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Sou capaz de apreciar um quadro em que o respectivo autor, por exemplo,
conseguiu captar uma paisagem ou a expressão de alguém como se fosse
uma máquina fotográfica, tipo «Mona Lisa», de Leonardo da Vinci ou,
ainda, uma escultura reproduzindo tal e qual uma pessoa, como se a
mesma tivesse vida, como «David», de Michelangelo.Mas outras manifestações há classificadas como artísticas,
nomeadamente, no domínio da chamada arte moderna/contemporânea, em que,
humildemente, confesso, não consigo apreender a beleza de que se diz
serem possuídas, por mais que me esforce por o conseguir, observando-as
de perto, de longe, de lado, de esguelha, em bicos de pé, de cócoras,
com o estômago vazio, acabado de comer, ou, ainda, de cabeça para
baixo, fazendo o pino!
Certamente, falta de sensibilidade e cultura minhas para as poder
assimilar e apreciar enquanto tal, à semelhança do que acontece com o
vinho, em que, por mais que o faça rodar no copo, observe a contraluz,
cheire e prove, como vejo fazer aos considerados entendidos na matéria,
a tal «cor bem fechada, o nariz a revelar aromas de grande intensidade,
fruto vermelho com notas de compota, ligeira baunilha e notas de
madeira, com boca bem redonda, sem arestas, fresca e cheia, excelente
volume, a conferir um longo e persistente final de boca», é que nada!
No fim, fico-me por uma pouco conseguida distinção entre um tinto, um
branco e um rosé!
Mas, em tais momentos de frustração sentida, o que, ainda, me causa
algum conforto ao ego, é relembrar um documentário visto na televisão
algum tempo atrás, em que um grupo de cientistas teve a ideia de pôr um
chimpanzé com um pincel e umas latas de tinta frente a uma tela e,
depois de este a ter «borrado», pegaram nela e levaram-na para uma
galeria de arte moderna, onde, anonimamente, a colocaram entre outras
de autores tidos como consagrados.
Uma vez aí colocada, pediram, por sua vez, a uma não menos tida
como conceituada crítica do referido tipo de arte, para, sobre a mesma,
dar a sua avalizada opinião.
Então não é que a senhora crítica viu na «borrada» do chimpanzé a mão de alguém, artisticamente, muito promissor?!
Entretanto, como apanhei o dito documentário já a meio, fiquei,
apenas, sem saber qual tinha sido a finalidade do teste levado a cabo
pelos cientistas, se tentar provar a capacidade artística do chimpanzé
ou a hereditariedade da senhora crítica em relação ao mesmo.
LUÍS GANHÃO | ADVOGADO | JORNAL REGIÃO SUL | 18.03.2008
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