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O absolutismo da maioria criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
06-Jul-2007

O Governo exonera, pune e processa. É normal ou será autoritarismo ?
Um artigo da autoria de Fernando Diogo e Rosa Pedroso Lima Ângela Silva, no Expresso, de hoje.

Adão Mendes é arguido num processo por difamação e insulto ao primeiro-ministro. A acusação fala numa concentração ilegal que Adão terá organizado em Guimarães e que estragou o dia de Governo aberto marcado, em Outubro, para aquela cidade. "Nem sequer lá estava, quanto mais organizei aquilo!", responde indignado ao Expresso, depois de ter sido notificado e prestado declarações. Continua arguido. Durante o inquérito foi confrontado com uma série de fotografias dos manifestantes. "Não sei quem as tirou, provavelmente a polícia".
Francisco Vieira sabe. "Durante a concentração vimos várias pessoas, à civil, a fotografar-nos. Sei que não eram polícias de cá, que esses são conhecidos", acrescenta. Esta semana, recebeu a notificação. É dirigente do Sindicato dos Têxteis do Minho. Tal como são sindicalistas outros cinco notificados para responderem pelo mesmo processo. "Eu estava lá como cidadão. Então vamos tantas vezes a Lisboa ter com o primeiro-ministro e quando ele cá vem não fazemos nadar". Os motivos que juntaram pouco mais de 40 pessoas junto ao Palácio Vila Flor durante horas até ver passar o chefe do Governo foram surgindo à medida que as horas passavam. "O desemprego e o encerramento do centro de saúde e das escolas eram os principais motivos", diz Francisco Vieira. O aparato policial era mais que muito. "Nem sequer nos deixaram aproximar. Ficámos em 15 metros de passeio a manifestarmos a nossa indignação. Estamos num país livre, não é?"
Vigiados pela polícia e muitas vezes identificados, os sindicalistas habituaram-se a esta "nova moda". Depois dos casos da DREN, da demissão da directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho e de outros episódios (ver caixa ao lado), há quem veja, como Vasco Pulido Valente, sinais de "crescente autoritarismo do poder" ou mesmo de "profunda perversão do regime".

Cavaco atento
Há poucos meses, na cerimónia comemorativa do 25 de Abril, Cavaco Silva apelava a uma "mudança da cultura política" e pedia que os protagonistas "se empenhem mais na prestação de contas aos cidadãos". A leitura das palavras do Presidente e do seu apelo ao "escrutínio dos poderes por parte de uma comunicação social isenta e responsável" ganha, nesta altura, um tom premonitório. Conjugadas com a intervenção de Paulo Rangel, da bancada do PSD, que se referiu à "claustrofobia democrática" do Governo de maioria absoluta do PS, as palavras de Aníbal Cavaco Silva assumem hoje um novo significado e um novo peso político.
Belém está atento. Na calha para promulgação estão dois diplomas vitais para julgar a natureza do actual ‘poder rosa’: são eles o decreto sobre a interconexão de dados da Administração Pública e o Estatuto dos Jornalistas (ver textos abaixo). Ao que se sabe os diplomas têm vindo a ser objecto de especial atenção da Presidência da República, facto a que não serão alheios quer as dúvidas lançadas pela própria Comissão de Protecção de Dados (mesmo depois do parecer positivo ao projecto) quer a contestação ao Estatuto dos Jornalistas desencadeadas pelos mais diferentes sectores profissionais, sociais e políticos.
Nos últimos dias têm-se multiplicado os rumores sobre contactos da Presidência da República com personalidades especializadas em cada uma das áreas pelo que não será de excluir a hipótese de um ou mesmo os dois diplomas virem a ser remetidos para apreciação no Tribunal Constitucional. Ou em caso extremo o exercício inédito por parte de Cavaco do veto político.

Administração pública vigiada
A Caixa Geral de Aposentações vai poder cruzar dados dos funcionários públicos e das suas famílias - em matéria fiscal, segurança social, Educação e justiça - para evitar falsas declarações ou a atribuição injustificada de pensões e prestações sociais. A ideia podia parecer interessante, até se tropeçar nos problemas. O Governo queria uma base de informações. A Comissão de Protecção de Dados (CNPD) trocou-lhe as voltas e apenas permitiu uma "conexão de dados" casuística e previamente justificada. O diploma foi aprovado em Conselho de Ministros e aguarda promulgação de Belém. O seu teor final não foi divulgado, apenas se conhecendo as reservas das organizações de trabalhadores da Função Pública - altamente críticas - e as dúvidas levantadas pela própria Comissão de Protecção de Dados. É que o presidente e um vogal admitiram a existência de "uma ofensa inconstitucional ao princípio da igualdade" desde logo pelo próprio objectivo do diploma que trata os funcionários públicos de forma diferente dos restantes trabalhadores. Os comissários tiveram dúvidas, Cavaco pode querer esclarecê-las no TC.

