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Vale a pena ler um "livrinho", publicado pela candidatura do Dr. António Costa, que revela a lista dos nomes que integram a sua comissão de honra. Não deixa de ser um "livrinho" elucidativo sobre a decadência do regime e a fragilidade dessa mítica "sociedade civil" que alguns liberais querem à força libertar do Estado que hipoteticamente a asfixia. O Estado, no entanto, é o seguro de vida desses hipotéticos asfixiados: garante-lhe os negócios, fornece-lhe os subsídios, oferece-lhes cargos e assegura-lhes a sobrevivência. Sem o acesso ao poder, essa "sociedade civil", que enfeita sempre as listas de qualquer candidato vitorioso, esfumar-se-ia na sua própria insignificância. Não por acaso, nestas eleições intercalares para Lisboa, encontra-se toda, arrumada por ordem alfabética, na comissão de honra do Dr. António Costa. Uma pessoa começa a ler o tal "livrinho" e lá estão os mesmos nomes de sempre, os escritores consagrados, os jornalistas do costume, os empresários de sucesso, os advogados do poder, os artistas mais variados, o grão-mestre da Maçonaria, alguns políticos necessitados e o mais que vier à rede, numa lista que está, ao que parece, em actualização permanente. Se o resultado das sondagens se mantiver, é natural que, em Julho, o Dr. António Costa possa publicar a sua comissão de honra, em fascículos, depois de ter reunido à sua volta todo o jet set do regime.
Como é óbvio, nenhum destes apoiantes conhece o programa do candidato que apoia. Por uma razão simples: o candidato ainda não tem programa. Em contrapartida, tem sérias hipóteses de vencer - o que facilita a adesão e faz subir o entusiasmo. Poder-se-ia dizer que, independentemente, do programa, a personalidade do candidato, só por si, oferecia as garantias necessárias. Infelizmente, a personalidade do Dr. António Costa é um enigma. Ninguém sabe bem por que é que resolveu sair do Governo, onde se notabilizou pelo poder que conseguiu concentrar. Muito menos o que vai fazer para a Câmara de Lisboa, onde pretende ficar nos próximos seis anos. Porque tem um projecto para a cidade? Não se conhece. Porque se cansou de ser ministro? Não é provável. Porque pretende substituir o Eng. Sócrates à frente do partido quando a oportunidade surgir? Não é suficiente.
Isto não quer dizer, naturalmente, que a colorida comissão de honra do Dr. António Costa se reduza a um grupo de oportunistas, prontos a tirar partido do seu apoio e da sua aproximação ao poder. Mas isto mostra, com certeza, a asfixia em que vivemos e a dependência em que nos vamos enterrando, num país que, de um modo geral, continua a viver à custa do Estado. Porque sem a vitória quase assegurada nunca o candidato do PS recolheria a fina-flor do regime e o harmonioso apoio da dita "sociedade civil".
Só é possível dignificar a Assembleia da República, salvaguardar os direitos da oposição e assegurar a existência de um debate plural, como exigiu, esta semana, o Presidente da República, se a política reflectir uma sociedade livre e independente e não uma massa subserviente que necessita dos benefícios do Estado e dos favores de quem manda.
A comissão de honra do Dr. António Costa, ao revelar a força agregadora do poder, revela também a fragilidade de uma "sociedade civil" que se rende perante a força política e se deixa atrair pelos benefícios de uma vitória. Por outras palavras, a farfalhuda lista de nomes que enfeita a candidatura do PS é a prova do desprezo que se tem, em Portugal, pela opinião livre, pelo debate sério e pelos direitos da oposição. A atracção pelo poder e o gosto disfarçado pela autoridade justificam muitos dos excessos que têm sido cometidos nestes últimos tempos. Se assim não fosse, como é que o líder do PS do Porto conseguia dizer, perante a passividade geral, que um inquérito disciplinar a um professor por delito de opinião é um "procedimento absolutamente normal". Perfeitamente normal? Só se tivermos deixado de viver numa democracia perfeitamente normal.
Já o desprezo pela oposição faz parte do dia-a-dia. No isolamento a que são votados os seus candidatos, no regimento da Assembleia da República que transforma os debates mensais com o Governo numa sessão de propaganda do primeiro-ministro e na forma habilidosa como a maioria dos dirigentes se afasta do partido, nestes tempos difíceis. Ainda esta semana, o Dr. Santana Lopes decidiu chamar "nazi" e "estalinista" ao líder do PSD. Depois viu aquilo nos jornais e parece que não gostou. Por uma questão de "boa educação", decidiu retirar os adjectivos. Como é óbvio, o Dr. Santana Lopes não sabe o que diz - se não, não confundia "boa educação" com falta de sentido histórico e político. Mas houve logo quem elogiasse a "coragem" deste arrependimento público. Normal, pelos vistos, seria o Dr. Santana Lopes não se arrepender.
CONSTANÇA CUNHA E SÁ | PÚBLICO
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