header image
Início seta Artigos de Opinião seta O tempo do mundo às avessas
O tempo do mundo às avessas criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
04-Fev-2008
Crónica de João César das Neves, professor universitário, no Diário de Notícias.

 

- Dona Fernanda, então por aqui? Agora me lembro, ainda não lhe dei os parabéns pelo seu homem. Vi-o no concurso da televisão. Que honra! Muitos parabéns! Fiquei orgulhosa como se fosse meu!

- É verdade, dona Cátia. Estamos muito contentes. Foi muito bom, até para compensar a desgraça da minha irmã. Não sabe? Imagine que o marido dela é administrador de um banco.

- Não me diga! Que vergonha! Mas qual? Daquele criminoso, o BCP?

- Olhe nem sei bem. Mas aquilo é tudo a mesma gente. Coitada da minha irmã, anda muito ralada! Felizmente que o amante está muito bem. Era segurança num bar, mas agora conseguiu ficar dado como deficiente por causa de uma sova que levou e o subsídio é excelente.

- Ainda bem! Que sorte! Olhe, essa sorte não tenho eu. Ando muito preocupada com o meu sobrinho. Não, não é com o homossexual. Não, esse está óptimo. Foi ao estrangeiro casar com o amigo e agora até estão a pensar adoptar uma criança por lá. O que me preocupa é o outro, o Zé. Tem um restaurante, imagine. Um restaurante de luxo.

- Ai, coitado! Em que se havia de meter! E tem tido muitas queixas?

- Pois. Calcule que nem sequer usava sabão líquido nas casas de banho e os exaustores são de baixa extracção. Estou com medo que mais cedo ou mais tarde acabe na cadeia, pobrezinho!

- Compreendo, compreendo. As ralações que temos! E então o que é que a traz por cá? Eu vou agora ali à direcção da escola queixar-me. Veja lá que a minha filha me disse que lá na escola não há máquinas de distribuição de preservativos na casa de banho das raparigas. Só na dos rapazes. Não é uma vergonha?

- Um escândalo. Depois se há problemas a culpa é dos pequenos! Eu também tenho de lá ir mas, infelizmente, é derivado ao comportamento do meu Ronaldinho.

- Não me diga que ainda é por causa da gravidez?

- Não, que ideia. Isso está tudo resolvido. Eles os dois trataram a questão com muito bom senso. Nem pareciam ter 13 anos! O aborto correu muito bem e o meu rapaz até já arranjou outra namorada bastante mais velha. Não, o que me preocupa é aquele grupo com que ele anda.

- Qual? A banda de rock satânico? Oh, minha amiga não se apoquente com isso. Nós lá em casa até dissemos ao nosso rapaz para criar uma. Antes isso que andar pelos ATL da paróquia com aqueles beatos a meter patranhas na cabeças dos miúdos. Na banda é muito mais seguro e saudável. Não só é artístico, como abre horizontes e um dia, quem sabe... Olhe, não me preocuparia nada com isso.

- Não, não é isso. Nós também estamos muito satisfeitos por ele andar com a banda. É um excelente meio de educação. Ao princípio ainda me chocavam um bocado as letras das canções, a falar de suicídio e sangue, mas agora até acho graça. Rapazes são rapazes, não é? Não, é muito pior. Ele também anda metido em coisas mesmo graves com aquele outro grupo clandestino. Já ouviu falar, não? Aquele grupo de fumadores que no outro dia até apareceu no jornal por um deles fumar dentro do metro.

- Que horror! O seu filho fuma? Mas isso faz imenso mal à saúde e polui o ambiente. Então ele não pensa no aquecimento global? Esta juventude está perdida!

