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Justiça na televisão criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
18-Jun-2007

António Barreto: «É errado e nefasto que a opinião pública possa ser "estimulada" por "aperitivos" de julgamento. Considero condenável que uma estação de televisão faça anteceder o julgamento de reportagens, mesmo autorizadas pelas instituições prisionais, judiciais e policiais, nas quais vários intervenientes no processo iniciam, de facto, o julgamento

Na última semana, o meu texto "Justiça de massas", sobre as reportagens televisivas que antecederam o julgamento de Santa Comba Dão, pode ter criado dúvidas sobre o papel profissional de um jornalista, Hélder Silva, autor de uma reportagem da RTP sobre o assunto e que me dirigiu um veemente protesto. Apesar de o jornalista e a RTP não terem sido expressamente mencionados, declaro que, depois de esclarecido, não ponho em causa o cumprimento dos deveres profissionais por parte de Hélder Silva. Não o fiz então, muito menos agora.

Entrevistado na prisão, em vésperas do julgamento, o arguido, acusado do assassinato de três jovens raparigas, negou as confissões a que alegadamente fora forçado pela polícia e declarou-se inocente. Dos crimes, acusou, nomeando-o, um vizinho. Disse eu que este último não aparecera nos ecrãs, "não se sabe se porque não quis ou se por não ter sido entrevistado". Apesar de tal não ser evidente, o jornalista considerou que eu pus em causa o seu profissionalismo. Na verdade, a pessoa acusada não foi entrevistada porque tinha negado fazê-lo. Eu tinha apenas referido essa hipótese. Sei agora, em pormenor, que o jornalista fez o que devia. Informa-me também que, em peças emitidas e que não vi (foram várias, durante pelo menos dois dias, as transmissões da reportagem e seus excertos), não faltara em esclarecer que a pessoa acusada tinha declinado o convite para fazer declarações.

Além disso, por lapso meu, referi as declarações de dois advogados do processo, quando deveria ter dito um só. Quanto ao resto, mantenho tudo quanto disse. Não por motivos de deontologia profissional, mas por razões mais fundamentais que decorrem das concepções de justiça e de informação, considero condenável que uma estação de televisão faça anteceder o julgamento de reportagens, mesmo autorizadas pelas instituições prisionais, judiciais e policiais, nas quais vários intervenientes no processo iniciam, de facto, o julgamento, diante de milhões de pessoas desprevenidas e sem conhecimento do processo. O que, neste caso, me separa do jornalista, da direcção de informação da RTP e das autoridades que permitiram as filmagens (e que terão sido o tribunal, o director da prisão, a Direcção dos Serviços Prisionais e a Polícia judiciária) é a concepção do papel da imprensa perante a justiça. É o modo como, muito especialmente, a televisão pode e deve tratar das questões em julgamento.

Não concordo com a prestação de declarações prévias aos julgamentos, esteja ainda o processo em segredo de justiça ou não. A função judicial necessita de reserva e recato. Tanto as vítimas como os arguidos, assim como os advogados e as polícias, têm o direito de se preservar para o julgamento. Mas também têm esse dever. Os debates em tribunal têm de ser originais e inéditos, à vista do público presente na sala. É errado e nefasto que a opinião pública possa ser "estimulada" por "aperitivos" de julgamento. O conflito de interesses (dos arguidos, da acusação, da justiça, da opinião pública e da imprensa) existe realmente, não cessa com o fim do segredo de justiça. Antes prossegue durante todo o processo, até ao trânsito em julgado. Estão em causa valores superiores (a inocência e a culpa, a serenidade e a isenção da justiça, a distância da justiça relativamente às pressões e às emoções públicas, etc.) que devem ser acautelados. A excessiva exposição mediática dos processos judiciais contraria frontalmente uma parte desses valores. Se todos os direitos das partes são garantidos, a liberdade de expressão não deve pôr em causa a justiça. A imprensa deve, evidentemente, tratar dos casos de justiça que estão em curso, deve obter as melhores e mais fiáveis informações, deve fazer tudo quanto as regras da boa profissão exigem. Mas não deve antecipar julgamentos, nem colocar frente a frente (directamente ou com dispositivos de montagem) os adversários. Há países em que esta reportagem, nos moldes em que foi feita, seria simplesmente proibida. E, caso fosse emitida, seria motivo para muito sérias penas (incluindo prisão) contra o jornalista, a estação de televisão e as autoridades que permitiram as filmagens naquelas condições.

