-se-á esperar alguma coisa que leve este pobre País a saír da sua mediocridade ?
Vai custar muito, mas eu creio que lá chegaremos!
22.Junho.2007
... : Eça de Queirós Alternativo
É chamar o tocador de flauta de Hamlin, que o porblema fica resolvido.
E que não leve só os ratos da Boa-Hora, mas que aproveite e leve outros também que por aí andam.
Que ratice !
22.Junho.2007
... : Alberto Ruço
«... a aplicação da justiça não deriva de uma ciência exacta, mas da interpretação humana de leis e circunstâncias».

Concordo, mas se o juiz tiver tempo e souber dizer porque razão não pronuncia um arguido e porque razão o pronuncia, a ciência tenderá a ser mais exacta.

Quanto à democracia, como alguém disse, não passa de um sistema de protecção contra a ditadura.

A democracia portuguesa é feita pelos portugueses, tal como a justiça, a saúde, a educação, etc.

Nos dias que correm, parece que só estamos na mó de cima quando se trata de futebol.
22.Junho.2007
... : Armando
Caro eça de queiroz- como o meu comentário não foi publicado, apoio e gostei do seu - mais suave do que o meu " ratum"- pois ia entrando numa grande ratoeira.
26.Junho.2007
... : Administrador In Verbis
Armando:
Apenas para esclarecer que o seu comentário (como o de outros) no item «Perigos da Justiça Alternativa» não foi publicado porque a partir de determinado momento em que apenas havia comentários sobre processos pendentes - algo que não podemos deixar de aqui ser palco de esgrima de argumentos, por muita razão que assista às partes envolvidas - entendemos ser de bloquear esse item. Qualquer comentário posterior não foi nem será publicado, pois as regras que são estabelecidas não podem ser quebradas, nem pelo próprio Administrador.
26.Junho.2007
... : WAM
São estes pequenos( e ao mesmo tempo grandes) acontecimentos que por vezes devastam a credibilidade do sitema judicial português.
A Justiça é um pilar fundamental num Estado de Direito, e ver escrito na mesma frase a palavra rato e a palavra tribunal faz uma "certa confusão".
Como é que seres daquela espécie podem "conviver" no espaço onde são confiados e decididos processos judiciais (a dignidade humana é simplesmente colocada em xeque).
De facto, quando ouvi a notícia na rádio pensei,por momentos, estar viver num verdadeiro mundo Kafkiano.

29.Junho.2007
Escreva o seu Comentario

Este post foi bloqueado. Impossivel adicionar comentarios.


busy
 
< Item anterior   Item seguinte >
Sondagem