- Eu sei, eu sei! Tentámos tudo para o afastar do vício, mas nada. O meu marido até quis ver se o interessava em blogs pornográficos, chats

- Que horror! Imagino como anda apoquentada. E nos estudos, que tal anda ele? Os meus antigamente era um castigo. Davam muitos erros de ortografia mas isso agora, com este novo programa para o insucesso escolar, deixou de criar problemas porque já não conta. E, mesmo na Matemática, o que interessa é a criatividade dos miúdos. Se os professores explicam mal que culpa têm os pequenos?

- Eu digo o mesmo. Se eles depois acabam todos no desemprego, ao menos gozem a juventude. neonazis e outras coisas que fossem também um bocadinho subversivas e clandestinas mas não fizessem tanto mal. Mas nada! Ele não larga o cigarro! A culpa é do meu homem e eu já lhe disse. Imagine que quando o miúdo era pequeno lhe dava pistolas e outros brinquedos de violência. Claro que tinha de ter esta consequência, não era?

JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DIÁRIO DE NOTÍCIAS | 04.02.2008

Comentarios (12)add
... : Aberto Ruço
Se bem entendi o texto, pelo menos um dos seus possíveis planos, o Autor chama-nos à atenção para os Valores que parecem vigorar na nossa sociedade.

Os Valores apresentam-se como ideais que solicitam a nossa adesão e manifestam-se seguramente nas nossas condutas concreta no dia-a-dia, que os exprimem de forma mais ou menos clara.

As condutas humanas descritas pelo Autor, embora caricaturais, não nos aparecem como estranhas e, se assim é, reflectem os Valores que influenciam tais condutas.

Que valores?

Se não me engano, o «imediato», o «egoísmo fundamentalista», o «narcisismo», o «rápido», o «fácil», o «efémero», o «aparente», «os corpos Danone», o «embuste».

Isto é, o «nada», o «vazio», a «infelicidade».

Já agora, como é possível conviver-se alegremente, como se não fosse nada connosco, com a mentira descarada daqueles que aparecem socialmente como modelos sociais ou a desempenhar funções que denotam isso mesmo?

Se esses mentem e ganham com isso, ou não perdem, é porque a mentira é um Valor.

05.Fevereiro.2008
... : Calvin
Com a condenação católica do uso do preservativo...o mundo ainda mais às avessas ficará! smilies/grin.gif
05.Fevereiro.2008
... : Zé Povinho
Bem me parece qe querem, pôr, de facto, o mundo às avessas. Ora leiam lá:
Carta Aberta ao Presidente da República a propósito da sua homenagem a D. Carlos
por paperes

O Senhor Presidente, como representante da República Portuguesa (1), em minha opinião, foi infeliz e afrontou a memória da República ao prestar pública homenagem ao rei D. Carlos.

Quem há cem anos morreu não foi o aguarelista, ou o ornitólogo, ou o oceanógrafo, ou o biólogo marinho, ou o meteorologista, ou o ?homem do mar?, o desportista, o caçador, ou o curioso pelo progresso e de gadgets ? como hoje se diria.

Quem há cem anos morreu nem sequer foi o diplomata incompreendido que conseguiu minimizar as perdas do Ultimatum ao negociar o tratado Anglo ? Português de 1890 e mais tarde, em 1899, o desmembramento das colónias, através do tratado secreto de Windsor.

Ou quem, nos intervalos dos seus prazeres pessoais, ia encorajando os esforços de modernização do país.

Quem morreu há cem anos foi um rei que, ao invés do que o senhor afirmou, não era sábio, nem um ?fazedor?.

Quem morreu foi um rei que se entregava aos seus prazeres, navegando, pintando, indo ao teatro e à opera, passeando, caçando ? e que segundo a Rainha D. Amélia nas suas memórias (2) ? ? quando andava a caçar, coleccionava as camponesas da Estremadura e do Alentejo, como quem apanha flores? ? ou viajando, não por cultura ou para satisfazer objectivos diplomáticos, mas antes para correr atrás de actrizes, visitar semi-mundanas, ou as suas amantes, ou os lugares de deboche da época, como o Chabanais, em Paris, ou como, chegou a confessar, para fugir desta ?piolheira?