Há duas ou três décadas, pelo menos, que se discute seriamente o papel da informação, particularmente o da televisão, nos processos judiciais e nos chamados casos de justiça. Vai-se lentamente construindo uma prática, nem sempre consensual. Há, por vezes, exagero de abertura e de "protagonismo" dos interessados. Mas também há, não poucas vezes, magistrados que não se importariam de fazer justiça quase em segredo. Certos processos e crimes têm o condão de despertar as atenções das televisões e do público, como foram, por exemplo os casos do Aquaparque, do Padre Frederico, da Casa Pia, do Apito Dourado, da adopção de criança disputada ou da pequenina raptada no Algarve. Em situações como essas, a tentação sensacionalista parece irresistível. Nem sempre se soube respeitar as fronteiras, as quais, aliás, não estão claramente traçadas. Mas raramente, como agora, se ultrapassaram os limites.

Na imprensa que leio, apenas Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias, reagiu energicamente a estes factos. Mais ninguém. Nem sequer a ordem dos Advogados ou as associações de magistrados. Muito menos o ministro da Justiça, o procurador-geral ou os conselhos das magistraturas. Disse e repito: só um país anestesiado assiste, impávido, a esta paródia.

Comentarios (10)add
... : galego
Último parágrafo: na mouche!
18.Junho.2007
... : Socrália
Concordo integralmente com o pensamento vertido por António Barreto, Homem, lúcido e livre.
Em nota de reforço, refiro:
1. antigamente, a Justiça, era feita na praça pública, sem mais. Assemelhava-se a fólclore.
2. no Mundo Civilizado a Justiça passou a ser objecto de reflexão, serenidade, racionalidade, recolhendo aos Tribunais.
3. No Mundo Pós-Moderno, regrediu, a bem do cidadão, obviamente, à barbárie!!
18.Junho.2007
... : josé costa - casal do marco
Cara/o Socrália, só peço que em último caso, não faça da justiça a sua profissão!
«1. antigamente, a Justiça, era feita na praça pública, sem mais. Assemelhava-se a fólclore.
2. no Mundo Civilizado a Justiça passou a ser objecto de reflexão, serenidade, racionalidade, recolhendo aos Tribunais.
3. No Mundo Pós-Moderno, regrediu, a bem do cidadão, obviamente, à barbárie!!»
.
Se assim for a JUSTIÇA deverá recolher, não aos tribunais mas sim e obviamente ao estábulo!

