|
POR DR. MANUEL RAMOS SOARES. O secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses escreve sobre o mapa judiciário.
A reforma do mapa judiciário em discussão
no Parlamento assenta em dois vectores centrais: nova organização
territorial e novo modelo de gestão. Ambos cruciais para modernizar o
sistema de justiça, mas qualquer deles com pontos de crise para a
travar.
É óbvio que ajustar a oferta judiciária à actual realidade
demográfica e processual só faz sentido se implicar encerramento de
tribunais. O Governo, para não o assumir, iniciará a experiência em
três circunscrições onde não há o custo político da contestação.
Veremos o que fará quando a reforma chegar àquelas comarcas com poucas
dezenas de processos.
Mas, além disso, adivinha-se a existência de
uma agenda política oculta. Esta nova arrumação territorial da justiça
deverá servir de catapulta para lançar a futura alteração do mapa
administrativo do Estado e das Autarquias, através do reagrupamento dos
distritos e da concentração de concelhos e freguesias.
Só assim se
percebe a opção por uma divisão territorial para a justiça assente numa
realidade completamente desconhecida e artificial, como são as NUTS. Ao
desagregar o território dos tribunais da memória histórica e cultural
das populações perde-se essa ligação simbólica e efectiva, e ganha-se
distanciamento e facto consumado para ensaiar a mudança de outros mapas
de serviços e funções do Estado.
O que sobrará desta reforma quando,
desvendada a agenda oculta, se confrontarem as tensões reformistas da
eficiência e da racionalidade com as pressões conservadoras dos
interesses instalados?
Há outro factor, introduzido como novidade de última hora, que pode minar a reforma por dentro, pela área-chave do
novo modelo de gestão. Trata-se da possibilidade dos tribunais poderem
ser presididos por juízes de instâncias hierarquicamente superiores,
sem ligação efectiva à circunscrição, sem conhecimento da sua realidade
processual e humana e impostos sem legitimação pelos pares.O choque
de gestão, que reconheço ser necessário, não pode ser feito com
sacrifício da cultura de independência de espírito e de autonomia de
consciência, que confere ao cidadão a garantia de encontrar no juiz
alguém capaz de decidir com liberdade, vinculado apenas à lei e
àjustiça, criativo e humano, apetrechado para adaptar a rigidez formal
da lei à multiplicidade das situações da vida. E não alguém manietado
por temores reverenciais, formatado em práticas burocráticas
pré-definidas, repetindo mecanicamente as decisões, enfim,
simplesmente, um juiz funcionalizado e hierarquizado.
Não há
independência sem liberdade e não há liberdade com hierarquia, ponto
final.Os tribunais precisam de liderança exercida em ambiente de
confiança e consenso, assumido com naturalidade, e não de chefia
hierárquica estabelecida em relações de subalternização.
O regresso
desse modelo de gestão hierarquizada a partir dos tribunais superiores
e da alta magistratura é culturalmente conservador e pouco propício à
modernização dos métodos de trabalho e das rotinas instaladas. A nova
cultura de organização e gestão para o futuro terá de passar pelo
envolvimento dos juízes mais novos e pela aposta na sua capacidade de
liderança. Sob pena de se continuar a perder tempo precioso.
Acredito
que alguns juízes se sintam tentados a concordar com uma solução que
cria mais lugares de carreira para desembargadores. Do meu ponto de
vista isso é errado. As sedutoras vantagens profissionais são menos
importantes do que a independência dos juízes, que lhes garante o
respeito e confiança dos cidadãos.
EXPRESSO | 31.05.2008
Comentarios () |
|
|
|
|
|