10 CASOS

• Um despacho das Finanças exigiu o registo dos funcionários que aderissem à Greve Geral. A Comissão de Protecção de Dados chumbou a medida

• A directora Regional de Educação do Norte suspendeu e abriu um processo disciplinar a Fernando Charrua, depois de ter recebido informações de que teria "insultado" o primeiro-ministro e brincado com a sua licenciatura na Independente. O presidente da Câmara Municipal de Vieira do Minho queixa-se de ter sido "enxovalhado" pela responsável da DREN por ser padre

• O primeiro-ministro processou Balbino Caldeira, autor do blogue ‘Do Portugal Profundo’ que levantou as primeiras dúvidas sobre a sua licenciatura

• A coordenadora da Sub-Região de Saúde de Castelo Branco avisou "todo o pessoal" de que a correspondência enviada a "determinados funcionários" será aberta

• A governadora civil de Lisboa declarou ilegal e proibiu uma manifestação de militares. Os oficiais foram filmados e alvo de processos disciplinares.

• O ministro exonerou a directora do centro de saúde de Vieira do Minho, por não ter mandado retirar uma fotocópia com comentários jocosos a uma entrevista do próprio ao 'DN'

• Depois de três pareceres negativos o Governo aprovou a interconexão de dados sobre funcionários públicos

• O ministro dos Assuntos Parlamentares avançou com diploma que aumenta penas e sanções à Comunicação Social

• O governador civil de Braga processou manifestantes por difamação ao PM

• O Governo colocou todos os serviços de informações sob um comando único na dependência directa do primeiro-ministro.


«Boys» é uma coisa, medo é outra

O PSD teve sorte: depois do discurso que fez no 25 de Abril a denunciar um clima de claustrofobia democrática, a sucessão de episódios das últimas semanas criou o caldo de cultura ideal para o partido ‘surfar’ a onda. Depois de uma reflexão no núcleo-duro do mendismo - que não deixou de pesar os riscos de um eventual excesso de irreverência - saiu fumo branco. O partido decidiu lançar, a partir da próxima semana, um cartaz onde se lê: `Não tenha medo. se o Governo o quer calar, nós falamos por si’.
Luís Campos Ferreira, que substituiu a agência Ipsis na coordenação do «marketing» da
campanha de Fernando Negrão, diz que este não pretende ser um cartaz partidário mas sim "um apelo à indignação e cidadania por parte de um partido que sempre defendeu a liberdade".
O faro político de Marques Mendes tratou do resto. Na declaração que fez ao Expresso (ao lado) e no discurso, de quinta-feira, no arranque oficial da campanha do PSD a Lisboa, o líder social-democrata tratou de se precaver em relação aos que possam querer lembrar os pecadilhos do PPD/PSD em matéria de tentativas de controlo ou clientelismo.
O argumento que antecipou é este: "Isto não é uma questão de «boys», da oposição ou do Governo. É alguma coisa que não víamos em Portugal há 30 anos".
Para os que achem a campanha arriscada, registe-se que a saída da Ipsis teve precisamente a ver com o facto de a direcção do partido querer assumir um tom mais irreverente no seu «marketing» político.

A vez dos Jornalistas
O mais violento ataque à liberdade de imprensa", segundo um abaixo-assinado de jornalistas, "normas gravíssimas", para o sindicato, ou "um cerco" e "uma tentativa de castração" para Francisco Pinto Balsemão. São estas as reacções ao pacote legislativo do Governo para os «media» que engloba um novo estatuto dos jornalistas e uma lei sobre a concentração dos meios de comunicação social. As dúvidas sobre os limites impostos à liberdade de informar e de ser informado une patrões e jornalistas. O Governo, pela voz do ministro dos Assuntos Parlamentares, não cede. No encontro da Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social, Balsemão proferiu um dos discursos mais duros contra a política governamental do sector, denunciando "uma tentativa organizada de controlo dos «media»" que "põe em causa a liberdade de informar e de ser informado, tão arduamente conquistada ao longo dos últimos 30 anos". O ministro acusou o toque, mas fugiu ao embate. "Quando convido pessoas para um evento, tento ser bem-educado e avisá-las ao que vêm", disse.

6 Opiniões

Marques Mendes
Vive-se em Portugal - em particular na Administração Pública - um clima de intimidação e de medo, de perseguição e intolerância, de saneamento e delação. Na pior tradição autoritária, nem sequer falta um delator de serviço. Isto não é uma guerra de «boys». É um clima de intolerância e asfixia democrática, fomentado e apadrinhado pelo Governo. Esta situação é grave em si mesma e pelas suspeições que acarreta, por exemplo, nas avaliações na função pública. É legítimo perguntar: com este clima de medo e de intolerância, será que as avaliações na Administração Pública são feitas em razão do mérito ou da fidelidade política? Há 30 anos que não se via um clima destes em Portugal. Nem sequer com outros governos socialistas do passado.

