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«Na actual conjuntura de afirmação de um novo PGR,o que se esperava era que a Procuradoria se afirmasse pelos resultados no foro próprio das suas funções, e não pela procura quase obsessiva de simpatia e de acolhimento de tudo e de todos, quando isso dá, ou pode dar, boa imprensa. Pelo caminho, esta "justiça" na praça pública torna-se norma. O povo aplaude, sem perceber que será a sua vítima».
JOSÉ PACHECO PEREIRA | REVISTA SÁBADO | 01.02.2007
O chamado caso "Esmeralda" trouxe mais um degrau para a descida aos infernos da justiça portuguesa, quando já se pensava que não havia muitos mais degraus a descer. Embora algum brilho inicial esteja já a perder-se pelo mecanismo jornalístico da perda da novidade , este é um típico caso de uma causa mediática-popular apressadamente construída nos seus papéis simples e maniqueístas e no apelo à emoção e aos afectos.
Esperava-se que ficasse pela imprensa do "coração" e pelo ajuntamento dos "populares" vaiando ou aplaudindo à saída dos tribunais os bons e os maus e nada mais. Mas não ficou, porque colocou uma parte da justiça a fazer de advogado da vox populi, colocou o Ministério Público a anunciar todos os dias nos jornais e nas televisões um "plano" para conseguir os objectivos "populares": libertar o "pai do coração", e dar a "menina" à sua família "de adopção". Pelo caminho, esta "justiça" na praça pública torna-se norma. O povo aplaude, sem perceber que será a sua vítima.
Na actual conjuntura de afirmação de um novo PGR,o que se esperava era que a Procuradoria se afirmasse pelos resultados no foro próprio das suas funções, e não pela procura quase obsessiva de simpatia e de acolhimento de tudo e de todos, quando isso dá, ou pode dar, boa imprensa. A decisão de escolher para tratar do Apito Dourado uma procuradora mediática mas que tem fama de competente, agressiva e honesta poderia ser um bom sinal. Vamos a ver se não foi apenas um sinal mediático e se há resultados.
A seguir, as dedarações do PGR na Assembleia da República foram desastrosas, e o que disse sobre o segredo de justiça pareceu-me leviano, vindo de quem é suposto aplicar a lei. Depois, o PGR recebeu Ana Comes e um cidadão que lhe entregou uns documentos desclassificados acessíveis em qualquer lado do mundo, e logo se anunciou a abertura de um inquérito sobre os "voos da dA". Gostava de saber ao abrigo de que lei no nosso ordenamento jurídico é feito tal inquérito.
Depois, vem o caso "Esmeralda" e a evidente tentativa do Ministério Público para ser o porta-voz dos sentimentos populares, com quase diário noticiário sobre as suas intenções presentes e futuras, numa atitude que pode ser considerada de pressão indevida sobre as partes e sobre os juízes. É um mau caminho para o PGR !
COMO SE CONSTRÓI UMA CAUSA
Um exemplo típico do mau jornalismo é a utilização de pseudo-sondagens, sem qualquer valor científico, nem indicativo, acessíveis a qualquer principiante na Internet que saiba ir ao sítio certopara propugnar uma causa. O Diário de Noticias dáo exemplo com uma pseudosondagem que há vários dias se encontra na edição em linha do jornaL Éum péssimo exemplo para um jornal que se pretende de referência.
Na página de abertura do jornal está um "inquérito" com a seguinte pergunta: "Concorda com a pena de seis anos de prisáo imposta ao pai adoptivo da criança de Torres Novas? Sim/Não." A pergunta é tipicamente manipuladora com aquele "imposta" a sugerir prepotência, para além de factualmente errada: não há qualquer "pai adoptivo" em causa na questão.
O jornal poderá dizer que se trata apenas de uma brincadeira ficcional, dado que os resultados de tal inquérito nunca teriam acolhimento no tratamento noticioso do jornal, mas todos sabemos o que significa este apelo à participação, que é também um apelo a tomar uma posição, mesmo na base de uma sugestão de falsidade. Tirem lá o "inquérito" da página, meus amigos, que isso faz mal à credibilidade do jornal!»
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