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O bastonário dirigiu ofensas gravíssimas a magistrados e a políticos, não tendo concretizado nenhuma das acusações que fez. Nenhum advogado pode permanecer em
silêncio sobre a situação que a Ordem dos Advogados está a atravessar.
Os seis meses que levam os actuais órgãos da Ordem no exercício das
suas funções têm sido dos mais conturbados da história desta
instituição, o que nos deixa preocupados com o que se avizinha para os
próximos tempos.
Pinto foi eleito bastonário com
um programa extensíssimo, cujas medidas eram quase todas inexequíveis.
Passados seis meses de exercício do mandato, parece que todo o seu
programa ficou resumido a duas medidas: a atribuição a si próprio de
uma elevada remuneração e a exclusão dos advogados estagiários do
patrocínio oficioso. Em tudo o mais, o bastonário da Ordem dos
Advogados concentra-se em intervenções polémicas na comunicação social,
disparando em todas as direcções e criando sucessivos inimigos,
internos e externos. Este tipo de atitude arrasa a credibilidade da
Ordem dos Advogados, que deveria ser cuidadosamente preservada por quem
exerce as funções de bastonário.
Em termos externos, o bastonário
dirigiu ofensas gravíssimas aos magistrados, não tendo sido capaz de
indicar um único exemplo das acusações que fazia. Com isto, perdeu toda
a credibilidade para as denúncias concretas que deveria fazer. Na
verdade, se, em vez de lançar acusações genéricas, denunciasse junto
dos competentes órgãos disciplinares dos magistrados os abusos de que
afirma ter conhecimento, prestaria um muito melhor serviço aos
advogados.
O bastonário lançou também acusações genéricas de
corrupção a políticos, mas não foi capaz de as concretizar. Com este
tipo de discurso demagógico e populista, o bastonário falará ao coração
do homem da rua, mas faz perder à Ordem dos Advogados a condição de
interlocutor credível na área da justiça, o que o deveria preocupar.
O
bastonário tomou ainda posições políticas pessoais, nas quais não
deveria envolver a Ordem dos Advogados. Já se percebeu que não gosta de
sindicatos, sejam eles de magistrados, de polícias ou outros, a quem
acusa de serem responsáveis pelo deficiente funcionamento dos sectores
da justiça e da polícia. Também é contra o facto de a violência
doméstica ter passado a crime público, considerando existir aí um
feminismo legal. Cabe perguntar, no entanto, o que ganha a Ordem dos
Advogados com a exposição destas opiniões pessoais do seu bastonário.
A
situação mais grave é, no entanto, a ruptura interna que se está a
verificar na Ordem dos Advogados. Logo na primeira vez que concorreu a
bastonário, Marinho Pinto tinha proposto a extinção dos conselhos
distritais da Ordem. Sendo esta proposta inexequível, pois necessita de
alteração do Estatuto, prefere ignorar as posições desses conselhos no
exercício do seu mandato, pondo em causa a unidade da Ordem.
Quanto
à recente decisão de excluir os estagiários do acesso às defesas
oficiosas, com o argumento de que não estão preparados para o efeito,
não se vê como é que o advogado estagiário poderá fazer o seu tirocínio
se não tiver possibilidade de exercer a profissão ao longo do estágio,
pelo que esta decisão, só por si, põe em causa o próprio conceito de
estágio de advocacia. A intenção é clara: dificultar aos estagiários o
exercício da profissão de advogado, o que constitui uma forma ínvia de
restringir o acesso à profissão.
Finalmente, há que criticar a
atribuição da remuneração ao bastonário, o que, embora fosse promessa
eleitoral, não deixa de constituir uma situação aberrante no quadro das
actuais dificuldades por que passa grande parte dos nossos colegas. Mas
o mais escandaloso é o subsídio de seis meses de remuneração, a receber
no fim do mandato. Se Marinho Pinto perder as próximas eleições para
bastonário, receberá uma indemnização superior à de um trabalhador que
tenha sido ilicitamente despedido. Só isto deveria fazer pensar
Luís
Menezes Leitão
Advogado e professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa
PÚBLICO | 17.07.2008
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