Jerónimo de Sousa
Começam a existir sinais em excesso de que o Governo tem uma concepção autoritária do poder, que pode resvalar para tiques antidemocráticos. Durante a preparação da greve geral, por exemplo, recorreu-se a métodos persecutórios e intimidatórios. Na Saúde há demasiadas situações que começam a criar a ideia perigosa do "tudo pelo Governo, nada contra o Governo". E nós lembramo-nos do que o espírito salazarista do "tudo pela Nação" queria dizer. Para evitar este resvalamento e esta espiral, o Governo precisa de uma sacudidela. No tempo da maioria Cavaco havia traços de arrogância e de autoritarismo, mas hoje estes tiques reflectem-se no plano do comportamento político dirigido, alimentado com a delação e a denúncia, que são repugnantes. Sublinho que a situação não é generalizada. Mas, se não se põe cobro a isto, não sabemos onde pode acabar.

Alberto Arons de Carvalho
Não acho que existam sinais de autoritarismo, nem compreendo a campanha na Comunicação Social sobre o Estatuto dos jornalistas que até aumenta os direitos desses profissionais. Aceito que pontualmente, num ou noutro aspecto, como agora na história do Centro de Saúde de Vieira do Minho ou no caso da DREN, tenham sido cometidos erros. Estou em completo desacordo com aqueles que teorizam sobre estas matérias e defendem que o Governo é o impulsionador destas atitudes. Mesmo na questão das colocações a polémica que se tem estado a gerar é idêntica à que se gerou Governos anteriores. Não há nada de novo.

Francisco Louça
Há sinais fortíssimos de prepotência, fechamento e abuso da maioria absoluta. O Governo desencadeou este fenómeno que assume numa ou noutra região aspectos mais virulentos. É o caso do distrito de onde domina uma cultura de favorecimento política criada por Mesquita Machado e que o aparelho local do PS replica de forma muito agressiva. De qualquer forma ao cobrir estas situações o Governo está não só a dar um sinal de aprovação ao aparelho partidário, mas também a ilustrar a sua concepção de que a política existe para ser instrumentalizada.

Paulo Portas
Acho que há uma deriva autoritária. Os defeitos da maioria absoluta de um só partido, que normalmente se sentem mais ao fim de cinco ou seis anos, neste caso estão à vista ao fim de dois. Falei nisso logo no congresso do CDS, quando considerei grave a acumulação de poder do primeiro-ministro, que trabalha directamente com o secretário-geral das forças de segurança. Também falei neste convite óbvio à auto-censura que resulta do estatuto dos jornalistas, e considerei grave a forma como Pina Moura assumiu que iria dar uma orientação ideológica aos órgãos de comunicação social que superintende. (...) Há dirigentes da administração pública que se acham pequenos Sócrates e mandam fotografar manifestações, ministros que mudam dirigentes da administração pública conforme posições políticas, e perante tudo isto há o silêncio do primeiro-ministro. Estando calado, significa que aplaude, ou autoriza, ou é cúmplice.

Adelino Gomes
Acho que o Governo não tem sinais, mas tiques de autoritarismo. Digo isto, porque ainda não percebi se estamos perante situações que, de facto, se vão consolidar e tornar-se em substância da própria acção política. No entanto, olho com preocupação para o que vejo. o certo é que se estes casos não representam uma vontade política, o Governo já devia ter actuado e feito declarações públicas que condenassem o que se está a passar. O mais preocupante é que estes tiques - se não forem ultrapassados - podem ficar assim. E, depois, o Governo não conseguirá ultrapassá-los.

Comentarios (3)add
... : Mário Rama da Silva
Quando o primeiro-ministro processa o autor do blog que suscitou dúvidas à sua licenciatura, ainda hoje mal explicada para qualquer licenciado (4 cadeiras por um só professor???), está - queira ou não - a dar um sinal do seu modo de agir.
Este comportamento de um primeiro-ministro e secretário-geral do partido no poder não pode deixar de constituir um exemplo para os seus seguidores.
Bem avisou Jorge Coelho: "Quem se mete com o PS leva".
Ainda assim, creio que nem ele pensava que as suas palavras iam ser levadas tão à letra.
10.Julho.2007
... : Observador
Mas parece-me que quem se mete com os portugueses, quando menos esperar, acabará por levar no fim!!! smilies/grin.gif smilies/grin.gif smilies/grin.gif
26.Julho.2007
... : anti
o dito está a construir um bloco central de partido único, semelhante ao percurso antigo de a bem da nação não pode falar contra. Atenção sou liberal e vejo estes tiques pequeno burgueses medíocres como a manifestação do fado, benfica, caracóis, fandango, tourada etc,etc,etc. A parolada está no poder, o povo gosta e compra sem ver nada. O caminho do socialismo deu este anátema e o homem continua sem adversário à altura, eu não me ofereço porque vou para o estrangeiro LONDON CITY logo que possa. Este é o único país que obrigou metade da população a emigrar. Começou com o outro génio a recusar o plano marshall, depois atiram-nos para uma guerra colonial. Em seguida temos uma revolução comunista com uma horda de bandidos à solta e 1 milhão de refugiados. Não contentes gastam tudo e provocam uma inflação galopante com desvalorização da moeda, só o FMI aliás IMF trava isto. Para finalizar andam há 20 anos a viver de esmolas. O duplo défice crónico continua a crescer e o problema é se alguém diz alguma coisa contra o governo ??? ZEROS todos eles não passam de falhados.
06.Agosto.2007
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