18.Junho.2007
... : archeiro verde
Estou em completo desacordo com o que escreveu António Barreto, embora respeite o que este grande sociólogo representa actualmente para o país (não há muitas vozes assim) e tenha bastante consideração e apreço pelo seu inquestionável saber. É sem dúvida uma pessoa bem intencionada, inteligente, muito lúcido, e até compreendo a lógica do seu discurso, mas, e como estamos numa sociedade democrática e por isso mesmo pluralista em termos de ideias e opiniões, permito-me discordar do que esta ilustre personagem diz no seu texto sobre "Justiça na Televisão". O povo também necessita de ver e sentir o outro lado da Justiça, o lado menos obscuro ou enigmático, o lado menos técnico, mais próximo, mais medieval, digamos assim (a proibida e tão por aí cantada "justiça privada"...), para melhor entender e respeitar a verdadeira e única Justiça aceitável num Estado de Direito Democrático baseado na soberania popular, que é aquela que é administrada pelos tribunais, orgãos de soberania independentes. Mas não vejo nenhum mal nem me preocupa nada que o povo exteriorize as suas emoções extrajurídicas na rua livremente, agarrado à matéria de facto (até serve de catarse - pobre e martirizado povo o nosso!), ou que a comunicação social vá ao encontro das suas próprias pegadas...
- Há muito mais coisas no Céu e na Terra, Horácio, do que tudo o que possas sonhar na tua filosofia. - Hamlet, Príncipe da Dinamarca.
Pois. Há coisas tão antigas e tão fiéis à Terra que nem o Poder, instalado ou não, pode mudar.
18.Junho.2007
... : Alberto Ruço
Nos processos judiciais gastam-se horas e dias a ouvir pessoas ( aguidos, ofendidos, testemunhas ) e a produzir outro tipo de provas ( exames, documentos ) para verificar se algo que é imputado a alguém ocorreu efectivamente no passado.
Estabelecer os factos que ocorreram no passado e estão sob julgamento implica um despêndio de actividade considerável, pois todos os interessados têm o poder/direito de intervir e dizer o que entendem relevante e o juiz tem de justificar a razão porque certo facto resultou provado.
É assim que se procede e ainda não se encontrou melhor procedimento.
Na televisão tudo se passa em uma ou duas hora, ou menos e ninguém coloca em dúvida de forma sistemática aquilo que cada um diz, nem tem de justificar aquilo que afirma.
Aquilo que é dito ou apresentado ao público tende a arvorar-se em verdade, quer porque o telespectador não tem atitude crítica e absorve passivamente o que vê, ou, se a tem, pode não ter conhecimentos para avaliar a veracidade daquilo que vê e ouve.
« Os médicos possuem sobre a vida e a morte dos doentes um poder importante, que deve necessariamente sofrer uma espécie de controle. (...) Proponho que o Estado crie um dispositivo semelhante para quem trabalhe na produção de programas televisivos. Seja quem for que participe nesta podução deveria ser titular de uma autorização, de uma licença ou de uma carteira, que poderia ser-lhe retirada definitivamente se alguma vez agisse em contradição com determinados princípios » - Karl Popper ( Karl Popper/Jonh Condry, Televisão : Um Perigo para a Democracia, pág. 25/26, Gradiva/Fev.2007 ).
Dizer o que quer que seja em televisão é comunicar com os outros.
Comunicar nestas condições tem de implicar responsabilidade, porque aquilo que é dito pode influenciar os telespectadores.
A falta de um código adequado de regras na Televisão assemelha-se à falta de Leis numa sociedade.
Porém, bem vistas as coisas, há sempre leis; há sempre a lei do mais forte!