E que por tudo isto, pouco tempo lhe restava para ?fazer? o que era seu mister e dever que era reinar constitucionalmente.

O rei D. Carlos não ?fez?, nem ajudou a ?fazer?.

O rei D. Carlos não resolveu nem ajudou a resolver a grave crise financeira, criada pelo excesso de endividamento, que colocou a Nação à beira da bancarrota, com a agravante de terem sido dadas em hipoteca, aos credores, Angola, Moçambique e Timor, sujeitas a serem perdidas na simples possibilidade de, em qualquer momento, não se cumprirem os prazos e os montantes estabelecidos para as respectivas amortizações.

Antes pelo contrário agravou a situação, pelos seus gastos pessoais excessivos, disponibilizados sob a forma de adiantamentos do Tesouro por conta dos anos seguintes, sem o conhecimento das Cortes e da Nação.

O rei D. Carlos não resolveu nem ajudou a resolver os conflitos sociais, que se foram agravando em crescendo no seu reinado.

Antes os tentou calar pela repressão, pela mordaça e a prisão.
Pouco antes de instalar a ditadura de João Franco, D. Carlos, escreve-lhe:

?Temos que caminhar para diante, ? e não como erradamente citou ?ir para diante?, aliás citação pouco feliz dado o contexto ? ainda que a luta seja dura e áspera (e espero-a). Paciência, se tivermos que ir para a ditadura? (3)

De seguida dissolve as Câmaras, sem marcação de eleições e, confirma João Franco, não aceitando o seu pedido de demissão.

É o rei D. Carlos que encerra um período de quase 75 anos de liberdades, e instala a ditadura de João Franco.

É o rei D. Carlos que assina, em Vila Viçosa, a 31 de Janeiro de 1908, o decreto prevendo a deportação dos que atentassem contra a segurança do Estado, sem julgamento prévio.

Por esse diploma, o governo fica habilitado a deportar para qualquer das possessões ultramarinas, ao seu alvedrio, encarcerar e pôr na fronteira os indivíduos pronunciados por algum dos crimes compreendidos no decreto de 21 de Novembro. ?Essas condenações seriam proferidas pelo conselho de ministros?, ou seja, sem qualquer intervenção do poder judicial.

Quem morreu há cem anos foi o rei D. Carlos, o perdulário, o que rompeu com a Constituição, o que instalou a ditadura, o que assinou o decreto da repressão.

Foi a esse rei que o senhor prestou homenagem.

Será o Senhor tão ingénuo, ou tão mal informado, ou tão mal aconselhado, ou isso tudo ao mesmo tempo, que não entenda que estas comemorações mais não visam que um duplo objectivo:
Promover e dinamizar a informação e a doutrinação monárquica em prol da restauração da Monarquia em Portugal;
Denegrir a imagem da República, em geral, e da nossa República Democrática em especial.

Creia que apesar do sucesso da cobertura mediática que os monárquicos tem obtido; da sua clara infiltração e influência pontual, a nível dos órgãos do estado, - aliás como a sua homenagem é prova provada - dos comandos das Forças Armadas, da nossa Diplomacia, e em certos sectores da nossa economia, não temo pela República em Portugal.

Viva a República.

paperes, Domingo 3, às 9:53


(1) Constituição da República Portuguesa, Art.º 120º
(2) ?Eu, Amélia, Última Rainha de portugal?, Stéphane Bern, e Prefácio de Dom Duarte de Bragança, Livraria Civilização Editora, pág. 132.
(3) Cartas d?El-Rei D. Carlos I a João Franco a João Franco Castello-Branco, seu último Presidente do Conselho citadas em ?Regicídio ? A contagem decrescente?, Jorge Morais, Zéfiro, pág. 35

05.Fevereiro.2008
... : MARIA
EU DIRIA ANTES: VIVA PORTUGAL QUE TAMBÉM FOI UMA MONARQUIA, E POR ISSO VIVAM OS QUE FORAM OS SEUS MONARCAS!
06.Fevereiro.2008
... : jurista portugues
Onde é que isso fica?

