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Receia-se que a revolta dos professores, mais do que fruto de uma
oposição às medidas governamentais para o sector do ensino, seja já uma
expressão, entre outras (como a revolta das respectivas populações face
ao fecho de serviços de saúde), dum mal-estar mais profundo que
atravessará a nossa sociedade, como, pós 25 de Abril, porventura,
jamais se terá observado.
O indicador de desigualdade social no nosso país é de 7,9, quando a
média europeia é de 4,7; enquanto se pede sacrifícios aos sacrificados
de sempre, o desemprego e o trabalho precário grassam e uma classe
média cada vez menos o é, há quem, no lado oposto, especuladores
bolsistas e imobiliários, administradores e gestores de bancos e
grandes empresas (onde ex-governantes tomam, entretanto, assento),
ganhe num só mês os que os demais levam anos a auferirem.
Para os primeiros impõe-se o cutelo do «poder governativo», para os segundos alivia-se a consciência com o «mercado»!
A
pretexto da racionalização do Estado, mas tantas vezes servindo
interesses privados, numa lógica de privatizar tudo quanto nele possa
dar lucro e «socializando» o que dê prejuízo, vimos magistrados,
professores e funcionários públicos em geral serem lançados pela classe
política governante na praça pública e nesta serem vexados a título de
grupos pretensamente cheios de escandalosas mordomias, ociosos (a),
etc., como se os parâmetros organizacionais em que se movessem e os
ditos privilégios possuídos fossem, até, da sua responsabilidade e não
fruto de diversas políticas governativas.
A «maioria parlamentar» deu origem à «sobranceria governativa» e as
pessoas deixaram de ser tratadas como tal, para serem reduzidas a
números estatísticos e orçamentais.
Ora, dado que não haverá,
como alguém escreveu, «racionalidade» sem «emoção», que, para o caso, o
mesmo é dizer, sem levar em conta as «pessoas», o Governo estará a
colher agora, nas revoltas que vão rebentando um pouco por todo o lado,
aquilo que semeou.
Só não vê, quem estiver cego pelo exercício/vaidade do Poder pelo Poder!
(a)
Quando a Ministra da Educação, numa entrevista concedida a um canal
televisivo logo após a manifestação que trouxe para a rua cerca de 100
000 professores, disse «até reconhecer a insatisfação dos mesmos por
lhes ser pedido mais trabalho e mais esforço», não estará, cinicamente,
a passar para a opinião pública a ideia de que os professores, afinal,
só protestam por serem malandros, pouco amigos de trabalhar?
LUÍS GANHÃO - ADVOGADO | JORNAL REGIÃO SUL | 12.03.2008
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