19.Junho.2007
... : jjpensador
E o MAIS FORTE neste País, é (são) o que tem dinheiro a mais e podem-no gastar arriscando ganhar mais, com progamas sem ética ou sequer senso comum, (isto em televisão ou rádio), outros lançando OPAS, outros estudando os furos da Lei para fugirem com o património dum lado para outro, pondo os crédores a tentarem esforçadamente conseguir apanha-los, etc., etc.....
19.Junho.2007
... : PRodrigues
Lamento não poder alinhar pelo tom elogioso das apreciações sobre o doutor Barreto.
A obra científica, escassa, é um rol de banalidades de rigor duvidoso; os livros do doutor Barreto parecem ter vinte anos mal são publicados, de tal modo se demoram a dizer o que toda a gente sabe.
A "verve" comentarista do doutor Barreto é ainda pior: escreve quase sempre sobre o que não sabe, faz afirmações peremptórias que nunca justifica e que se limitam a reproduzir os chavões retóricos do Poder Socialista ou da conversa de café.
Exemplos?
Para o doutor Barreto os julgamentos são SEMPRE adiados, porque os Senhores Juízes têm muita imaginação; a grande causa do atraso do país é a "inadmissível protecção corporativa das magistraturas" (!);os tribunais estão a transformar Portugal num "estado pária", constantemente condenado no TEDH - pelos vistos o doutor Barreto nunca teve a paciência para consultar as bases de dados do TEDH, caso contrário veria algus dos paíeses que considera porta-estandartes dos direitos humanos igualmente condenados e até com maior frequência...
O último parágrafo do comentário do doutor Barreto é o cúmulo da hipocrisia. O doutor Barreto é sempre o primeiro a vociferar se as associações profissionais ou os Conselhos Superiores se manifestam sobre qualquer assunto, agitando o temível papão do "corporativismo".
Espanta-me que cause tanta aversão ao doutor Barreto o arremedo de "justiça popular" que agora comenta. Mais uma vez, parece que só se apercebe da realidade quando ela lhe entra pela sala de estar.
Tenho novidades quentes e boas para o doutor: este é o estado a que - também graças a si -isto chegou. E não adianta incomodar-se muito; isto vai mesmo piorar.
O pouco respeito que ainda poderia ter pelas opiniões do doutor Barreto esvai-se-me quando penso que o mesmo não se preocupa que a enorme gamela paga a entrevista que tanto critica - e é estranho que não se tenha chocado igualmente com as entrevsitas gentilmente concedidas a arguidos mais notáveis... - ou o miserável "Prós&Contras", também financia os documentários banalíssimos que o mesmo produz.
Um desfiar de imagens de arquivo acompanhado da voz sonolenta do doutor Barreto a dizer enormidades, tais como "o jornal A Bola é o mais lido no país", dificilmente se pode considerar "trabalho", muito menos "científico"...
19.Junho.2007
... : quase-licenciado
Não elogio o dr. Barreto.
Quanto à Justiça, fala habitualmente com superioridade e tom próprios de ignorante para-intelectual. Ele sabe muito pouco da nossa Justiça.
Ele produz muito pouco no que à sua actividade profissional pública diz respeito (v. na WWW). Mas, a coisa vai dando... Os "ares" convencem...
É o país que temos, que mereceria uma Justiça menos boa!

Se o dr. ou Doutor Barreto e os "prós e contras" deste país tivessem metade do rigor dos Tribunais, já tinham desistido de dar show e estariam a produzir algo de útil, finalmente!
19.Junho.2007
... : Drieu La Lys
todos gostariam de julgar os outros...mas só alguns o podem fazer.
todos gostariam de enriquecer...mas só alguns o são.
todos gostariam de...mas alguns...
e qual é o problema ?
Necessidade de ruído, é o que caracteriza esta época; na falta de sistemas, de textos, é o que dá.
20.Junho.2007
... : WAM
Em primeiro lugar deixe-me dar-lhe os meus parabéns pelo (maravilhosamente directo) artigo.
De facto parece não haver nada mais a acrecentar!
Em segundo, congratulo-o por ter a humildade (hoje em dia cada vez mais rara) de assumir um erro repondo a verdade dos factos.

-Contudo, permita-me apenas colocar em evidência o papel dos jornalistas, que cada vez mais assumem um protagonismo (por vezes bom, outras vezes nem tanto[e na maior parte delas péssimo]) considerável.
A verdade é que jornalistas estão simplesmente a fazer o seu trabalho,tal como os advogados e os juízes procuram fazer os seus.
Um jornalista nunca será considerado (pela população e principalmente pelos seus colegas) um bom profissional se deixar escapar, ou não noticiar um facto que não esteja sujeito ao segredo de justiça.
Por mais que nós advogados fiquemos frustrados com a mediatização de certos processos, nunca conseguiremos excluir totalmente a "sede de saber antes do tempo" inerente á condição humana.

Mas de uma prespectiva mais optimista, as coisas não serão tão más quanto á primeira vista se poderia pensar. Na minha opinião os valores e/ou princípios como o indúbio pro réu, a distancia da justiça face a pressões, a serenidade etc... nunca serão colocados em causa.
Isto porque eu (ainda) acredito que se possa fazer justiça apesar de todas as adversidades sociais, porque a Justiça é um valor supremo que não pode ser colocado ao mesmo nível das "paixões" e "emoções humanas" ( nem por elas ser ditada).
Claro que o que foi dito não exclui a necessidade de regular a matéria aqui versada. Mas julgo que devemos partir sempre do principio que a Justiça é "imutável" ás prepotentes "vagas ofensivas da sede de saber".



29.Junho.2007
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