Já chegaram a dizer que a culpa remonta a Alcácer Quibir!
06.Fevereiro.2008
... : Calvin
Monarquia?Mas se até o tido como representante de Deus na Terra, Sua Eminência o Papa, é eleito entre os seus pares, poque teria de levar, sem plesbicito, com o tido como Duque de Bragança?!!!! smilies/cheesy.gif
06.Fevereiro.2008
... : BD
Caro Zé Povinho, ou paperes,
Fazia-lhe bem dar um passeio até à Sociedade de Geografia de Lisboa e tentar (ao menos) entender melhor a época onde os acontecimentos se passaram, perceber as circunstâncias, reconstruindo-as como um historiador. Também V. Exa. não perdia nada se consultasse, por exemplo, The Cambridge History of British Foreign Policy (1783- ) e outras cartas, memórias e estudos para além dos que referiu e que lhe dessem uma visão mais positiva de D. Carlos I. Isto de "bater" nos mortos antigos é muito fácil e goza de total impunidade.
06.Fevereiro.2008
... : Zé Povinho
Caro «BD»
Como simples «Zé Povinho» que sou, não serei tão letrado quanto V. Ex.ª para frequentar a Sociedade de Geografia de Lisboa, muito menos domino a língua inglesa, mas, ou muito me engano, ou a «História» não é, propriamente, uma ciência exacta, ou seja, cada um escolhe a «sua». A «história» de Salazar, por exemplo, receio que não tenha a mesma leitura por parte de democratas e de saudosistas do mesmo!
Em suma, qual a sua «História» de D.Carlos, que ficamos sem saber?
Entre o «pintor» e o «puntanheiro», que escolherá para determinar o seu «valor»? As suas publicas virtudes ou os vícios privados?
Viva a Republica que permite este confronto de ideias!!!
07.Fevereiro.2008
... : Zé Povinho
PS - Quis escrever «putanheiro».
07.Fevereiro.2008
... : BD
Caro Zé Povinho, a sua réplica foi urbana e respeito-a integralmente. Faz bem às ideias serem discutidas livremente. Pergunta-me pelo meu D. Carlos? Olhe, o homem tinha as suas virtudes e os seus defeitos como todos nós, mas do que eu não gostei mesmo nada foi como tudo acabou no Terreiro às mãos de uns assassinos quaisquer. Mas esqueçamos isso. V. Exa. foi educado e tem a sua opinião que, embora discorde dela, me merece o devido respeito.
07.Fevereiro.2008
... : Zé Povinho
Caro BD
Pretender ter liberdade de expressão, é reconhecer igual liberdade aos outros e há-de ser no urbano e salutar confronto de ideias que o Homem se realizará em termos de progresso civilizacional.
Os meus cumprimentos.
08.Fevereiro.2008
... : Rei D. Carlos
alguém me mostrou, um dia, documentos que comprovam que o regicidio foi um peça de teatro "real, mas ilusório" e que na verdade o nosso rei não foi suicidado, mas apenas se isilou sob um nome de código e mesmo na zona de Alcântara, perto do Palácio das Nessecidades. Só foi reconhecido mais tarde, em 1936 e em Arganil, onde teve mais uma vez que simular a sua morte acidental por afogamento no rio.
Conheço essa pessoa e tenho cópias desses documentos, nomeadamente cartas do Gago coutinho para ele ( sob o nome do pseudónimo).
Para fazer face às despesas relacionadas com oseu isilio oculto, continuou a vender alguns bens, da casa real por meio de situações ....... e por comum acordo de alguns......mais próximos.

23.Abril.2008
Escreva o seu Comentario

Este post foi bloqueado. Impossivel adicionar comentarios.


busy
 
< Item anterior   Item seguinte >
Sondagem