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Eu, os outros e o Estado criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
26-Mar-2008
Prezo a Liberdade (por ela sempre me bati, mesmo antes do 25 de Abril, quando, ainda adolescente, vi artigos meus, por mais modestos que fossem, sofrer os efeitos do famigerado «lápis azul» em páginas de jornais por onde expressava o meu descontentamento), o poder ser «Eu» e realizar-me enquanto tal!
Mas, mau grado a necessidade dessa Liberdade, dêem-me todos os instrumentos necessários à minha realização pessoal, obrigando-me, contudo, a viver numa ilha só, e recusarei tal, porque subjacente ao meu «Eu», estará, complementarmente, a minha condição de animal «social», a minha necessidade dos outros e da sua convivência afectiva.
E se a realização do meu «Eu» há-de passar, necessariamente, pela minha convivência com os outros, terei de saber, então, construir pontes de entendimento e, sobretudo, de solidariedade com eles, que nos permitam, sem marginalizações recíprocas, procurar a felicidade a que aspiraremos e teremos direito ou o Sol quando nascesse não fosse para todos!
 
Ora, se pós 25 de Abril sonhei e procurei ver o Estado, de Direito e Democrático, como expressão da nossa vivência colectiva feita de Liberdade, mas, também, de Fraternidade/Solidariedade, aquilo que hoje observarei é o esvaziamento progressivo desse mesmo Estado nesta última vertente, ainda que a pretexto da sua racionalização e de correcções que, porventura, nele fossem devidas, e a sua substituição por essa entidade sem rosto e sem coração que dá pelo nome de «mercado», regido cada vez mais pelos interesses especulativos da alta finança, fazendo de cada um de nós, não um ser Humano, de afectos, mas um «número», um animal «selvagem» num mundo de «safe-se quem puder», que se procura, quanto muito, «adocicar», aqui e acolá, com reinventadas e ultrajantes «esmolas» e «chás de caridade» (a)!

Esvazia-se o Estado, não só quando se lhe subtrai o que deveria estar sob a sua tutela, como garante da nossa vivência colectiva feita de solidariedade, como quando se assiste cada vez mais à desconsideração e desrespeito dos seus agentes.

Resta a esperança da nossa intrínseca natureza de animal «social» acabar por nos fazer recusar tal «selva», quando descobrirmos que, afinal, nunca poderemos nela ser verdadeiramente felizes.

No fundo, não haverá sabor mais saboroso no mundo que nos sentirmos a gostar de alguém e que esse alguém gostará de nós.

Onde faltar esse sabor, outra riqueza não haverá que o substitua.

(a) É o insuspeito George Soros, no seu recente livro «A era da falibilidade», quem, em dado momento, escreve: «Além disso, os mercados não são concebidos para cuidarem das necessidades sociais, como a manutenção da lei e da ordem, a protecção do ambiente, a justiça social… A satisfação das necessidades sociais pertence ao domínio da política».

