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POR LUÍS GANHÃO (*).
Segundo os últimos dados fornecidos pelo INE, entre 2000 e 2006, o
fosso entre as famílias mais ricas e as mais pobres aumentou, sendo que
os agregados familiares 10% mais ricos tinham um rendimento que
representava 8,9 vezes o auferido pela fatia mais pobre, diferença que
subia para quase 11 vezes ao tomar-se em conta, apenas, os rendimentos
monetários.
De acordo com o mesmo INE, os preços no consumidor subiram 3,1% em
Março, face ao mesmo mês do ano passado, enquanto a inflação média
anual pulou para 2,6%, já muito acima da meta de 2,1% que o Governo
usou para negociar os salários da Função Pública. Os maiores
agravamentos dão-se na cesta base da alimentação, prejudicando,
sobretudo, as classes mais desfavorecidas, onde o peso dos alimentos no
rendimento mensal é mais elevado.
Entre Agosto de 2007 e Fevereiro de 2008, encerraram/faliram 12 830 empresas.
Por
sua vez, entre 2004 e o presente, o número de portugueses a residir em
Espanha quase duplicou, tendo passado dos 55 mil para os 100 mil.
O número de desempregados ronda os 500.000 (não falando, claro
está, em todos os outros – cada vez mais - com contratos a prazo ou
trabalhando a mero «recibo verde», isto é, sem prazo sequer).
Estima-se em cerca de 300 000 os portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza.
Os beneficiários do Rendimento Social de Inserção aumentaram cerca de 10 por cento entre 2006 e o ano passado.
As
famílias sobreendividadas, ou seja, as que já recorrem ao crédito para
pagar outros créditos antes contraídos, têm, igualmente, vindo a
aumentar, só não sendo mais visível este fenómeno, ao que dizem os
estudiosos da matéria, pela «vergonha sentida» por muitas delas em
pedir auxílio, só o fazendo já em completo desespero de causa (a).
Como se já não bastasse, até um dos símbolos nacionais, o «garanhão
lusitano», estará a ser posto em causa, por suspeita de um criador ter
utilizado em reprodução um cavalo português de raça cruzada!
Tudo
isto, antes das ondas de choque da crise financeira nascida nos EUA nos
baterem à porta, o que, segundo alguns analistas, estará para breve, se
é que as primeiras não começaram a bater já!
Ah! Mas folguemos, uma vez que metade das empresas cotadas no
PSI-20 são geridas por ex-governantes que nos apertaram o cinto,
enquanto eles agora os seus afrouxam largamente, por via dos chorudos
vencimentos que passaram a auferir, com direito suplementar a carro,
motorista e cartão de crédito!
O seu «mérito» governativo, a sua «republicana» entrega à causa
«pública» teria, obviamente, mais tarde ou mais cedo, de ser
reconhecida/compensada, só os «invejosos» e «populistas» isso não
compreendendo e achando anormal que alguém, até, ligue para o pai ou
amigo comendador a dar a notícia «Já sou Ministro!», quando Ministro
seja nomeado!
(a) Normalmente, assiste-se, socialmente, a uma classe alta, uma
média e outra baixa. Em Portugal, onde se instituiu um modelo económico
original, traduzido na procura da privatização de tudo quanto possa dar
lucro e na socialização, através, de subsídios, das
dificuldades/prejuízos que se possam ter, os extractos sociais também
teriam de reflectir essa originalidade e, assim, a classe «média» vai
dando cada vez mais lugar à dos «sobreendividados», ou seja, aqueles a
quem se acena com o mundo dos ricos a «prestações», pagando juros aos
verdadeiramente ricos para estes ricos continuarem a ser, mas correndo,
ao invés, o risco de virem a cair na classe baixa!
(b) Um ex-governante de obras públicas e destacado político do
partido político actualmente no Governo, por uma empresa, que a obras
públicas concorre, acaba de ser contratado para a respectiva
Administração. No dia em que a contratação em causa foi anunciada, as
acções da dita empresa subiram de imediato de cotação no mercado
bolsista. Como será fácil de presumir, o dito mercado reagiu pela
positiva atendendo aos méritos, estritamente, «técnicos» da aludida
aquisição!
PS - «ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem
bem, discursam com cortesia e pura dicção e são excelentes convivas.
Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a
concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o
ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os
destinos políticos. Política do acaso, política do compadrio, política
de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por
interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de
camarilha, será possível conservar a sua independência?» - Eça de
Queiroz, 1867, in «O distrito de Évora».
* Advogado/Jornal «Região Sul», 2008-04-23
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