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Não sei se a Justiça hoje estará ou não melhor do que ontem, porque para poder
pronunciar-me sobre tal teria de ter em conta factores múltiplos que não
dominarei. No entanto, não creio que isso seja o mais relevante. O que importará, isso sim, como noutros domínios da nossa vivência
colectiva, é o sermos capazes de preservar o que ela tenha de bom e
melhorar/corrigir o que se mostrar como menos bom ou mesmo mau.
O progresso civilizacional opera-se sem autocontemplações de que a perfeição
terá sido alcançada, nem pessimismos que nos inibam de corrigir e inovar.
Todavia, quando hoje em dia se discute a Justiça que temos ou deixamos
de ter, o modo e as circunstâncias em que tal discussão, por vezes, tem lugar,
leva-nos a questionar se os respectivos intervenientes estarão, verdadeiramente,
empenhados na dignificação da mesma ou, ao invés, apenas serão movidos por
guerras pessoais, procura de afirmação de «poder» dentro dela, exibição de
egozinhos vaidosos ou utilizando-a como trampolim de interesses não menos
pessoais ou de grupos restritos.
Mas, bem vistas as coisas, a Justiça
não será neutra e, ainda que aparecendo, aparentemente, acima dos conflitos
sociais e reguladora dos mesmos, reflectirá, em última instância, a dinâmica de
tais conflitos e correlação de forças em presença.
E, assim, talvez o
modo e as circunstâncias em que o debate à volta dela possa ocorrer,
ultrapassando os personagens em si que nele intervêm, seja, apenas, o reflexo
das clivagens cada vez mais acentuadas que se vão registando na nosso tecido
social, de enriquecimento chocante/duvidosa origem de uns, em contraste com o
empobrecimento acentuado de outros e onde, nomeadamente, uma classe média cada
vez o menos é.
LUÍS GANHÃO | ADVOGADO | JORNAL «REGIÃO SUL» | 19.02.2008
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