LUÍS GANHÃO | ADVOGADO | JORNAL REGIÃO SUL | 26.03.2008 

Comentarios (2)add
... : Barracuda
Gosto de ler textos como este. Luis Ganhão merece a minha estima. É coisa rara. Não tenho nenhuma pelos nossos governantes mas reconheço que não são muito piores que os que mais nos respeitam, os dos países da UE. Pode ser fácil atirar pedras aos nossos e que todas lhes acertem é meu desejo mas, pela sua pequenês e insignificância, são mesmo menos perigosos para nós que aqueles que nos impôem comportamentos, modelos de sociedade, liberdades e modas e que no entanto não elegemos nem vituperamos. Permito-me esta pergunta ingénua e descabida para muitos: do que se passa em Portugal de negativo e que tantas vezes é aqui denunciado, qual a percentagem que resulta decididamente do querer dos nossos governantes? Atrevo-me a dizer que bem pouca e se fosse dado a usar percentagens inverificáveis, como os políticos soem fazer, ficar-me-ia pelos 10 por cento. O resto, ainda que eles o ocultem para se fazerem grandes, é importado: desde os filmes sobre a violência doméstica até às quotas femininas nas assembleias, casamentos contra natura, passando pelas privatizações, liberalizações, destruição do contrato de trabalho e sua transformação em mera prestação de serviços, envolvimento em políticas imperialistas e odiosas, perda da protecção nacional, exigência de comunicação de dados pessoais sem qualquer possibilidade de controlo do seu uso, destruição de direitos adquiridos em matéria de reformas e assitência através de descontos durante décadas, esvasiamento das pensões pela subida constantes da carga fiscal como se se tratasse de um rendimento sem contrapartidas já arrecadadas pelo devedor, pela degradação do ensino a todos os níveis para satisfazer vaidades pessoais de doutorice, mas sem conteúdo, da ralé, manipulação estatística dos que nada valem mas são convidados a legitimar, pelo seu voto estúpido, as correias de transmissão de mandantes transnacionais, tudo isto e muito mais vem decisivamente de fora. Perguntar-se-à porque razão os nossos governantes não o afirmam claramente, dando-nos conta da nossa submissão? Podiam fazê-lo e deviam fazê-lo. Não o fazem porque são petulantes e covardes. Têm medo da nossa reacção. Escusavam de o ter. Aí, na capacidade de suportar peso alheio, somos imbatíveis. Repare-se, como mero exemplo, nos gráficos das oscilações das várias bolsas de valores mobiliários. São todos iguais em todo o mundo que conta! Se reflectissem a economia real dos vários países que teoricamente visam reflectir as diferenças seriam notórias. Se assim não acontece é porque está montado um sistema mundial de mobilização de liquidez que se autoalimenta sempre em benefício dos mesmos colossos financeiros e retira a seu bel-prazer meios à economia real, àquela que nos dá bens e serviços, que nos permitiria irradicar a miséria degradante e que só por si é a demonstração clara de quem acusa outros por violação de direitos humanos deveria por fita gomada na sua cloaca e olhar para a sua casa. Num País onde há miséria, sobretudo infantil e dos mais velhos, que nada podem fazer para remediar a sua condição, não há direitos humanos respeitados.Ainda não há muito, num país da UE rico e que se arma em paladino dos direitos humanos, bastou uma vaga de calor para numa semana matar dezenas de milhares de idosos, nuitos dos quais morreram abandonados e cujos cadáveres estiveram dias e semanas à espera de quem os viesse reclamar! É esta a nossa realidade e queremos dar lições de moral ao mundo! Isto é válido para a UE em geral, que dispende biliões dos nossos impostos em acções de mero imperialismo que nem sequer nos aproveitam. Podiam ser os impostos dos mais ricos se é que estes os pagam efectivamente! Mas não, são mesmo os de todos dado o sistema de recolha de fundos para a financiar: essencialmente uma percentagem sobre o IVA. Quem a financia? Os milhões que pagam IVA e não o podem repercutir. Quem aproveita essencialmente da mane assim recolhida? Meia dúzia de tubarões em todos os Estados Membros! Como se vê e mais haveria a dizer os nossos importantes são bonecos de pano que se querem fazer passar por salvadores e garantes da nossa economia e do nosso bem-estar. Mas não é verdade. Se não querem confessar a impotência, pelo menos calem-se!
26.Março.2008
... : Maát
Também concordo. Parece que somos como gado, marcados na nádega com um número, organizados em série para fins produtivo-financeiros sem transparência, "carreados" para situações em que pouco importa quem somos de verdade, as nossas aspirações e carências e principalmente, emaranhados em situações dúbias contra a nossa vontade e sem a informação devida. Eu também cheguei a acreditar na democracia, mas agora já não. Será que realmente houve um 25 de Abril? Acho que não, acredito que estamos a ser enganados há 34 anos. "Parece" que houve revolução, libertação daquilo que nos oprimia, mas isso não é verdade! A realidade é que havia alguns idealistas com boas intenções, mas isso de nada valeu, por trás desta aparência de revolução há um sistema organizado que não se abala facilmente, que sempre obtém os seus propósitos e se ri de cada vez que o cidadão barafusta, para "eles" (aqueles que não mostram a cara, que permanecem independentemente do partido que ocupa o governo, por isso, fica sempre tudo "na mesma") o cidadão comum é barro para moldar e os seus interesses e direitos são meros impecilhos, facilmente afastados. Nós que somos livre-pensadores, somos encarados com desconfiança, vírus dentro do sistema que precisam ser aplacados...O que é a sociedade? Algo que está fora de nós, que foi construído á nossa volta e que connosco não tem relação, apesar de dizerem que existe por nossa causa! Mas será que está tudo a dormir?! Que alienação é esta? Ninguém levanta o dedo e diz "Hei!! Que mão invisível é esta que nos entorpece? Porque não posso fazer isto? Porque tenho que ficar calado? Quando, quem e porquê se começou a alienar???".
Democracia? Não sei o que é. Devíamos inventar qualquer coisa mais eficiente. Na verdade, ainda estou á espera do 25 de Abril. A mudança dói, mas tem de ser e "o que tem de ser tem muita força"!
03.Abril.2008
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